Como azeite e pimenta do reino ajudam o corpo a turbinar absorção dos nutrientes da comida

Fonte: BBC News Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/pixabay | Data: 30/01/2026 Ela é uma especiaria valorizada há milhares de anos por sua capacidade de dar sabor até aos pratos mais insípidos. A pimenta-do-reino começou a ser cultivada há mais de 3.500 anos na Índia, de onde é originária a planta que a produz, e se tornou um dos produtos mais valiosos do mundo antigo. Hoje em dia, a maioria das pessoas a usa como tempero na comida, muitas vezes sem nem pensar. Mas adicionar pimenta-do-reino às refeições pode trazer mais do que sabor: pode aumentar a quantidade de nutrientes absorvidos a partir dos alimentos. Os grãos de pimenta contêm uma substância química que facilita a absorção de vitaminas e outros nutrientes pela corrente sanguínea. Da mesma forma, minúsculas gotículas de gordura presentes no leite e no azeite de oliva também melhoram a disponibilidade de nutrientes no organismo. Os cientistas buscam explorar esses efeitos para desenvolver novos tipos de alimentos fortificados e ajudar pessoas que têm dificuldade em absorver os nutrientes necessários para se manter saudáveis. Um dos problemas enfrentados, mesmo com os alimentos mais nutritivos, é saber se o corpo consegue extrair vitaminas e minerais à medida que eles passam pelo sistema digestivo. No caso do milho doce, por exemplo, os grãos são, sem dúvida, repletos de nutrientes: são ricos em fibras, proteínas, vitaminas e micronutrientes como o potássio. Mas qualquer pessoa que já tenha olhado o vaso sanitário depois de comê-lo pode se perguntar quanto desse alimento foi, de fato, absorvido pelo organismo. A película externa que envolve o grão é difícil de ser digerida pelo corpo humano, especialmente quando não é bem mastigada. “Quando você come milho doce [sem mastigá-lo adequadamente], ele passa por todo o trato gastrointestinal e acaba no vaso sanitário, e todos os nutrientes que ele contém ficam ali”, diz David Julian McClements, professor de Ciência dos Alimentos da Universidade de Massachusetts (EUA). Felizmente, ao mastigar o milho doce, é possível liberar a polpa rica em nutrientes em seu interior, permitindo que ela seja digerida. O que é uma matriz? Esse exemplo extremo ilustra um fato simples sobre os alimentos: para que os nutrientes sejam digeridos e utilizados pelo organismo, eles precisam primeiro ser liberados da complexa matriz de proteínas, carboidratos, gorduras e outros componentes que conferem textura e estrutura aos alimentos. Existem ainda outras barreiras que podem dificultar a digestão das vitaminas. Depois de liberadas da matriz alimentar, as vitaminas precisam se dissolver no líquido gastrointestinal. Em seguida, devem ser transportadas até o intestino delgado, onde células especiais chamadas enterócitos as conduzem para a corrente sanguínea. No entanto, muitas vitaminas, entre elas A, D, E e K, que são classificadas como vitaminas lipossolúveis (que dissolvem em gordura), precisam de ajuda para chegar ao destino final. “As vitaminas lipossolúveis não se dissolvem em água, portanto, se você as consome e não há gordura na refeição, elas não se dissolvem e simplesmente percorrem o trato gastrointestinal, sendo eliminadas nas fezes”, diz McClements. A matriz alimentar também pode ajudar nesse processo. “Se você consumir [as vitaminas] com alguma gordura, essa gordura se decompõe e forma minúsculas partículas nanométricas chamadas micelas dentro do trato gastrointestinal”, explica McClements. “Essas estruturas retêm as vitaminas em seu interior e, em seguida, as transportam por meio do líquido gastrointestinal aquoso até as células epiteliais, onde podem ser absorvidas.” No entanto, algumas pessoas enfrentam dificuldades adicionais para obter vitaminas a partir dos alimentos. Pessoas com “síndrome de má absorção” apresentam capacidade reduzida de absorver nutrientes devido a danos no revestimento intestinal. Isso pode ocorrer por diferentes motivos, como doença inflamatória intestinal, doença celíaca, radioterapia e quimioterapia. Na pancreatite crônica, os pacientes deixam de produzir enzimas essenciais para a digestão de gorduras, proteínas e carboidratos. Doenças hepáticas também podem impedir a liberação da bile no intestino delgado. A bile auxilia na digestão das gorduras, e, sem gorduras na dieta, o organismo não consegue absorver as vitaminas lipossolúveis. Nesses casos, costuma-se recomendar o uso de suplementos vitamínicos. O problema dos suplementos “Os suplementos de vitaminas e minerais não deveriam ser usados de forma universal, e a maioria das pessoas não precisa deles”, afirma JoAnn Manson, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard (EUA), que realizou estudos de grande escala sobre vitaminas e suplementos. Segundo ela, uma alimentação saudável e equilibrada deveria ser suficiente. “No entanto, as pessoas com doença de Crohn, colite ulcerativa e doença celíaca frequentemente não conseguem absorver a gordura de forma adequada. Isso provoca deficiências de vitaminas lipossolúveis, como as vitaminas A, D, E e K. Portanto, o uso de um multivitamínico nesses casos pode ser bastante apropriado.” No entanto, as vitaminas são absorvidas com menor eficiência quando consumidas na forma de suplemento. Para contornar esse problema, os cientistas vêm desenvolvendo novas maneiras de administrar vitaminas para potencializar sua absorção. A chave, ao que tudo indica, está nas nanopartículas que se formam espontaneamente ao redor das vitaminas. “Os cientistas que pesquisam isso tentam simular o que o corpo já faz, mas utilizando outros tipos de moléculas que normalmente não estão presentes nos alimentos”, explica McClements, da Universidade de Massachusetts (EUA). As nanopartículas são extremamente pequenas, com uma largura que varia de 1 a 100 nanômetros (nm). Para efeito de comparação, um fio de cabelo humano tem espessura aproximada entre 80.000 nm e 100.000 nm. Enquanto isso, cientistas da Universidade de Alberta (Canadá) descobriram que encapsular vitamina D em nanopartículas feitas de proteína de ervilha também aumenta a absorção dessa vitamina. Já pesquisas conduzidas pelo próprio McClements mostraram que ingerir comprimidos de betacaroteno (precursor da vitamina A) junto com uma emulsão de nanoglóbulos de gordura, conhecida como lipossomos, pode elevar em 20% a biodisponibilidade do suplemento, ou seja, a quantidade de vitamina absorvida na corrente sanguínea. Entre as boas fontes de carotenoides estão frutas e verduras de cores intensas, como cenoura, brócolis, vegetais de folhas verdes e tomates. Em um estudo, McClements, da Universidade de Massachusetts, pediu que os participantes consumissem uma salada com e sem nanopartículas. A salada continha 50 g de espinafre, 50 g de alface-romana, 70 g

O que acontece no cérebro quando procrastinamos? Saiba como evitar a autossabotagem

Fonte: National Geographic Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 23/02/2026 Pesquisas mostram que o adiamento de tarefas importantes é motivado pela forma como o cérebro processa o estresse e a ameaça — e não por má gestão do tempo ou falta de disciplina. Comportamentos como procrastinação podem parecer falta de autocontrole, mas pesquisas sugerem que eles geralmente estão ligados à forma como o cérebro processa o estresse e a percepção de ameaça. Por Erica Sweeney Publicado 23 de fev. de 2026, 16:15 BRT O prazo de entrega da tarefa está no seu calendário há semanas. Mas, na noite anterior, o trabalho ainda não está concluído. Talvez você tenha subestimado o tempo necessário, pensado demais em como fazer tudo certo ou se preocupado com a recepção do público. Se esse cenário lhe parece familiar, você pode estar vivenciando uma forma de autossabotagem, um padrão “que impomos a nós mesmos, muitas vezes inconscientemente, e que acaba sabotando nossas vidas, nossos planos ou até nossos objetivos”, afirma Charlie Heriot-Maitland, psicóloga clínica e autora do livro “Controlled Explosions in Mental Health” (em tradução livre em português: “Explosões Controladas na Saúde Mental”), ainda inédito. Em vez de uma falta de motivação ou disciplina, a autossabotagem pode ter origem na forma como o cérebro reage a ameaças percebidas. Heriot-Maitland argumenta que ela pode “derivar de mecanismos evolutivos de sobrevivência”. Traumas, medos e padrões aprendidos podem reforçar ainda mais essa resposta. O resultado é um ciclo silencioso: comportamentos que parecem protetores no momento — adiamento, evitação, autocrítica — podem impedir que as pessoas alcancem os objetivos que mais lhes importam, muitas vezes sem que elas se deem conta. “Muitos desses ciclos de medo simplesmente os mantêm estagnados ou até mesmo os fazem regredir”, acrescenta Heriot-Maitland. Entender por que a autossabotagem acontece, dizem os pesquisadores, é o primeiro passo para interrompê-la. Veja aqui está o que os cientistas sabem sobre por que o cérebro faz isso — e o que pode ajudar a mudar esse padrão. (Sobre Ciência, leia também: A dieta nórdica tem muitos benefícios: é anti-inflamatória, pode ajudar a dormir melhor e viver mais) O que é autossabotagem? A autossabotagem refere-se a pensamentos e sentimentos que minam seus objetivos de longo prazo, afirma Tim Pychyl, psicólogo que estuda a procrastinação e autor do livro “Solving the Procrastination Puzzle” (em tradução livre: “Desvendando o Enigma da Procrastinação”).  A maioria das pessoas experimenta alguma forma de autossabotagem em algum momento, dizem os pesquisadores, embora para algumas ela permaneça ocasional, enquanto para outras se torna persistente e prejudicial. Ela pode assumir muitas formas diferentes, incluindo procrastinação, compulsão alimentar, gastos excessivos, obsessão por jogos de azar ou vícios diversos, afirma Pychyl. Além de comportamentos nocivos como perfeccionismo, pessimismo, autocrítica ou automutilação são outras maneiras de autossabotagem, acrescenta Heriot-Maitland. Quem se autossabota é frequentemente percebido erroneamente como preguiçoso ou indisciplinado, diz Pychyl, mas há uma diferença. Na procrastinação, por exemplo, você quer e está disposto a concluir uma tarefa, mas fatores emocionais ou psicológicos atrapalham. Já quando é um caso de preguiça, há uma “falta de vontade de se esforçar“, afirma ele. Por que nos autossabotamos? A autossabotagem provavelmente tem múltiplas causas, e mais pesquisas são necessárias para compreendê-la completamente, afirma Philip Jean-Richard-dit-Bressel, professor sênior de psicologia da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, Austrália, que estuda a psicobiologia da tomada de decisões e do comportamento. Um mecanismo fundamental é a resposta de luta ou fuga, ou resposta ao estresse, explica Pychyl. Essa resposta automática de sobrevivência é ativada na amígdala, a parte do cérebro que regula as emoções e as memórias.  De uma perspectiva evolutiva, a resposta foi projetada para proteger o indivíduo de ameaças que representavam risco de vida ou morte para os primeiros humanos. Ameaças modernas, como prazos ou críticas, ainda podem ativar essa resposta, mesmo que não sejam fisicamente perigosas, acrescenta Pychyl. Quando isso acontece, as pessoas podem recorrer a comportamentos que reduzem o desconforto ou proporcionam uma sensação de segurança momentânea, como ignorar prazos, tomar decisões precipitadas ou ser autocríticas, mesmo quando essas escolhas frequentemente acarretam consequências, afirma Heriot-Maitland. Dessa forma, a autossabotagem se torna um mecanismo de autoproteção. Por exemplo, se você não terminar sua apresentação, pode estar se protegendo de medos subjacentes de fracasso ou julgamento: “Vou causar esse pequeno prejuízo agora para evitar um prejuízo maior”, diz Heriot-Maitland. Esse alívio pode parecer gratificante a curto prazo, acrescenta Pychyl, “mas acaba se voltando contra nós“. Algumas pessoas podem ser biologicamente mais propensas a esses padrões do que outras. Um estudo de 2018 publicado na revista científica Psychological Science encontrou uma ligação entre um maior volume da amígdala e a “orientação para o estado”, ou seja, uma tendência a hesitar e adiar o início de ações, o que pode prejudicar o “comportamento direcionado a objetivos”.  Além disso, sob estresse, a atividade no córtex pré-frontal do cérebro — responsável pelo planejamento e autocontrole — pode ser reduzida, dificultando a supressão dos impulsos de evitação gerados pela amígdala. (Você pode se interessar: Como o estresse afeta o corpo?) A autossabotagem também pode ser aprendida e se tornar um hábito. Por exemplo, crescer em um ambiente de críticas severas pode ativar seu sistema de alerta em qualquer situação em que você receba feedback, afirma Heriot-Maitland. Pesquisas sugerem que os procrastinadores, especificamente, costumam adotar comportamentos de autopreservação. Um estudo mais antigo, publicado no Journal of Research in Personality, descobriu que os procrastinadores frequentemente criam obstáculos externos — como esperar até o último minuto — e atribuem o baixo desempenho a esses obstáculos, o que pode ajudar a preservar a autoestima. As experiências da infância também podem ser importantes. Algumas pesquisas sugerem que pessoas com pais emocionalmente imaturos ou que sofreram negligência emocional por parte dos pais podem ser mais propensas à autossabotagem. O medo do fracasso é outro fator comum, afirma Hal Hershfield, professor de marketing e tomada de decisões comportamentais na Universidade da Califórnia, Los Angeles (Estados Unidos), e autor do livro “Your Future Self” (em tradução livre, “Seu Eu do Futuro”). “Ironicamente, o medo de fracassar me impede de fazer algo, e então acabo fracassando.” As pessoas também tendem a supervalorizar o presente e desconsiderar o futuro, o que leva à procrastinação, diz Hershfield. Muitas pessoas também “simplesmente têm muita dificuldade em associar ações a resultados“, acrescenta Jean-Richard-dit-Bressel. Como parar de se autossabotar? A autossabotagem nem sempre está sob “controle consciente, mas existe um padrão aprendido que você pode desaprender”, diz Heriot-Maitland. Aqui estão algumas abordagens que os pesquisadores dizem que podem ajudar a reduzir a autossabotagem: Pratique mindfulness ou  meditação Tomar consciência das suas reações internas — como o medo do fracasso ou a vontade de procrastinar — é um primeiro passo importante, afirma Pychyl. O objetivo não é eliminar esses sentimentos, mas reconhecer que você não precisa agir de acordo com eles, o que muitas vezes é mais fácil dizer do que fazer. “As pessoas nem sempre têm

A dieta nórdica tem muitos benefícios: é anti-inflamatória, pode ajudar a dormir melhor e viver mais

Fonte: National Geographic Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 19/02/2026 A prima da dieta mediterrânea, originária de clima mais frio, oferece os mesmos benefícios para a saúde graças à combinação de alimentos ricos em propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. Por Stacey Colino Publicado 19 de fev. de 2026, 16:05 BRT Quando se pensa em regiões geográficas conhecidas por suas dietas saudáveis, logo os países mediterrâneos provavelmente vêm à mente. Mas a dieta nórdica é outra forte candidata ao título de melhor dieta do planeta, já que os padrões alimentares tradicionais dos povos da Dinamarca, Islândia, Finlândia, Noruega e Suécia oferecem muitos dos mesmos benefícios para a saúde. “É basicamente a prima da dieta mediterrânea, adaptada a climas mais frios”, afirma Dawn Jackson Blatner, nutricionista e autora do livro “The Superfood Swap“, de Chicago, Estados Unidos. “É muito semelhante, mas inclui mais alimentos que crescem em climas frios.” Criada por um grupo de nutricionistas, cientistas e chefs em 2004, a “nova dieta nórdica” baseia-se em alimentos locais e sazonais, com forte ênfase em saúde, sabor e sustentabilidade. “A dieta nórdica não é uma revelação sobre alimentação saudável — ela tem muito em comum com outros planos alimentares que promovem a saúde”, afirma David L. Katz, especialista em medicina preventiva, ex-presidente do American College of Lifestyle Medicine e coautor do livro “How to Eat” (“Como Comer”, em tradução livre).  “Todas as boas dietas são compostas de comida de verdade, principalmente de origem vegetal. A dieta nórdica é uma variação desse mesmo tema. Seus benefícios para a saúde se traduzem em vitalidade e longevidade em geral.” De fato, em uma edição de outubro de 2025 do European Journal of Nutrition, pesquisadores analisaram 47 estudos sobre os resultados de saúde associados à adesão à dieta nórdica. Pessoas que seguiram rigorosamente o estilo alimentar nórdico apresentaram um risco 22% menor de morte prematura por qualquer causa, um risco 16% menor de morte por doença cardiovascular e um risco 14% menor de morte por câncer, em comparação com aquelas com menor adesão. O que torna a dieta nórdica tão protetora para a saúde é a combinação de seus alimentos ricos em anti-inflamatórios e antioxidantes, juntamente com seu alto teor de fibras e óleos saudáveis. “É uma dieta de alta qualidade que funciona em todos os aspectos”, diz Katz. (Você pode se interessar também: Como ter um consumo consciente de álcool para não prejudicar a saúde) O que inclui a dieta nórdica? A dieta nórdica também inclui laticínios com baixo teor de gordura, como o skyr, um iogurte islandês rico em proteínas, e também o kefir, uma bebida láctea fermentada. Em contrapartida, ovos e carnes magras, como bisão, veado e rena, são consumidos com moderação, por outro lado, os alimentos açucarados e ultraprocessados ​​são desencorajados, mas não excluídos. Assim como a dieta mediterrânea, a dieta nórdica não proíbe certos alimentos. Ela se assemelha mais a um estilo alimentar flexível do que a uma dieta estruturada. Benefícios da dieta nórdica para a saúde A dieta nórdica não é tão estudada quanto a dieta mediterrânea, mas as evidências científicas que comprovam seus benefícios estão aumentando. De fato, pesquisas descobriram que a alta adesão à dieta nórdica está associada à redução do risco de doenças cardíacas, acidente vascular cerebral e diabetes tipo 2, bem como à redução do colesterol LDL, da apolipoproteína B e da pressão arterial sistólica. Por exemplo, um estudo de 2017 publicado no European Journal of Clinical Nutrition constatou que pessoas de meia-idade na Dinamarca que seguiam rigorosamente a dieta nórdica apresentavam um risco significativamente menor de ataque cardíaco durante um período de acompanhamento de 13,5 anos.  Um estudo publicado em 2024 na revista Scientific Reports revelou que as pessoas que seguiam a dieta nórdica com maior rigor apresentavam um risco 58% menor de desenvolver doença hepática gordurosa não alcoólica, em comparação com aquelas com menor adesão.  Já um estudo publicado em 2025 na revista científica Frontiers in Endocrinology constatou que as pessoas que seguiam rigorosamente a dieta nórdica apresentavam um risco 58% menor de desenvolver diabetes tipo 2. E a dieta também apresenta benefícios para o dia a dia. Um estudo de 2022 descobriu que seguir uma dieta nórdica melhorou a qualidade do sono, enquanto outro estudo constatou que mulheres idosas que seguem uma dieta nórdica apresentam melhores resultados em testes de desempenho físico — incluindo o teste de caminhada de seis minutos, flexões de braço e levantar-se de uma cadeira. Essas descobertas levaram os pesquisadores a concluir que esse estilo alimentar pode ajudar a reduzir o risco de incapacidade na terceira idade. Embora não seja uma dieta específica para perda de peso, ela pode ter esse efeito. Uma revisão de sete estudos sobre o assunto constatou que pessoas que seguiram a dieta nórdica apresentaram melhorias no peso corporal. Um benefício adicional: assim como outras dietas à base de plantas, a dieta nórdica pode ser também especialmente saudável para o planeta. “Um ponto positivo da dieta nórdica é que ela prioriza a saúde ambiental com alimentos de origem local e da estação“, afirma Laura Chiavaroli, professora assistente do departamento de ciências nutricionais da Universidade de Toronto, no Canadá. Alimentos de origem local exigem menos transporte e, portanto, produzem menos emissões de gases de efeito estufa. E “leguminosas e vegetais têm uma pegada ambiental menor”, acrescenta ela. (Você pode se interessar: Ir à praia faz bem ao cérebro, segundo a ciência. Há vários benefícios de momentos junto ao mar) Efeitos anti-inflamatórios e outros motivos pelos quais a dieta nórdica funciona O que torna a dieta nórdica benéfica para tantas condições de saúde diferentes são os alimentos anti-inflamatórios e ricos em antioxidantes que ela contém. Isso é significativo porque a inflamação é a principal via de acesso a todas as principais doenças crônicas, observa Katz. “Os componentes da dieta nórdica, especialmente as frutas e os vegetais, são fontes ricas em antioxidantes”, afirma Chiavaroli. Além disso, os grãos integrais, frutas, vegetais e leguminosas presentes na dieta são boas fontes de fibras, que podem ajudar a aumentar a sensação de saciedade e promover o crescimento de bactérias saudáveis ​​no intestino, acrescenta Chiavaroli. Além disso, grãos integrais como centeio e cevada têm um índice glicêmico mais baixo, o que ajuda na regulação do açúcar no sangue, observa Andrea Glenn, nutricionista e professora assistente de nutrição da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos. E os ácidos graxos ômega-3 presentes em peixes oleosos são benéficos para a saúde do coração e do cérebro, afirma Blatner. Além disso, a dieta nórdica “ajuda a equilibrar os níveis hormonais, principalmente de insulina, hormônios do estresse como epinefrina, norepinefrina e cortisol, e [hormônios reguladores do apetite como] grelina e leptina”, explica Katz. De fato, essa dieta é um exemplo de como a soma de seus ingredientes é maior do que a soma das partes individuais. “O que torna a dieta nórdica tão saudável é que há muitos fatores trabalhando juntos — provavelmente uma combinação de alimentos que reduzem

Campanha de Vacinação BB

Fonte: CASSI | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 27/04/2026 Todos os funcionários ativos, estagiários e jovens aprendizes do Banco do Brasil são convidados a receber, gratuitamente, a vacina contra a gripe em 2026. Essa é uma das iniciativas de promoção da saúde desenvolvidas pela área de Saúde do Trabalhador do BB, em parceria com a CASSI, no âmbito do convênio do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO). A campanha deste ano iniciou, em âmbito nacional, no dia 27 de abril e seguirá até o dia 30 de junho. Onde receber a vacina? A vacinação estará disponível em agências e demais dependências do BB, em diversas cidades, além de clínicas credenciadas. Para consultar os locais disponíveis, clique aqui.  * O calendário de Minas Gerais será atualizado semanalmente no Portal. Como será? – Consulte o cronograma de vacinação no portal Saúde Ocupacional para verificar se a aplicação ocorrerá em sua dependência ou em uma clínica credenciada. – No momento da vacinação, é necessário apresentar o crachá ou um documento de identificação. Por que se vacinar? Assista ao vídeo para entender a importância da vacinação, com orientações da médica do trabalho Marília Bonono, da CASSI. Um gesto simples que protege você e todos ao seu redor. Benefício da vacinação contra a gripe – Reduz o risco de infecção – Alivia os sintomas, se houver infecção – Evita complicações graves – Protege pessoas vulneráveis – Contribui para a proteção coletiva A vacina pode provocar a doença? – Não, é feita com vírus morto. – Quando há reações, como dor no braço vacinado ou indisposição, significa que o organismo está “treinando” para combater o vírus, caso entre em contato com ele. Quando é possível solicitar o reembolso? Você pode solicitar o reembolso integral nas seguintes situações: – Se perdeu a vacinação no dia programado para sua agência; – Se sua agência não foi contemplada no cronograma; – Se não há clínica credenciada na sua localidade. Como solicitar reembolso: – Antes de se vacinar, é necessário solicitar autorização prévia (senha) à CASSI. – Após a vacinação, acesse a área logada de Saúde Ocupacional (clique aqui) e, na opção Reembolso PCMSO, informe a senha de autorização disponibilizada pela CASSI e anexe a nota fiscal. Em seguida, basta solicitar o reembolso. – Essa orientação também se aplica a egressos de bancos incorporados e a funcionários não optantes da CASSI.

Quantos ovos comer por dia sem aumentar o colesterol? A resposta mudou (e os médicos finalmente concordam)

Fonte: Nacional Geographic Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 17/04/2026 As gemas dos ovos têm sido culpadas há tempos como as causadoras de colesterol alto. Mas evidências científicas crescentes sugerem que elas nunca foram o real problema. Por Stacey Colino Publicado 10 de mar. de 2026, 07:10 BRT Esqueça as omeletes sem graça feitas apenas com claras: isso porque um mito está se desfazendo e as gemas dos ovos não são mais as vilãs da dieta que já foram. Nos últimos anos, houve uma grande mudança na forma como os especialistas encaram o colesterol alimentar, ou seja, o tipo de colesterol encontrado em alimentos de origem animal.  A partir da década de 1960, as diretrizes alimentares recomendavam limitar a ingestão de colesterol a no máximo 300 mg/dia, com base na crença de que ele eleva o colesterol ruim no sangue e aumenta o risco de doenças cardíacas. Nesse contexto, as gemas de ovo eram consideradas uma fonte particularmente potente de colesterol. No entanto, essa recomendação de limitação do colesterol foi finalmente revogada em 2016, porque as evidências científicas não sustentavam uma forte ligação entre o colesterol alimentar e as doenças cardíacas.  Estudos mais recentes mostraram que a gordura saturada, e não o colesterol alimentar, é o que realmente faz a diferença nos níveis de colesterol no sangue. Em 2025, um estudo randomizado cruzado publicado no The American Journal of Clinical Nutrition confirmou que o consumo de dois ovos por dia, como parte de uma dieta com baixo teor de gordura saturada, levou à redução do colesterol LDL (o “colesterol ruim”) após cinco semanas. Em contrapartida, seguir uma dieta rica em colesterol e gordura saturada, com ou sem um ovo por semana, não apresentou o mesmo efeito. Eliminar as gemas também priva você de importantes benefícios nutricionais. “A grande maioria dos nutrientes de um ovo está na gema”, afirma Keith Ayoob, nutricionista registrado na cidade de Nova York e professor associado emérito de pediatria no Albert Einstein College of Medicine, Estados Unidos. Dito isso, ainda pode haver bons motivos para limitar a quantidade de ovos que você consome. (Sobre Saúde, leia também: O corpo feminino é excepcionalmente flexível – e isso o torna superforte) O que realmente aumenta o seu colesterol? Embora seja verdade que as gemas de ovo contenham colesterol, “a maior parte do colesterol no nosso sangue é produzida no fígado, e não proveniente diretamente da alimentação”, explica David L. Katz, especialista em medicina preventiva e ex-presidente do American College of Lifestyle Medicine, nos Estados Unidos. Nossos genes influenciam a quantidade de colesterol que o fígado produz e a quantidade que ele elimina do sangue. Com base em fatores genéticos, cada pessoa pode reagir de forma diferente às fontes alimentares de colesterol; algumas pessoas são hipersensíveis a ele, enquanto outras não. A alimentação importa, porém — só que não da maneira que você imagina. “O maior fator alimentar que influencia o colesterol no sangue não é o colesterol proveniente dos alimentos naturais, mas sim da gordura saturada”, afirma Ayoob. Pesquisas demonstraram que a gordura saturada aumenta o colesterol LDL, dificultando a sua remoção do sangue pelo fígado e estimulando a produção de apolipoproteína B. Ambos os fatores levam a níveis mais elevados de partículas de colesterol circulantes no sangue, o que pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares. Por isso, especialistas afirmam que é sensato focar na restrição da ingestão de gordura saturada para a saúde do coração e a saúde em geral. As Diretrizes Alimentares para Norte-americanos de 2025-2030 continuam recomendando limitar o consumo de gordura saturada a no máximo 10% do total de calorias diárias, ou um máximo de 20 gramas por dia. Isso significa, na prática, limitar a ingestão de manteiga, laticínios integrais, carnes vermelhas, queijos e óleos tropicais, como o óleo de coco. “Quando as pessoas demonizam os ovos, o problema não são os ovos em si, mas sim o que você come com eles”, afirma Ayoob. Então, pense: você está preparando seus ovos mexidos com muita manteiga? Está comendo bacon e torradas com bastante manteiga junto com os ovos? Ou está comendo vegetais ou frutas com os ovos? (Você pode se interessar também: Os 4 benefícios do ovo para a saúde: ele é considerado “o alimento completo”) Quantos ovos você pode comer? Os ovos e suas gemas são ricos em nutrientes. Um ovo grande contém quase 3 gramas de proteína, 22 mg de cálcio, 66 mg de fósforo, 19 mg de potássio e 10 gramas de selênio, além de folato, colina, vitamina A, vitamina D, vitamina E, vitamina K, aminoácidos, ácidos graxos ômega-3, luteína e zeaxantina. Alguns desses nutrientes são especialmente importantes porque poucos alimentos contêm vitamina D ou colina, que são essenciais para a saúde cerebral, afirma Bethany Thayer, nutricionista e diretora do Centro de Promoção da Saúde do Henry Ford Health em Detroit. “Mas isso não significa que você deva comer uma dúzia de ovos de uma só vez“, alerta Thayer. A Associação Norte-americana do Coração afirma que adultos saudáveis ​​podem consumir de um a dois ovos por dia com segurança, cada um contendo cerca de 206 mg de colesterol. No entanto, lembre-se de que seus genes também podem afetar a quantidade de colesterol que você absorve de alimentos como ovos, diz Ayoob. Portanto, é prudente monitorar seus níveis de colesterol e hábitos alimentares, e moderar o consumo de ovos de acordo. A relação entre o consumo de colesterol alimentar e os níveis de colesterol no corpo “é um pouco diferente para cada pessoa“, afirma Julia Zumpano, nutricionista do Centro de Nutrição Humana da Cleveland Clinic. Quando se trata de colesterol no sangue, de 60% a 80% é influenciado por fatores genéticos, e de 20% a 40% pela dieta, observa ela. Em geral, pessoas com colesterol alto podem consumir até quatro gemas de ovo por semana, enquanto aquelas que não têm colesterol alto, mas possuem histórico familiar de alterações no colesterol, podem consumir até seis gemas de ovo por semana, diz Zumpano. Para manter suas refeições à base de ovos saudáveis, Ayoob recomenda cozinhá-los em azeite extra virgem ou óleo vegetal em vez de manteiga e acompanhá-los com torradas integrais, feijão ou vegetais. “Alimentos ricos em fibras ajudam a bloquear a reabsorção do colesterol que seu corpo produz”, explica ele. Graças a essa nova compreensão científica sobre a falta de associação entre o colesterol alimentar e o colesterol sanguíneo, os ovos foram redescobertos como uma parte valiosa de uma dieta saudável. “Os ovos são realmente o alimento perfeito“, conclui Ayoob. “Eles são supernutritivos, versáteis e baratos.”

Você acorda no meio da madrugada? Entenda o que pode estar acontecendo

Fonte: BBC News Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Canva | Data: 20/04/2026 São três horas da manhã. O quarto está escuro, a casa está silenciosa, mas seu cérebro subitamente começa a trabalhar a todo vapor. Muitas pessoas acordam mais ou menos no mesmo horário todas as noites e começam a imaginar se algo está errado com seu repouso. Na verdade, acordar durante a noite é uma parte normal do sono. A maioria das pessoas acorda rapidamente várias vezes ao longo da noite e, normalmente, volta a dormir tão rápido que nem se lembra ao acordar de manhã. O problema surge quando esse despertar dura mais tempo ou começa a acontecer no mesmo horário, todas as noites, deixando você menos descansado no dia seguinte. O sono não acontece em um período longo e sem interrupções. Ao longo da noite, o cérebro atravessa ciclos de sono que se repetem. Cada um deles dura cerca de 90 a 110 minutos. Cada ciclo inclui diversos estágios: sono leve, profundo e movimento rápido dos olhos (REM, na sigla em inglês), quando ocorre a maior parte dos sonhos. A maioria dos adultos passa por quatro a seis desses ciclos todas as noites. Mais para o final de cada ciclo, o sono fica mais leve e pode ocorrer um rápido despertar. O sono profundo também ocorre principalmente no início da noite e se torna menos frequente à medida que a manhã se aproxima. Por isso, acordar nas primeiras horas do dia não é algo incomum. O estresse pode fazer com que esse despertar se torne muito mais pronunciável. No início da manhã, o corpo começa a se preparar para acordar e os níveis de cortisol (um hormônio relacionado à prontidão) começam a aumentar. Este aumento faz parte do ritmo diário normal do corpo e ajuda a nos sentirmos mais despertos à medida em que a manhã se aproxima. Mas, se a sua mente já está repleta de preocupações com o trabalho, relacionamentos ou as pressões do dia a dia, um rápido despertar pode se tornar uma onda de ruminações. À noite, temos menos distrações. Por isso, os pensamentos que podem parecer gerenciáveis durante o dia podem ganhar importância e se tornar preocupações que não conseguimos relevar. Não surpreende que o estresse e a ruminação estejam fortemente relacionados aos sintomas da insônia, o que pode fazer com que voltar a dormir fique muito mais difícil. Os hábitos diários também podem definir quando e com que frequência as pessoas acordam durante a noite. O álcool, por exemplo, pode ajudar as pessoas a dormir mais rápido, mas costuma fragmentar o sono, fazendo as pessoas despertarem mais vezes na segunda metade da noite. A cafeína pode ter efeitos similares. Mesmo quando consumida à tarde, ela pode permanecer no corpo por horas, deixando o sono mais leve e aumentando a probabilidade de se acordar durante a noite. A cafeína pode interferir no sono se for tomada até seis horas antes da hora de dormir. E outros fatores também são importantes. Horários de sono irregulares, ir para a cama muito antes que o normal para descansar mais, a exposição à luz ou telas tarde da noite ou um quarto quente ou frio demais podem reduzir a qualidade do sono e aumentar a probabilidade de se acordar ao longo da noite. Para algumas pessoas, acordar repetidamente pode fazer parte de um ciclo vicioso que, se persistir, pode se transformar em insônia. Depois de passar várias noites acordado e se preocupando com o sono, o cérebro pode começar a associar a noite ao estresse e estado de alerta, em vez de repouso. E, quanto mais alguém se preocupa em ficar acordado, mais difícil será adormecer novamente. Pequenos hábitos podem reforçar este padrão. Verificar o relógio durante a noite, por exemplo, pode aumentar a frustração e deixar a mente mais alerta. Os tratamentos para insônia, como a terapia cognitivo-comportamental, buscam romper este ciclo, alterando os pensamentos e comportamentos que mantêm o cérebro alerta à noite. Pequenas mudanças de rotina podem ajudar o corpo a manter um ritmo mais estável. Eles costumam ser chamados de higiene do sono — hábitos que nos ajudam a ter um sono saudável. Manter um horário de acordar constante, mesmo após uma noite ruim, ajuda a regular o relógio corporal e estabilizar os padrões de sono. Reservar algum tempo para relaxar antes de ir para a cama, reduzir a cafeína e o álcool ao longo do dia e criar um ambiente calmo para dormir também pode fazer você acordar menos durante a noite. Se você ficar acordado por muito tempo, sair da cama rapidamente e fazer algo relaxante até sentir sono de novo pode ajudar. Isso ajuda a romper a relação entre a cama e a vigília. Gerenciar o estresse ao longo do dia também pode fazer diferença, reduzindo a tensão e o estado de alerta na hora de ir para a cama . Escrever um diário, praticar ioga, meditação, exercícios de respiração e mindfulness (atenção plena) podem ajudar a acalmar a mente antes de dormir. Acordar às três horas da manhã pode parecer preocupante, mas o despertar noturno ocasional faz parte do funcionamento do sono. Compreender o que está acontecendo no corpo e como o estresse e os hábitos do dia a dia influenciam o sono pode fazer com que esses momentos no meio da noite pareçam um pouco menos alarmantes. *Talar Moukhtarian é professora de saúde mental da Faculdade de Medicina da Universidade de Warwick, no Reino Unido. Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob licença Creative Commons. Leia aqui a versão original em inglês.

Dor nas costas, partos difíceis, dentes apinhados e sinusites: os ‘defeitos’ evolutivos que questionam ideia do ‘design inteligente’ do corpo humano

Fonte: BBC News Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Canva | Data: 20/04/2026 O corpo humano é frequentemente descrito como uma maravilha de “design perfeito”: elegante, eficiente e finamente ajustado à sua função. No entanto, ao observá-lo mais atentamente, surge um quadro bem diferente. Longe de ser uma máquina impecável, o corpo se assemelha mais a um mosaico moldado por milhões de anos de experimentação evolutiva. O trade-off evolutivo, ou custo evolutivo, é um ganho que vem acompanhado de uma perda ou limitação. Ou seja, a evolução não cria estruturas do zero; ela modifica o que já existe. E consequentemente, muitos aspectos da anatomia humana são simplesmente soluções “boas o suficiente”: funcionais, mas longe da perfeição. A coluna vertebral A coluna vertebral humana é o melhor exemplo disso. Nossa coluna evoluiu pouco desde nossos ancestrais quadrúpedes e arborícolas, onde funcionava principalmente como uma viga flexível para movimentos suaves de galho em galho, além de proteger a medula espinhal. Quando os humanos adotaram o bipedalismo, a coluna manteve essas funções. Mas também se adaptou à necessidade adicional de sustentar o peso do nosso corpo verticalmente e manter nosso centro de gravidade, permitindo, ao mesmo tempo, que tenhamos a flexibilidade necessária para nos movermos. Essas demandas opostas criam tensão. As curvaturas características da coluna humana ajudam a distribuir o peso, mas também nos predispõem a dores lombares, hérnias de disco e alterações degenerativas que afetam sua função mais importante: proteger a medula espinhal e os nervos ao redor. Essas condições são extraordinariamente comuns, não porque a coluna seja inerentemente defeituosa, mas porque desempenha uma função diferente da atribuída originalmente. O pescoço Outro argumento claro contra um projeto divino é o nervo laríngeo recorrente, que segue um trajeto que simplesmente não faz sentido ter sido inventado assim. Esse nervo, um ramo do nervo vago, controla principalmente as funções de repouso e digestão de nossos órgãos (como a redução da frequência cardíaca e respiratória). O nervo laríngeo também conecta o cérebro à laringe, ajudando a controlar a fala e a deglutição. Logicamente, seria de se esperar que ele utilizasse a rota mais direta para conectar o cérebro à laringe. Em vez disso, ele desce do cérebro para o tórax, contorna uma artéria importante e então retorna à laringe. Esse desvio não é um projeto engenhoso, mas um vestígio histórico de nossos ancestrais semelhantes a peixes, quando o nervo seguia um caminho direto ao redor dos arcos branquiais. À medida que os pescoços se alongaram ao longo do tempo evolutivo, o nervo se esticou em vez de ser redirecionado. Essa ineficiência pode aumentar nossa vulnerabilidade a lesões durante cirurgias. Os olhos Até mesmo nossos olhos refletem um custo evolutivo. Em humanos e outros vertebrados, a retina (a camada sensível à luz na parte posterior do globo ocular) é conectada “de cabeça para baixo”. Isso significa que a luz precisa passar por camadas de fibras nervosas antes de chegar aos fotorreceptores, células especializadas responsáveis por detectar a luz e convertê-la em um impulso nervoso que é enviado ao cérebro. O nervo óptico sai pela parte posterior da retina, criando um ponto cego logo abaixo da linha horizontal do olho, onde a visão não é possível. O cérebro compensa essa deficiência perfeitamente, de modo que raramente a percebemos. Portanto, embora tenhamos desenvolvido uma visão e células fotorreceptoras incríveis, isso teve como custo uma lacuna em nosso campo visual. Os dentes Nossos dentes nos lembram mais uma vez que a evolução prioriza a aptidão em detrimento da durabilidade. Os humanos desenvolvem duas dentições: dentes de leite e dentes permanentes, e só. Uma vez perdidos, os dentes permanentes não são substituídos, ao contrário dos tubarões, que regeneram seus dentes continuamente ao longo da vida. Nos mamíferos, o desenvolvimento dentário é rigorosamente regulado e está ligado ao crescimento complexo da mandíbula e às estratégias de alimentação. Esse sistema funcionou bem para nossos ancestrais, mas torna os humanos modernos vulneráveis ​​a cáries e à perda dentária. Os dentes do siso são outro exemplo de atraso evolutivo. Nossos ancestrais tinham mandíbulas maiores, adaptadas a dietas mais duras que exigiam mastigação intensa. Com o tempo, a dieta humana se tornou mais macia e o tamanho da mandíbula diminuiu. No entanto, o número de dentes não mudou tão rapidamente. Muitas pessoas não têm mais espaço suficiente para os dentes do siso, o que leva à impactação, ao apinhamento e, muitas vezes, à necessidade de extração cirúrgica. Os dentes do siso não são inerentemente inúteis, mas não se encaixam mais confortavelmente nos crânios modernos. A pélvis O parto representa um dos custos evolutivos mais profundos. Assim como a coluna vertebral, a pelve humana precisa equilibrar duas demandas opostas: a locomoção bípede eficiente e o nascimento de bebês com cérebros grandes. Uma pelve estreita facilita a locomoção, mas limita o tamanho do canal vaginal. Por outro lado, os bebês humanos têm cabeças excepcionalmente grandes em relação ao tamanho do corpo, o que resulta em partos difíceis e, às vezes, perigosos, que frequentemente exigem assistência externa. Essa tensão entre mobilidade e tamanho do cérebro moldou não apenas a anatomia, mas também o comportamento social, fomentando o cuidado cooperativo e adaptações culturais em torno do parto. Persistência evolutiva A evolução não elimina necessariamente estruturas, a menos que elas imponham uma grande desvantagem. Portanto, algumas características anatômicas persistem apesar de oferecerem benefícios limitados. O apêndice, antes considerado um vestígio evolutivo completamente inútil, agora acredita-se que tenha funções imunológicas menores. No entanto, ele pode inflamar e causar apendicite, uma condição potencialmente fatal. Da mesma forma, os seios da face têm funções que ainda não são totalmente claras. Eles podem aliviar o peso do crânio ou influenciar a ressonância da voz, e podemos até usar seu tamanho e variabilidade para identificação forense. No entanto, as vias de drenagem dos seios da face desembocam diretamente no nariz, tornando-os propensos a bloqueios e infecções frequentes — um efeito colateral do desenvolvimento, e não uma adaptação deliberada. Até mesmo os minúsculos músculos ao redor das orelhas oferecem pistas sobre nosso passado evolutivo. Em muitos mamíferos, esses pequenos músculos permitem que a aurícula gire,

Março Azul: exames para rastrear câncer de intestino triplicam no SUS

Fonte: Agência EBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 23/03/2026 O maior volume de pesquisas de sangue oculto nas fezes ocorreu em SP Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil – Publicado em 23/03/2026 – Brasília O número de exames para detecção precoce do câncer de intestino realizados via Sistema Único de Saúde (SUS) triplicou ao longo da última década. Os dados fazem parte de levantamento feito no âmbito da campanha Março Azul e mostram que tanto a pesquisa de sangue oculto nas fezes quanto as colonoscopias registraram expansão significativa na rede pública de saúde. De acordo com o levantamento, entre 2016 e 2025, a pesquisa de sangue oculto nas fezes passou de 1.146.998 para 3.336.561 exames realizados no SUS – crescimento de aproximadamente 190%. Já as colonoscopias aumentaram de 261.214 para 639.924 procedimentos no mesmo período – avanço de cerca de 145%. Em 2025, o maior volume de pesquisas de sangue oculto nas fezes foi registrado no estado de São Paulo, com 1.174.403 exames, seguido por Minas Gerais, com 693.289, e Santa Catarina, com 310.391. Na outra ponta, os menores números ocorreram no Amapá, com 1.356 exames, no Acre, com 1.558, e em Roraima, com 2.984. >> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp Análise Para o presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed), Eduardo Guimarães Hourneaux, o cenário está associado ao avanço de estratégias de conscientização e à maior mobilização promovida por entidades médicas no país. “A campanha Março Azul tem transformado o medo em atitude e esperança”. “A cada ano, mais pessoas deixam de adiar o cuidado com a saúde do intestino e procuram os serviços de saúde para realizar exames, o que se reflete em um aumento expressivo de colonoscopias e testes de rastreamento justamente durante o mês de março.” Segundo ele, esse movimento não acontece por acaso: “É fruto do compromisso de autoridades municipais, estaduais e federais, que abraçaram a causa, iluminaram prédios, organizaram mutirões e levaram a mensagem de prevenção para as ruas, escolas e unidades de saúde”. >> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp Casos recentes O médico lembra que fatos públicos, como o adoecimento e a morte de pessoas públicas em decorrência da doença, trazem o assunto para conversas diárias e ajudam a levantar dúvidas nas pessoas a partir de sinais e sintomas que devem ser avaliados em exames. Numa análise preliminar feita pela campanha, é possível perceber, por exemplo, que a trajetória da doença enfrentada pela cantora Preta Gil coincide com uma evolução nos números dos exames de diagnóstico. Entre a divulgação do diagnóstico da artista, em 2023, e a morte dela, dois anos depois, o total de pesquisas de sangue oculto nas fezes cresceu 18% no SUS, enquanto o volume de colonoscopias cresceu 23%. “Ao tornarem público o diagnóstico de câncer de intestino, diversas pessoas famosas ajudaram a transformar a própria dor em alerta para milhões de outras pessoas. Nomes como Preta Gil, Chadwick Boseman, Roberto Dinamite e outros passaram a falar abertamente sobre sintomas, tratamento e, sobretudo, sobre a importância de não adiar a investigação quando algo não vai bem”, disse. Ele destaca que cada entrevista, postagem ou depoimento dessas personalidades funciona como lembrete poderoso de que o câncer de intestino pode atingir qualquer pessoa, mas que a chance de cura é muito maior quando a doença é descoberta cedo. Campanha Promovida nacionalmente desde 2021, a campanha Março Azul é organizada pela Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva, pela Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) e pela Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG). Este ano, a iniciativa conta ainda com o apoio institucional da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), da Associação Médica Brasileira (AMB) e do Conselho Federal de Medicina (CFM), além de outras sociedades de especialidades médicas. A estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca) é que as mortes prematuras (antes dos 70 anos) por câncer de intestino devem aumentar até 2030, tanto entre homens quanto entre mulheres. A projeção cita não apenas o envelhecimento populacional, mas também ao crescimento da incidência da doença entre jovens, o diagnóstico tardio e a baixa cobertura de exames de rastreamento.

O elemento químico que mudou a história da saúde mental

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 03/03/2026 Em julho de 1968, quando Walter Brown começou sua especialização em psiquiatria na Universidade Yale (EUA), sua primeira missão foi evitar que “Mr. G” se reunisse com o então presidente americano. Mr. G era um paciente que havia passado 17 anos internado em hospitais psiquiátricos, ora imobilizado por uma depressão suicida, ora com uma euforia que o fazia imaginar um encontro com o mandatário do país. “Diversas vezes por semana, Mr. G corria em direção à porta. Três enfermeiras e eu precisávamos arrastá-lo para um quarto de reclusão, onde, enquanto eu lutava com ele, uma delas aplicava um sedativo”, escreveu Brown no seu livro Lithium: a Doctor, a Drug and a Breakthrough (Lítio: um médico, uma droga e um avanço, em tradução livre). O paciente tinha psicose maníaco-depressiva ou transtorno bipolar. Seu prognóstico não era nada animador, mas, dois anos depois, Brown voltou a se encontrar com Mr. G. Agora, ele vivia por conta própria, fora dos hospitais e trabalhava em um supermercado. E ainda se lembrava, com uma mescla de assombro e vergonha, do seu desejo de se encontrar com o presidente americano. Um novo medicamento havia estabilizado suas mudanças de humor: o lítio. Ali nasceu o interesse do psiquiatra por aquele metal alcalino e, sobretudo, pelo homem que o transformou na primeira droga psiquiátrica: o médico australiano John Cade. Do Big Bang até a febre do lítio O lítio vem sendo chamado no século 21 de “ouro do futuro”, devido ao seu uso em baterias de produtos eletrônicos e na indústria de veículos automotores. A busca de fontes alternativas de energia para substituir os combustíveis fósseis fez disparar uma corrida pelo lítio, encontrado em grandes quantidades nas salinas de Bolívia, Chile e Argentina. Mas o lítio — o mais leve dos metais — é nosso companheiro desde tempos imemoriais. Os cientistas acreditam que o lítio seja um dos três elementos criados com o Big Bang (origem do universo), ao lado do hidrogênio e do hélio. São eles que ocupam os três primeiros lugares da tabela periódica, que todos nós estudamos nas aulas de química. Em seu livro sobre a tabela periódica, James Russell afirma que os registros do uso terapêutico do lítio remontam ao século 2 d.C., quando o médico grego Sorano de Éfeso recomendava banhos em cachoeiras de águas alcalinas para as pessoas que sofriam de “manias e melancolia”. Em meados do século 20, o lítio voltaria a ser fundamental para o tratamento desses dois estados — “muito para cima” e “muito para baixo”. Para Walter Brown, dois aspectos são fundamentais nessa história: as características da psiquiatria até a conversão do lítio em produto farmacêutico e o contexto que levou à descoberta de John Cade em 1949. “Até aquele momento, não havia drogas para a saúde mental. As pessoas usavam opioides e às vezes recebiam estimulantes ou sedativos. O lítio foi a primeira oportunidade de tratamento eficaz dos sintomas de uma doença psiquiátrica”, declarou Brown à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC. Os tratamentos para a depressão maníaca e outras condições de saúde mental incluíam internações em hospitais psiquiátricos, onde era possível desde induzir o coma com uma dose de insulina até sedar o paciente para terapias de sono profundo. Também eram aplicados choques elétricos e, nos anos 1940 e princípio dos anos 1950, foi muito utilizada a lobotomia (retirada de uma parte do cérebro). John Cade era um psiquiatra jovem e desconhecido. Veterano da Segunda Guerra Mundial, ele trabalhava em um hospital de Melbourne, na Austrália, sem treinamento formal, sem bolsa de estudos e sem colaboradores. Seu laboratório ficava na cozinha do hospital. Há quem diga que sua descoberta ocorreu por acaso, mas Brown não concorda totalmente com essa avaliação. “Em parte do processo, ele teve sorte”, afirmou Brown. “Ele começou a administrar sais de lítio a cobaias e percebeu que elas ficavam relaxadas. Mas é preciso dar-lhe crédito porque ele observou essa reação e imaginou que poderia funcionar com as pessoas, com pacientes maníacos. Dar este salto, para mim, é muito intuitivo e reflete sua capacidade de observar sem preconceitos.” Eduard Vieta, chefe de serviços de psiquiatria e psicologia do Hospital Universitário de Barcelona, na Espanha, afirmou à BBC News Mundo que, embora hoje nos pareça lógico, a revolucionária ideia de Cade de que seria possível tratar as doenças mentais com medicamentos não era assim tão óbvia 70 anos atrás. “Ele formulou uma hipótese, que por fim se demonstrou ser falsa, de que o ácido úrico poderia desempenhar um papel chave (nos tratamentos)”, segundo Vieta. “Como os ácidos não são estáveis como medicamentos, é preciso constituí-los na forma de sal para que possam ser consumidos. Aqui entra em jogo o lítio. Ele misturou lítio ao ácido úrico, criando urato de lítio. Quando administrou essa solução às cobaias, ele observou que elas se tranquilizavam.” Quando Cade administrou urato de lítio aos pacientes, ele comprovou uma melhora — mas a atribuiu ao ácido úrico e não ao lítio. “Mas, depois, ao testar outros sais, não obteve o mesmo resultado. Ele foi inteligente e deduziu que havia sido o lítio que havia melhorado seus pacientes”, acrescentou Vieta. Lítio no sangue Walter Brown disse que sua ideia era escrever uma biografia de Cade. “Mas na pesquisa fiquei sabendo, por exemplo, que o próprio Cade havia suspendido seu trabalho porque seus pacientes ficavam doentes. E outras pessoas assumiram seu lugar. Decidi então escrever a história de uma descoberta científica, de pessoas que aprenderam com outras pessoas”, afirmou. Embora os 10 pacientes iniciais de John Cade tenham demonstrado melhoras em sua saúde mental, alguns deles sofreram severas intoxicações com muita rapidez. O próprio Cade achava que o lítio era perigoso e não deveria ser receitado. Mas outros médicos na Austrália, como Edward Trautner, comprovaram que era possível medir a quantidade de lítio no sangue dos pacientes e assim evitar a intoxicação. Segundo o presidente da Sociedade Argentina de Psiquiatria, Ricardo Corral, existe uma “janela terapêutica” entre um limite mínimo (no qual o lítio não é eficaz) e um máximo (em

O que são os ‘cristais de memória’ que desafiam leis da física e prometem solucionar o problema do armazenamento de dados

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 11/03/2026 Durante uma visita ao Japão em 1999, o pesquisador Peter Kazansky encontrou um fenômeno físico misterioso. Agora, ele acredita que esta seja a chave para o futuro do armazenamento de dados. No laboratório de optoeletrônica da Universidade de Kyoto, os cientistas testavam como escrever em vidro usando lasers ultrarrápidos de femtossegundos. Eles emitem um pulso de luz a cada quadrilionésimo de segundo. Mas eles observaram algo incomum na forma em que a luz trafegava através do vidro tratado com laser. A dispersão de Rayleigh é um efeito bem conhecido. Ela descreve como pequenas partículas refletem a luz branca em todas as direções — o que explica, entre outras coisas, por que o céu parece ser azul. Mas, neste caso, a luz não se refletia conforme o esperado. “Foi difícil explicar”, afirma Kazansky, professor de optoeletrônica da Universidade de Southampton, no Reino Unido. Ele trabalhava em colaboração com os pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão. “Nós observamos a luz se dispersar de uma forma que parecia desafiar as leis da física.” A desconcertante observação acabou provocando “um autêntico momento Eureka”, segundo Kazansky. Imagine que você sustente um grosso pedaço de cristal contra a luz e observe como a luz é refletida em muitas direções. Com a técnica do laser, os pesquisadores de Kyoto criaram acidentalmente pequenos orifícios que tinham esta mesma propriedade. Cerca de mil vezes menores que a espessura de um cabelo humano, esses “redemoinhos” de luz são tão minúsculos que acabam sendo imperceptíveis para o olho humano. Mas logo ficou claro para os cientistas que seu potencial era transformador. “Esta foi a primeira prova de que podemos usar a luz para imprimir padrões complexos dentro de materiais transparentes, em escala menor que o comprimento de onda da luz”, explica Kazansky. Agora, 27 anos depois, espera-se que aquela descoberta possa ajudar a resolver um dos problemas mais graves da nossa era da informação: o armazenamento massivo de dados. O nosso problema com dados Na era da internet, da inteligência artificial, das casas inteligentes e do capitalismo de vigilância, existe algo que simplesmente não paramos de produzir: dados. A empresa de análises IDC prevê que, até 2028, geraremos coletivamente 394 trilhões de zettabytes de informações todos os anos (um zettabyte equivale a um trilhão de gigabytes). Toda vez que fazemos qualquer coisa na internet, como assistir a um vídeo no YouTube, enviar um e-mail ou fazer uma pergunta a um chatbot de IA, cadeias de pontos de dados saem em disparada rumo ao ciberespaço. A ideia de que os dados “pesam pouco” é enganosa. Nós imaginamos as informações viajando de forma etérea por cabos submarinos ou flutuando suavemente “na nuvem”. Mas, na verdade, elas exigem enormes recursos físicos, cuja demanda está se tornando insaciável. Os centros de dados consomem quantidades massivas de eletricidade, água e materiais. E seu crescimento exponencial nos obriga a buscar alternativas radicais. Este dilema vem impulsionando soluções inovadoras. E uma delas é a proposta de Kazansky de gravar dados por meio de lasers. Outras opções, como a armazenagem de informações em DNA, também estão sendo exploradas por cientistas e empresas como a Microsoft. Os dados são processados e alojados em centros de dados — estruturas gigantescas, quase alienígenas, repletas de filas de servidores de mais de dois metros de altura, que piscam sem intervalos. Essas caixas vibrantes de hardware e cabos devoram energia, tanto para alimentar sua capacidade de computação quanto para os enormes sistemas de refrigeração necessários para evitar que elas se incendeiem. Aliás, um centro de dados não é um lugar agradável para se trabalhar. Quente e ensurdecedor, ele só é adequado para pessoas que conseguem “suportar muitas dores”, segundo uma pesquisa da revista americana The New Yorker em 2025. Em escala global, os centros de dados representam cerca de 1,5% da demanda mundial de eletricidade. Projeções indicam que seu consumo irá duplicar até 2030, quando também poderão gerar 2,5 bilhões de toneladas de emissões de CO₂. Este número equivale a cerca de 40% de todas as emissões anuais dos Estados Unidos. A recente expansão da IA generativa agravou a situação. Ela aumentou drasticamente a demanda por sistemas de computação de alto rendimento, que consomem quantidades colossais de energia e emitem nuvens intensas de calor. A maior parte da energia consumida pelos centros de dados é gasta com “dados quentes”: informações que devem estar disponíveis instantaneamente para acesso rápido e atualizações frequentes. Exemplos são transferências de dinheiro entre contas bancárias e documentos online editados regularmente. Mas a maioria dos dados do mundo não é deste tipo. Até cerca de 80%, na verdade, são “dados frios”: informações de que ninguém necessita imediatamente e que, quando são necessárias, as pessoas estão dispostas a esperar minutos ou até dias para obtê-las. Eles incluem dados de conformidade, como registros financeiros ou processos de auditoria, que bancos e outras empresas devem conservar indefinidamente. Também entram nesta categoria as cópias de segurança dos e-mails ou fotos antigas, além de dados de arquivo. Mas a armazenagem destes dados apresenta problemas. A maior parte deles é atualmente armazenada em discos rígidos, dentro de centros de dados. Eles devem permanecer ligados para que as informações possam ser recuperadas, o que exige energia e sistemas de refrigeração. Outra solução cada vez mais popular é a fita magnética. Ela é armazenada nas próprias instalações do centro de dados ou em bibliotecas de fitas especializadas. As fitas devem ser mantidas sob temperaturas de 16 a 25 °C, o que também implica consumo de energia para manter suas condições ideais. Além disso, elas precisam ser substituídas a cada 10 a 20 anos devido à sua degradação. Neste momento, a fita antiga é descartada como resíduo. O enorme aumento da produção de dados impulsionou forte demanda por fitas magnéticas nos últimos anos. ‘Cristais de memória’ Tudo isso faz com que a busca de soluções alternativas seja cada vez mais urgente. E Kazansky está adotando um enfoque inovador sobre este problema. Nos anos que se seguiram àquela primeira revelação na Universidade de Kyoto, ele descobriu que os