Por que existe o Dia Mundial do Mosquito — e o que isso tem a ver com o Nobel

Fonte: BBC News | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/pexels | Data: 20/08/2026 Foi em estilo britânico. Em 20 de agosto de 1931, a equipe do Ross Institute and Hospital for Tropical Diseases, em Londres, decidiu oferecer um chá em homenagem ao fundador da organização, o médico e cientista Ronald Ross (1857-1932). A data não foi aleatória. E, desde então, acabou sendo instituído o 20 de agosto como o Dia Mundial do Mosquito. Tudo por causa da principal descoberta científica de Ross. Em suas memórias, ele escreveu sobre o dia 20 de agosto de 1897, “cujo aniversário sempre chamo de Dia do Mosquito”. Segundo Ross, estava “nublado, cinzento e quente” em Secunderabad, cidade indiana onde ele estava trabalhando. “Fui ao hospital às 7h, examinei meus pacientes e cuidei da correspondência oficial, mas fiquei muito irritado porque meus homens não haviam trazido mais larvas de mosquitos de asas manchadas, e ainda mais porque um dos meus três Anopheles restantes havia morrido durante a noite e inchado devido à decomposição”, registrou ele. “Após um café da manhã apressado no refeitório, voltei para dissecar o cadáver (mosquito 36), mas não encontrei nada de novo”, pontuou. E então ele prossegue dizendo que decidiu examinar também um mosquito de outra espécie, Stegomyia e, em seguida, o comparou com outro Anopheles que decidira “sacrificar” — porque ambos haviam “se alimentado de Husein Khan”. Khan foi um indiano infectado por malária que participou do experimento, sendo picado voluntariamente por mosquitos. Naquele dia 20 de agosto de 1897, Ross não só confirmou uma suspeita que pairava — que a malária era transmitida por picada de inseto — como identificou o Anopheles como o vetor. O ciclo estava descoberto. “O mérito de Ross foi a comprovação experimental do mosquito na transmissão da malária”, sintetiza o historiador Gabriel Lopes, pesquisador e professor na Casa de Oswaldo Cruz, a unidade de memória, patrimônio cultural e divulgação científica da Fundação Oswaldo Cruz, e editor científico da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, publicada pela mesma instituição. “Ele mostrou que o mosquito era um elo no ciclo da doença e estabeleceu as bases científicas para as estratégias modernas de controle e combate da malária.” Descoberta, poema, Nobel Foi uma mudança histórica de perspectiva. “Durante mais de 2 mil anos, acreditava-se que a malária era causada pelos chamados ‘maus ares’, vapores provenientes de áreas alagadas e pântanos”, conta o médico João Otavio Ribas Zahdi, professor na Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná. “Inclusive, o nome da doença vem dessa ideia: mala aria, ou ar ruim. Havia até quem atribuísse a doença a causas sobrenaturais. Curiosamente, algumas medidas adotadas na época, como a drenagem de pântanos, acabavam reduzindo os casos de malária, mas por diminuírem a população de mosquitos, e não por eliminarem os supostos ‘maus ares’.” “Acreditava-se que a malária e outras doenças eram transmitidas a partir da respiração de ‘ares ruins’, principalmente os provenientes de pântanos”, acrescenta o biólogo imunologista Luiz Gustavo Gardinassi, professor na Universidade de São Paulo. “O que predominava era a chamada teoria dos miasmas, a teoria miasmática, com essa definição dos maus ares”, comenta Lopes. Naquela noite de 1897, o médico Ross — que também era poeta — escreveu um poema, dedicado à sua mulher. No texto, ele cita que “Deus, em sua misericórdia, colocou em minhas mãos uma coisa maravilhosa”. E que, graças a “lágrimas e fôlego árduo”, ele havia encontrado as “astutas sementes” da “morte que mata milhões”. “Sei que esta pequena coisa salvará miríades de homens. Ó Morte, onde está teu aguilhão?”, diz o texto. Cinco anos mais tarde, o cientista seria laureado com o prêmio Nobel de Medicina, em reconhecimento, conforme texto da Fundação Nobel, a “seu trabalho sobre a malária, pelo qual mostrou como ela entra no organismo e, assim, lançou as bases para pesquisas bem-sucedidas sobre essa doença e métodos para combatê-la”. “Com a descoberta, mudou-se a forma de combater a malária”, afirma o historiador Lopes. Orientado pelo pioneiro Ross nasceu em Almora, na Índia, então colônia do Reino Unido, filho de um general do exército britânico baseado ali. Em 1865, aos oito anos, seus pais o enviaram para a casa de familiares em Londres para que ele estudasse. Voltaria para a Índia apenas 16 anos mais tarde, já graduado em medicina e nomeado cirurgião do Serviço Médico Indiano. Com o passar do tempo ele começou a notar relações entre números de mosquitos e doenças. Mais que isso, preocupava-se com a conscientização popular, tendo em vista o entendimento de que menos água parada significava menos proliferação de pernilongos. Em 1894, em uma de suas visitas a Londres, conheceu o médico e cientista Patrick Manson (1844-1922), considerado o fundador da medicina tropical. Foi Manson quem mais incentivou Ross a estudar a fundo a transmissão da malária. Zahdi conta que Manson foi pioneiro nessa área, sendo ele quem demonstrou, ainda na década de 1870 “que mosquitos se infectavam com microfilárias ao se alimentarem de sangue humano, provando pela primeira vez uma associação entre insetos e patógenos causadores de doenças humanas”. “Em 1877, Manson tinha demonstrado o papel dos mosquitos na transmissão da filariose, a popular elefantíase”, acrescenta o historiador Lopes. Manson insistiu que o colega estava no lugar perfeito para isso, já que a Índia seria, no entendimento do primeiro, o melhor lugar para esse tipo de estudo, praticamente um laboratório vivo. Foi o que ele fez tão logo retomou seu posto, culminando com a descoberta notável de 1897. “Ele [Manson] foi mentor e incentivador direto de Ross, orientando-o a investigar o papel dos mosquitos na malária”, pontua Zahdi. Dois anos após descobrir o mosquito transmissor da malária, Ross demitiu-se do trabalho indiano e foi embora para a Inglaterra. Trabalhou como professor e pesquisador na Liverpool School of Tropical Medicine e, mais tarde, no King’s College Hospital. Trabalhou como consultor para o governo britânico e desenvolveu modelos matemáticos que ajudaram a compreender epidemias. Em 1926, fundou o instituto e o hospital que emprestaram seu nome — hoje incorporados ao London School of Hygiene and Tropical Medicine. Combate à malária A descoberta de Ross “mudou completamente a forma de combater a doença”, enfatiza Zahdi. “A partir
Fobias: por que temos tanto medo de coisas que provavelmente não irão nos machucar?

Fonte: BBC News | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/magnific | Data: 20/08/2026 O que você sente quando uma aranha aparece correndo no chão da sala de estar? A maioria das aranhas são venenosas, mas muito poucas são perigosas para os seres humanos. Acredita-se que menos de 10 pessoas morram anualmente de picadas de aranha em todo o mundo, segundo o Instituto de Educação e Pesquisa Ambiental. Mas é difícil coletar os dados com precisão. Ainda assim, muitas pessoas afirmam ter fobia de aranhas, incluindo a autora desta reportagem. Não consigo dormir quando aparece uma no meu quarto e até pensar em teias é o suficiente para me fazer estremecer. Em muitos casos, as fobias representam medo intenso de alguma coisa que, na verdade, não pode nos causar ferimentos sérios. Mas por que elas são tão comuns e de onde elas vêm? Do medo para a fobia O medo é uma emoção vital para os seres humanos, segundo a professora de psicologia Vanessa LoBue, da Universidade Rutgers em Nova Jersey, nos Estados Unidos. “O medo é importante porque nos protege do que é potencialmente perigoso”, explica ela. Mas, se o medo se tornar algo extremo e debilitador, ele poderá ser classificado como fobia, segundo András Zsidó, diretor do Laboratório de Emoções e Cognição Visual da Universidade de Pécs, na Hungria. “Podemos imaginar isso como uma variável contínua, que começa basicamente com o medo bastante normal, e todos têm medo de alguma coisa”, prossegue ele. “Mas, quando começa a representar uma barreira para a sua vida diária, podemos considerar este medo como uma fobia.” LoBue também afirma que as fobias costumam ser desproporcionais à ameaça. Em algumas partes do mundo (como no Reino Unido, onde moro), a maior parte das espécies de cobras não representa risco para os seres humanos, por exemplo. Por isso, o medo extremo destes animais pode ser irracional e classificado como fobia. O mesmo não acontece em outras partes do mundo. Inato ou adquirido? Algumas fobias são comuns, mas a maioria dos especialistas não acredita que tenhamos nascido com elas. Para LoBue, bebês jovens não conseguem sentir medo. “Você só observa medo posteriormente, pois ele exige que você determine que algo é uma ameaça”, explica ela. “E você precisa conhecer um pouco do mundo para isso.” Ou seja, se não nascemos com medo de aranhas ou cobras, por que as pessoas desenvolvem fobias em relação a estes animais? A professora de psicologia do desenvolvimento Stefanie Hoehl, da Universidade de Viena, na Áustria, realizou um estudo e concluiu que os bebês sofrem maior dilatação das pupilas quando observam cobras ou aranhas, em comparação com flores e peixes. A dilatação das pupilas é um sinal de que eles podem estar percebendo possíveis riscos. Ela está relacionada à ativação do sistema noradrenérgico, envolvido na reação de “lutar ou fugir”. Esta reação é caracterizada por sintomas como aumento dos batimentos cardíacos, da pressão sanguínea e aceleração da respiração. São sinais de que o corpo está se preparando para correr ou lutar contra um perigo percebido. Hoehl não acredita que os medos sejam inatos, mas afirma que existem certas coisas no nosso ambiente que podemos ser capazes de detectar com mais rapidez do que outras, dependendo, em parte, da forma em que elas se movem. “Estamos preparados para aprender a ter medo de certas coisas que existem no mundo”, explica ela. LoBue acredita que podemos ser mais propensos a aprender a ter medo de aranhas e cobras do que de outros animais porque eles são “estranhos”. Eu, de minha parte, concordo totalmente. “Pense em uma cobra”, explica ela. “Não há nada no mundo que se pareça com uma cobra.” “Pense em como os bebês se acostumam a ver os animais. São coisas de quatro patas que andam, certo? Mas as cobras não fazem isso. As aranhas se movimentam de formas anômalas. Nós não gostamos disso.” Especialistas acham que a nossa tendência de temer certas coisas pode ser consequência da evolução. “Os primeiros seres humanos tinham um ambiente imprevisível”, afirma Zsidó. “Todos os medos e fobias… foram racionais em alguma fase do desenvolvimento da humanidade. Mas eles basicamente deixaram de ser úteis e racionais no nosso dia a dia.” Mas a predisposição evolutiva de aprender certos medos, conhecida como teoria da preparação, por si só, não é suficiente para o desenvolvimento de fobias. Uma experiência negativa direta com um animal ou objeto é uma forma muito rápida de adquirir medo, especialmente se já tivermos predisposição natural para isso, segundo LoBue. Mas podemos também passar a temer algo ao observar reações negativas de outras pessoas. “Você tem uma reação fisiológica”, explica a professora. “Você é picado, você se assusta.” “E então… a mamãe reage ou diz: ‘Uau, isso é muito ruim’… Tudo isso forma sua probabilidade de aprender a ter medo daquilo.” Por isso, as fobias podem ser passadas ao longo de gerações, segundo Hoehl. ‘Veja os filmes’ Como as experiências definem se temos medo de algo, LoBue também acredita que a cultura popular é outra “culpada” pela grande incidência das fobias em relação a cobras e aranhas. “Veja os filmes, veja os livros”, explica ela. “Quando as cobras e aranhas são heróis? Nunca!” Em relação às fobias do mundo natural (as chamadas biofobias), pode haver outro fator em jogo. Zsidó estudou se haveria relação entre o nível de urbanização do ambiente das pessoas e a incidência de fobias animais. E ele concluiu que sim, quanto mais urbanizada for uma região, mais comuns são as biofobias. “Aparentemente, as pessoas que passam mais tempo na natureza, que têm mais experiências com a natureza, tendem a temer menos os animais que possam encontrar”, explica ele. Com mais de 80% das pessoas morando atualmente em áreas urbanas em todo o mundo, fica explicado por que as fobias relacionadas a animais são tão comuns. Desaprendendo a ter medo A maioria dos especialistas concorda em dois pontos: que podemos desaprender nossas fobias e que a melhor forma de fazer isso é nos expormos a elas. “Se você se sentir um pouco desconfortável em certas situações, pode ser uma boa ideia
Eclipse lunar quase total poderá ser visto do Brasil: que horas começa e como observar

Fonte: BBC News | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/pexels | Data: 10/08/2026 Após o eclipse solar total que encantou a Europa em 12 de agosto, mas não pôde ser visto do Brasil, um segundo eclipse acontecerá neste mês. Trata-se desta vez de um eclipse lunar parcial, que poderá ser observado em todo o Brasil na noite de quinta-feira (27/8) para sexta-feira (28/8). O fenômeno terá início às 22h24 de quinta-feira e continuará durante a madrugada. O ápice ocorrerá às 1h13 de sexta-feira, quando a Lua estará mais encoberta pela sombra da Terra. Durante um eclipse lunar, a Terra passa entre o Sol e a Lua e projeta sua sombra sobre o satélite. Desde que as condições meteorológicas sejam favoráveis, o fenômeno poderá ser visto em todas as regiões do Brasil. Ao contrário do eclipse solar, o fenômeno lunar não exige óculos especiais e pode ser visto a olho nu. Apesar de quase toda a Lua ficar escurecida, o eclipse é classificado como parcial, porque uma pequena parte do satélite permanecerá fora da chamada umbra, a região mais escura da sombra projetada pela Terra. Eclipse lunar, visto do Brasil O fenômeno também será visível a partir da África e partes da Europa. A previsão é de que até 95% da Lua fique com um tom avermelhado. O eclipse lunar só pode acontecer durante a Lua cheia e pode vir de três formas diferentes: total, parcial e penumbral. Quando a luz do Sol bate na Terra, cria dois tipos de sombras, a umbra (sombra mais escura) e a penumbra (uma sombra mais branda). Josina Nascimento, astrônoma do Observatório Nacional, afirma que o eclipse que será visto no Brasil será apenas parcial. “A Lua não vai entrar totalmente na umbra, ela quase vai entrar. Vai funcionar como se fosse um eclipse total, porque ela vai começar a ficar vermelha, e essa vermelhidão é o reflexo da luz do Sol batendo na atmosfera da Terra”, disse Nascimento à Agência Brasil. Segundo a astrônoma, para assistir ao eclipse lunar não é preciso nenhum tipo de óculos ou técnica especial: basta escolher um lugar aberto, com uma visão limpa para a lua e de preferência com pouca interferência de luz artificial. O Observatório Nacional vai transmitir o eclipse lunar de maneira gratuita pelo seu canal no YouTube. Eclipse solar Em um eclipse solar total, a Lua passa entre o Sol e a Terra, cobrindo inteiramente a face do Sol ao longo de uma estreita faixa da superfície do nosso planeta. Essa faixa é chamada de “caminho da totalidade”. O céu se escurece em pleno dia, semelhante a um crepúsculo. Alguns animais chegam a alterar seu comportamento por causa do fenômeno. Durante a totalidade, a mudança na luz pode ser acompanhada por uma queda na temperatura. O horizonte pode ganhar cores semelhantes às do pôr do sol, enquanto estrelas e planetas mais brilhantes podem ficar visíveis. Nos últimos instantes antes da totalidade, também pode ocorrer o chamado “efeito de anel de diamante”, quando pequenos pontos de luz do Sol aparecem através dos vales da Lua. Com o Sol completamente encoberto, sua coroa — a camada mais externa de sua atmosfera — também fica visível. Normalmente, ela é difícil de observar por causa do intenso brilho do Sol. Cientistas aproveitam justamente esses poucos minutos de escuridão para estudar essa região e o campo magnético do Sol. No eclipse solar, a Lua consegue cobrir o Sol apenas devido à grande proximidade do satélite em relação ao nosso planeta. A Lua é muito menor que o Sol: seu diâmetro é de 3.476 km, em comparação com os 1,4 milhão de km de diâmetro do Sol. O eclipse solar total de 12 de agosto de 2026 pôde ser visto em partes da Groenlândia, Islândia, norte da Rússia, Oceano Atlântico, Espanha e em uma pequena área de Portugal, de acordo com a Nasa. Já um eclipse parcial pôde ser visto em partes do Hemisfério Norte, incluindo áreas do norte dos Estados Unidos, a maior parte do Canadá, grande parte da Europa e o noroeste da África.
3 formas agradáveis de manter o cérebro jovem por mais tempo

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 16/05/2026 Se você tivesse duas opções — uma tarefa fácil e outra difícil — qual escolheria fazer? O mais provável é que todos nós optássemos pela mais fácil, e com razão. Recorrer a atalhos mentais é algo inerente à nossa biologia: uma estratégia evolutiva criada para poupar energia. A tecnologia apenas ampliou essa capacidade. Por isso, é tão tentador buscar atalhos e concluir tarefas com o mínimo de esforço possível. Mas se isso levar a uma redução do nosso esforço mental, pode acabar prejudicando nossa longevidade e a saúde de forma geral. Nosso tempo de “vida saudável” — ou seja, o número de anos em que as pessoas vivem com boa saúde — está diminuindo em muitas partes do mundo. Segundo pesquisadores, à medida que as pessoas vivem mais, o número de anos que elas passam com problemas de saúde tende a aumentar. Quando se trata do cérebro, há medidas que podem ajudar a prolongar uma vida saudável. Basicamente, quando participamos de atividades que nos desafiam, estamos construindo o que os especialistas chamam de “reserva cognitiva”, que tem um efeito protetor sobre o cérebro. E existem muitas formas de fazer isso no dia a dia. “Independentemente da idade, há coisas que podemos fazer — em maior ou menor grau — que podem dar um pequeno impulso às nossas habilidades cognitivas”, afirma o psicólogo Alan Gow, da Universidade Heriot-Watt, em Edimburgo, na Escócia. E a boa notícia é que não precisamos mudar radicalmente nossa rotina: basta fazer pequenas mudanças graduais nos aspectos físico, social e mental para proteger o cérebro. A seguir, apresentamos três formas simples e prazerosas para começar. 1. Navegação espacial Uma estratégia para se proteger do declínio cognitivo associado ao envelhecimento é focar em uma parte específica do cérebro. Acredita-se que o hipocampo — área cerebral fundamental para a navegação espacial — seja a primeira parte do cérebro afetada pela doença de Alzheimer, vários anos antes de os sintomas começarem a se manifestar. “Há anos sabemos que pessoas com Alzheimer frequentemente ficam desorientadas. Esse costuma ser um dos primeiros sintomas”, explica o neurologista Dennis Chan, do University College London, no Reino Unido, especializado na detecção precoce da doença. E a detecção precoce é crucial, acrescenta ele: “Quanto antes identificarmos [os sinais de declínio cognitivo], mais rápido poderemos agir”. Por isso, proteger essa área do cérebro pode ajudar a prevenir ou retardar o surgimento dos sintomas. Diversos estudos mostram, por exemplo, que motoristas de ambulância e de táxi apresentam uma das menores taxas de mortalidade associadas ao Alzheimer em comparação com outras profissões. Segundo pesquisadores, isso acontece justamente porque esses profissionais exercitam mais o cérebro em tarefas de “processamento espacial”. Também se sabe que taxistas que passaram anos memorizando as ruas da cidade sem recorrer a mapas têm um hipocampo maior. Da mesma forma, um estudo realizado com homens saudáveis que realizaram uma tarefa de navegação espacial durante quatro meses revelou uma melhora em suas habilidades de orientação e nenhuma perda de volume do hipocampo. Já os participantes do grupo de controle — aqueles que não realizaram a tarefa — apresentaram a contração cerebral associada ao envelhecimento que já era esperada. Ainda não está claro se estimular essa região do cérebro poderia prevenir a demência, mas desenvolver uma maior reserva cognitiva pode oferecer uma proteção adicional. Isso ajuda a explicar por que, como destaca Dennis Chan, análises cerebrais feitas após a morte revelaram que alguns idosos apresentavam extensas alterações no tecido cerebral associadas à Doença de Alzheimer, apesar de nunca terem manifestado sintomas em vida. Segundo ele, uma das explicações para esse fenômeno é que o “andaime cerebral” dessas pessoas era extremamente robusto — possivelmente graças ao estilo de vida, embora fatores genéticos também pareçam desempenhar um papel importante. E, apesar do aumento do risco de demência com o envelhecimento, Chan afirma que o fato de existirem pessoas que nunca desenvolvem sintomas deve servir de incentivo para todos nós. “Em geral, são pessoas fisicamente ativas, intelectualmente mais ativas e com uma vida social mais intensa.” Todos nós podemos nos esforçar para desenvolver nossas habilidades espaciais por meio de esportes ou, no caso das crianças, brincando com blocos de montar. Descobrir como chegar a um destino sem recorrer ao mapa do celular também pode ser benéfico, já que o uso do GPS tem sido associado à piora da memória espacial. Além disso, alguns videogames podem ajudar, desde que tenham sido desenvolvidos com o rigor adequado. Por exemplo, um pequeno estudo realizado com idosos mostrou que aqueles que jogaram um videogame de navegação espacial em realidade virtual apresentaram melhora na memória. Vale destacar que esse jogo foi desenvolvido especificamente por pesquisadores. Portanto, isso não significa necessariamente que o nosso videogame favorito vá ajudar a melhorar a memória. 2. Vida social ativa Nesse sentido, diversas pesquisas têm mostrado que nos manter socialmente ativos nos protege contra o declínio cognitivo. Por exemplo, os centenários que tem mais vida social apresentam melhor saúde cerebral, enquanto participar de atividades sociais na meia-idade tem sido associado a uma maior capacidade cognitiva na velhice. Isso também foi confirmado por um amplo estudo observacional, que concluiu que pessoas que permaneceram mais socialmente ativas durante a meia-idade e a velhice apresentavam um risco entre 30% e 50% menor de desenvolver demência. Segundo os autores, isso acontece porque esse tipo de atividade aumenta a reserva cognitiva. Manter-se socialmente ativo também pode retardar o surgimento dos sintomas. De acordo com um estudo realizado com 1.923 participantes idosos — focado naqueles que acabaram desenvolvendo demência —, os menos ativos socialmente desenvolveram a doença cinco anos antes daqueles que eram mais ativos. Acredita-se que isso aconteça porque manter uma vida social ativa ajuda a reduzir o estresse, tornando as pessoas mais resilientes diante dos desafios da vida. O estresse crônico, por outro lado, tem sido associado à perda de neurônios no hipocampo. “O fator protetor está na capacidade de dialogar, debater e compartilhar ideias. Essas conversas também podem exercer um efeito protetor sobre o cérebro”, afirma a epidemiologista Pamela Almeida-Meza, do King’s
Nova lei define percentual mínimo de cacau nos chocolates

Fonte: Agência Brasil EBC | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 11/05/2026 Rótulos precisam seguir parâmetros de transparênciaChocolates comercializados no Brasil terão de seguir percentuais mínimos de cacau na composição, previstos por lei. Além disso, os fabricantes precisarão informar, de forma clara, a quantidade do ingrediente nos rótulos dos produtos vendidos no país, sejam eles nacionais ou importados. A Lei nº 15.404/2026, que define critérios para a produção, classificação e rotulagem de produtos derivados de cacau no Brasil, está publicada na edição desta segunda-feira (11) do Diário Oficial da União. A norma entra passa a vigorar em 360 dias, período em que a indústria deverá se adaptar às novas exigências. Um dos principais avanços previstos é a obrigatoriedade de informar nos rótulos o percentual total de cacau do produto. De acordo com a lei, a indicação deverá aparecer na parte frontal da embalagem, ocupando pelo menos 15% da área e com destaque suficiente para facilitar a leitura. >> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp A informação será apresentada no formato “Contém X% de cacau”, de acordo com os percentuais a seguir: O texto também proíbe práticas que possam induzir o consumidor ao erro, como o uso de imagens, cores ou expressões que sugiram tratar-se de chocolate quando o produto não atende aos critérios estabelecidos. Em caso de descumprimento das regras, os responsáveis estarão sujeitos às sanções previstas no Código de Defesa do Consumidor, além de outras penalidades sanitárias e legais cabíveis. Saiba mais no Repórter Brasil Tarde, da TV Brasil
Por que o sal tem um efeito tão poderoso em nosso cérebro?

Fonte: BBC News Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Pixabay | Data: 02/05/2026 Como você vai entender ao longo dessa reportagem, a resposta para essa pergunta tem a ver com dois fatores: primeiro, com o paladar, já que o sal altera e realça o sabor da comida. Segundo, com uma necessidade básica de manter o equilíbrio do nosso organismo, já que o sódio é fundamental para o funcionamento das células. Mas por que gostamos tanto de sal? E como ele deixa a nossa comida tão saborosa? Ele está presente em quase todas as culinárias do mundo, seja na forma de minúsculos grãos ou como parte de temperos básicos de algumas regiões — o molho de soja, por exemplo, pode conter entre 14% e 18% de sal. Quimicamente, falamos do cloreto de sódio. Ele é composto por íons de sódio e cloro. O que acontece quando um desses minúsculos cristais toca nossa língua? “O paladar é um sentido que, através das papilas gustativas, nos permite detectar substâncias químicas em nosso ambiente que podem ser benéficas ou prejudiciais”, explica a especialista em paladar Courtney Wilson, da Faculdade de Medicina da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. “Essas papilas gustativas são pequenos aglomerados de células no formato de um dente de alho, espalhadas por toda a língua. Essas células possuem receptores que evoluíram para reagir a certos tipos de substâncias químicas”, acrescenta ela. No caso do sal, temos receptores que reagem especificamente ao sódio. “Eles são essencialmente poros minúsculos na superfície da célula que permitem apenas a passagem de certos íons. Assim, quando os íons de sódio estão presentes, eles podem fluir por esse minúsculo canal. A célula é alertada para a presença de sódio e envia esse sinal elétrico pelo nervo até o cérebro”, diz Wilson. Mas por que o sal tem um gosto tão bom? “Nem sempre… Basicamente, temos dois sistemas: um que nos diz quando o sabor é agradável e outro que nos avisa que é demais e que provavelmente deveríamos cuspir”, afirma a especialista. “Se você tiver a concentração certa de sal, a quantidade que manterá seu corpo num nível ideal, terá um gosto realmente delicioso.” Essa sensação, ensina Wilson, acontece porque o corpo sempre tenta manter o teor de sal dentro de uma faixa estreita. Embora a presença de sal seja essencial para o funcionamento do organismo, o excesso dele pode ser prejudicial. “Manter a quantidade certa de sódio no nosso corpo é extremamente importante. Os sinais elétricos que as células cerebrais enviam umas às outras e aos músculos, e que recebem dos sistemas sensoriais — e até mesmo os pensamentos — dependem do sódio.” Mas o sal faz mais do que “salgar”: ele pode realçar outros sabores. E nós sabemos como esse mecanismo funciona? “A resposta simples é não”, admite Wilson. “A resposta mais complexa é que existem algumas evidências de que as células gustativas se comunicam entre si, o que afetaria a intensidade da resposta a um determinado estímulo na boca, seja ele doce, amargo ou salgado. Portanto, adicionar sal poderia afetar a resposta das papilas gustativas às outras dimensões”, explica ela. “Mas isso também pode estar acontecendo mais adiante nessa via de informação. Pode acontecer no tronco encefálico ou no córtex gustativo, onde a informação chega e as células podem estar interagindo para modular a nossa percepção.” Assim, o poder mágico e transformador do sal — aquele que faz com que os doces tenham um sabor melhor com apenas uma pitada salgada — permanece um mistério. Talvez ele altere o comportamento das nossas células gustativas, ou talvez a forma como percebemos os sinais disso no cérebro. Mas o sal não é apenas um condimento. Como diz Wilson, ele é vital para o bom funcionamento do nosso organismo. Será que isso explica, em parte, por que achamos esse ingrediente tão atraente? Sem sal, não há vida “Os animais, incluindo nós, usam sódio para uma variedade de funções. Ele é essencial para a vida”, constata Joel Geerling, professor associado de neurologia da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. “Cerca de um terço do nosso gasto energético diário está relacionado ao bombeamento de sódio de dentro para fora da célula”, enfatiza ele. “Cada célula do corpo possui uma bomba de sódio-potássio em seu revestimento externo, que funciona o dia todo, e bombeia íons de sódio para fora da célula.” Quando esse sódio está fora das nossas células, ele tenta voltar rapidamente, num mecanismo parecido ao que acontece com a água represada por uma barragem. Nossas células controlam o movimento do sódio através de canais especiais. Quando esses canais se abrem, o sódio entra em grande quantidade, e nossas células aproveitam a energia desse movimento para diversos processos. “Cerca de um terço do nosso gasto energético diário é gasto bombeando sódio de dentro para fora da célula”, repete ele. “Os íons de sódio invadem a célula e causam uma mudança rápida e acentuada na voltagem da membrana, conhecida como potencial de ação no neurônio — não apenas no cérebro, mas também nas células do músculo cardíaco, aquelas que nos mantêm vivos, batimento após batimento”, detalha o especialista. Se não tivéssemos sódio, nossas células simplesmente não funcionariam. Geerling tem pesquisado o cérebro para tentar entender por que sentimos tanta necessidade de sal. “Os animais que vivem no mar têm muito sódio ao redor e, na verdade, têm o problema oposto ao dos animais terrestres: eles precisam reter parte do sódio e manter o equilíbrio interno.” Nos animais terrestres, a situação é oposta. “O sódio é muito escasso na terra. Se você mora longe do mar, e principalmente se não come carne, terá muito pouco sódio na dieta”, explica o especialista. “Os carnívoros comem outros tecidos animais, que têm cerca de 0,9% de cloreto de sódio, então geralmente consomem sal suficiente. Mas os herbívoros, se comerem apenas plantas, terão um teor muito alto de potássio e praticamente nenhum sódio”, compara ele. “Os elefantes são um exemplo famoso. Existem manadas desses animais na África que se lembram da localização de cavernas com sal nas paredes, de onde extraem esse composto com as presas.” “Os cervos
Cegueira por desatenção: por que às vezes você não vê o que está diante dos olhos

Fonte: BBC News Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Canva | Data: 02/05/2026 Muitas pessoas vão reconhecer essa situação tão comum. Alguém insiste que um objeto simplesmente não está ali, que é impossível de encontrá-lo, apesar de dizer que fez uma busca minuciosa e eficaz. Outra pessoa chega, dá uma olhada rápida no mesmo lugar e encontra o objeto quase de imediato. “Está bem debaixo do seu nariz!” Essa situação frustrante (para os dois envolvidos) revela algo fundamental sobre como o cérebro funciona. Encontrar objetos em ambientes do nosso dia a dia depende de um processo chamado busca visual, e nosso cérebro não é tão eficiente nisso. Mesmo quando algo está à nossa frente, o cérebro pode não perceber que ele está ali. Em outras palavras, olhamos, mas não vemos. À primeira vista, procurar algo parece simples. Olhamos uma superfície — a bancada da cozinha, a mesa de trabalho, aquela gaveta onde guardamos de “tudo” — até encontrar o objeto. Mas o cérebro não consegue analisar todos os elementos de uma cena ao mesmo tempo. Por isso, se baseia na atenção, seleciona algumas características e deixa o restante de lado. Os psicólogos costumam descrever a atenção como um holofote que percorre o campo visual. Onde ele se concentra, a informação é processada em detalhes. O que fica fora dele recebe muito menos atenção. Existe uma razão anatômica para o olhar se mover o tempo todo. O centro da retina — a fóvea — concentra a visão mais nítida. Mas ocupa apenas uma pequena parte do campo visual, do tamanho aproximado da unha do polegar e na distância do braço estendido. Para enxergar bem uma cena, os olhos precisam se mover repetidamente, levando diferentes partes do ambiente a essa pequena área de alta resolução. Esses movimentos são conhecidos como sacadas, ou movimentos oculares sacádicos, e ocorrem o tempo todo. Mesmo quando achamos que estamos olhando fixamente para algo, os olhos se movem discretamente de um ponto a outro. Na maioria das vezes, esse sistema funciona muito bem. Ele permite que a gente se oriente em ambientes visuais complexos sem ficar sobrecarregado de informação. Olhando sem enxergar A visão, afinal, não é apenas o que vemos. É também o que o cérebro espera encontrar. Esse fenômeno é conhecido como “cegueira por desatenção”. Uma das demonstrações mais conhecidas desse fenômeno aparece em um vídeo em que um grupo de pessoas troca passes com uma bola de basquete. Quem assiste deve contar o número de passes. Enquanto o espectador se concentra na tarefa, uma pessoa vestida de gorila atravessa a cena tranquilamente. Cerca de metade dos espectadores não percebe o gorila. O gorila não está escondido. Ele passa pelo centro da tela. Mas o cérebro, concentrado em contar os passes de basquete, simplesmente não o registra. Se você já procurou suas chaves na bancada da cozinha e outra pessoa as encontrou na hora, já passou por isso. Assim que a informação visual chega ao cérebro, ela é processada por diferentes vias. Uma delas, frequentemente chamada de via dorsal, segue em direção ao lobo parietal do cérebro, área responsável por funções essenciais como a percepção espacial e a orientação da atenção. É esse sistema que permite ao cérebro identificar onde os objetos estão no espaço e direcionar a atenção durante a busca visual. Homens e mulheres procuram de forma diferente? Ao descrever essa situação comum, evitei recorrer a um estereótipo, aquele em que é o marido quem não consegue encontrar um objeto bem diante dele. Estudos sobre busca visual identificaram pequenas diferenças na forma como homens e mulheres examinam cenas complexas. Em média, as mulheres tendem a se sair um pouco melhor ao localizar objetos em ambientes desordenados, enquanto os homens costumam se sair melhor em tarefas que envolvem orientação espacial ampla ou imaginar objetos girando em três dimensões. Ainda não há consenso sobre as razões, mas parte da explicação pode estar na forma como movemos os olhos ao procurar algo. A busca visual depende do movimento do olhar de um ponto a outro, as chamadas “sacadas”. Estudos com rastreamento ocular mostram que algumas pessoas examinam a cena de forma mais metódica, seguindo um padrão mais organizado. Outras fazem movimentos maiores pelo campo visual. Uma inspeção mais sistemática tende a percorrer toda a superfície, mesmo quando está cheia de objetos, o que aumenta as chances de encontrar algo pequeno, como um par de chaves ou a tesoura da cozinha. Movimentos maiores, por outro lado, podem pular partes inteiras, deixando um objeto à vista sem entrar no foco da atenção do cérebro. Alguns psicólogos evolucionistas sugerem que essas diferenças podem ter origem em sociedades de caçadores-coletores. Mas há poucas evidências disso. Experiência, familiaridade com o ambiente e diferenças individuais de atenção provavelmente pesam muito mais do que o gênero. No fim, a busca visual tem menos a ver com examinar uma foto e mais com um processo de antecipação. O cérebro tenta prever o tempo todo onde algo pode estar e direciona a atenção com base nisso. Na maior parte das vezes, essas previsões estão corretas. Às vezes isso não acontece, e um objeto bem diante dos olhos não corresponde ao que o cérebro espera encontrar. Isso significa que, quando alguém diz que já procurou por toda parte, pode estar dizendo a verdade. Só não procurou da maneira certa. * Michelle Spear é professora de anatomia na Universidade de Bristol, no Reino Unido. * Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e reproduzido aqui sob licença Creative Commons. Clique aqui para ler a versão original em inglês.
Os surpreendentes alimentos que ajudam a dormir melhor

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 26/08/2025 Quando acordamos pela manhã, depois de uma grande refeição no final da noite, sempre nos sentimos cansados. O excesso de energia necessário para digerir grandes porções de ricos nutrientes pode perturbar o nosso sono, gerando uma noite agitada. Felizmente, existem formas de tentar melhorar o nosso sono pela alimentação, evitando certas comidas e bebidas que sabemos que irão nos manter acordados, como as que contêm cafeína. Mas será que outros alimentos, particularmente se consumirmos antes de irmos para a cama, podem nos ajudar a melhorar a qualidade do sono? Alimentos específicos ou a dieta como um todo? Diversos estudos selecionaram certos alimentos no jantar que podem melhorar o nosso sono. Estudos pequenos concluíram, por exemplo, que o suco de cereja-amarena pode ajudar as pessoas a dormir melhor. Outros descobriram que comer kiwi antes de deitar também é bom . Existem também pesquisas que demonstram que leite quente pode nos ajudar a dormir. Acredita-se que os altos níveis de triptofano presentes no leite possam ajudar a induzir o início do sono. Ele é usado pelo corpo para sintetizar melatonina, o “hormônio do sono”. A melatonina regula nosso ciclo de sono e vigília. O nosso corpo produz a substância em maior quantidade no final do dia, quando começa a escurecer. Diversos estudos concluíram que comer alimentos ricos em melatonina pode melhorar a qualidade do sono e nos ajudar a dormir por mais tempo. Mas existem também muitas pesquisas que indicam que nenhuma comida ou bebida específica é suficiente para melhorar o sono. O que importa é a nossa alimentação como um todo. “Você não pode comer mal o dia inteiro e achar que é suficiente tomar um copo de suco de cereja amarena antes da hora de dormir”, alerta a professora de Medicina Nutricional Marie-Pierre St-Onge, do Instituto de Nutrição Humana da Universidade Columbia em Nova York, nos Estados Unidos. Isso ocorre porque o corpo leva pelo menos duas horas para extrair dos alimentos os nutrientes necessários para produzir as substâncias neuroquímicas que promovem o sono, segundo ela. Por isso, o que comemos ao longo do dia é que pode melhorar a qualidade do sono. Que tipo de alimentação melhora o sono? Pesquisas demonstram que a alimentação mais benéfica para o sono aparentemente é uma dieta baseada em plantas, que inclua muitos grãos integrais, além de laticínios e proteínas magras, incluindo peixe, segundo a professora de Ciências da Nutrição Erica Jansen, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. No seu estudo de 2021 para examinar a relação entre o sono e a alimentação, Jansen concluiu que as pessoas que começarem a comer mais frutas e verduras todos os dias por um período de três meses podem melhorar drasticamente o seu sono. O estudo solicitou a mais de 1 mil participantes que aumentassem sua ingestão diária de frutas e verduras. O aumento se destinava a destacar a relação de duas vias entre o sono e a alimentação, que domina as pesquisas nesta área. Estudos populacionais demonstraram que as pessoas com dieta mais saudável têm melhor sono, mas sempre existe a possibilidade de que elas tomem melhores decisões alimentares porque estão mais descansadas. Jansen concluiu que as mulheres apresentaram mais que o dobro da probabilidade de vivenciar melhoria dos sintomas da insônia depois de comer três ou mais porções adicionais de frutas e verduras por dia. Um dos motivos é que as frutas e verduras (ao lado da carne, laticínios, nozes, sementes, grãos integrais e legumes) geralmente contêm alto teor do aminoácido essencial triptofano. Um estudo realizado na Espanha em 2024 perguntou a mais de 11 mil estudantes quais eram seus hábitos de sono e alimentação. A pesquisa descobriu que o quartil que consumia menos triptofano diariamente apresentou qualidade de sono significativamente inferior. Os pesquisadores concluíram que a baixa ingestão de triptofano está relacionada ao maior risco de curta duração do sono e insônia. E que comer alimentos com maior teor de triptofano pode melhorar a qualidade do sono. Jansen explica que o triptofano é importante porque é precursor da serotonina, que é transformada em melatonina. “Se não houver triptofano no corpo, nem fontes diretas de melatonina na alimentação, os níveis de melatonina produzidos pelo corpo serão reduzidos”, afirma a professora. Mas não é apenas questão de comer alimentos ricos em triptofano, segundo ela. A ingestão precisa ser feita com um carboidrato com alto teor de fibras, como grãos integrais ou legumes. Isso permite a digestão adequada e o encaminhamento da substância para o cérebro, de onde ela pode melhorar o sono. A alimentação rica em vegetais também pode melhorar o sono de muitas outras formas. Sabe-se, por exemplo, que dietas com alto teor de alimentos vegetais reduzem as inflamações do corpo. E pesquisas indicam que o baixo nível de inflamação é associado à melhor qualidade do sono. Na sua pesquisa, St-Onge concluiu que a melhoria do sono é associada à alimentação com alto teor de fibras, que desempenha papel fundamental na fermentação bacteriana no intestino. Estudos demonstram que existem possíveis mecanismos benéficos que podem explicar por que o intestino saudável pode melhorar o sono, por meio do eixo intestino-cérebro. Existem também estudos com animais que mostram a conexão entre a melhoria do sono e a ingestão dos compostos vegetais benéficos chamados polifenóis. Mas St-Onge afirma que é difícil avaliar este ponto em estudos com seres humanos, pois os bancos de dados que mostram o teor de polifenóis de diferentes alimentos (que poderiam ser empregados para medir a quantidade de consumo por uma pessoa) podem não ser totalmente precisos. Isso ocorre porque a quantidade de polifenóis nos alimentos varia de uma safra para outra, ano após ano, dependendo do tipo de solo, das condições do tempo e dos processos agrícolas. O mesmo ocorre com o teor de melatonina em alimentos de origem vegetal, que também pode ser diferente, dependendo do local e da forma de cultivo. Qual o valor do magnésio? O magnésio é outro nutriente encontrado em dietas ricas em plantas que pode levar a uma boa noite de sono. O mineral pode ajudar a reduzir os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, o que acalma o sistema nervoso. A recomendação é que a maioria dos adultos com mais de 30 anos
O elemento químico que mudou a história da saúde mental

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 03/03/2026 Em julho de 1968, quando Walter Brown começou sua especialização em psiquiatria na Universidade Yale (EUA), sua primeira missão foi evitar que “Mr. G” se reunisse com o então presidente americano. Mr. G era um paciente que havia passado 17 anos internado em hospitais psiquiátricos, ora imobilizado por uma depressão suicida, ora com uma euforia que o fazia imaginar um encontro com o mandatário do país. “Diversas vezes por semana, Mr. G corria em direção à porta. Três enfermeiras e eu precisávamos arrastá-lo para um quarto de reclusão, onde, enquanto eu lutava com ele, uma delas aplicava um sedativo”, escreveu Brown no seu livro Lithium: a Doctor, a Drug and a Breakthrough (Lítio: um médico, uma droga e um avanço, em tradução livre). O paciente tinha psicose maníaco-depressiva ou transtorno bipolar. Seu prognóstico não era nada animador, mas, dois anos depois, Brown voltou a se encontrar com Mr. G. Agora, ele vivia por conta própria, fora dos hospitais e trabalhava em um supermercado. E ainda se lembrava, com uma mescla de assombro e vergonha, do seu desejo de se encontrar com o presidente americano. Um novo medicamento havia estabilizado suas mudanças de humor: o lítio. Ali nasceu o interesse do psiquiatra por aquele metal alcalino e, sobretudo, pelo homem que o transformou na primeira droga psiquiátrica: o médico australiano John Cade. Do Big Bang até a febre do lítio O lítio vem sendo chamado no século 21 de “ouro do futuro”, devido ao seu uso em baterias de produtos eletrônicos e na indústria de veículos automotores. A busca de fontes alternativas de energia para substituir os combustíveis fósseis fez disparar uma corrida pelo lítio, encontrado em grandes quantidades nas salinas de Bolívia, Chile e Argentina. Mas o lítio — o mais leve dos metais — é nosso companheiro desde tempos imemoriais. Os cientistas acreditam que o lítio seja um dos três elementos criados com o Big Bang (origem do universo), ao lado do hidrogênio e do hélio. São eles que ocupam os três primeiros lugares da tabela periódica, que todos nós estudamos nas aulas de química. Em seu livro sobre a tabela periódica, James Russell afirma que os registros do uso terapêutico do lítio remontam ao século 2 d.C., quando o médico grego Sorano de Éfeso recomendava banhos em cachoeiras de águas alcalinas para as pessoas que sofriam de “manias e melancolia”. Em meados do século 20, o lítio voltaria a ser fundamental para o tratamento desses dois estados — “muito para cima” e “muito para baixo”. Para Walter Brown, dois aspectos são fundamentais nessa história: as características da psiquiatria até a conversão do lítio em produto farmacêutico e o contexto que levou à descoberta de John Cade em 1949. “Até aquele momento, não havia drogas para a saúde mental. As pessoas usavam opioides e às vezes recebiam estimulantes ou sedativos. O lítio foi a primeira oportunidade de tratamento eficaz dos sintomas de uma doença psiquiátrica”, declarou Brown à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC. Os tratamentos para a depressão maníaca e outras condições de saúde mental incluíam internações em hospitais psiquiátricos, onde era possível desde induzir o coma com uma dose de insulina até sedar o paciente para terapias de sono profundo. Também eram aplicados choques elétricos e, nos anos 1940 e princípio dos anos 1950, foi muito utilizada a lobotomia (retirada de uma parte do cérebro). John Cade era um psiquiatra jovem e desconhecido. Veterano da Segunda Guerra Mundial, ele trabalhava em um hospital de Melbourne, na Austrália, sem treinamento formal, sem bolsa de estudos e sem colaboradores. Seu laboratório ficava na cozinha do hospital. Há quem diga que sua descoberta ocorreu por acaso, mas Brown não concorda totalmente com essa avaliação. “Em parte do processo, ele teve sorte”, afirmou Brown. “Ele começou a administrar sais de lítio a cobaias e percebeu que elas ficavam relaxadas. Mas é preciso dar-lhe crédito porque ele observou essa reação e imaginou que poderia funcionar com as pessoas, com pacientes maníacos. Dar este salto, para mim, é muito intuitivo e reflete sua capacidade de observar sem preconceitos.” Eduard Vieta, chefe de serviços de psiquiatria e psicologia do Hospital Universitário de Barcelona, na Espanha, afirmou à BBC News Mundo que, embora hoje nos pareça lógico, a revolucionária ideia de Cade de que seria possível tratar as doenças mentais com medicamentos não era assim tão óbvia 70 anos atrás. “Ele formulou uma hipótese, que por fim se demonstrou ser falsa, de que o ácido úrico poderia desempenhar um papel chave (nos tratamentos)”, segundo Vieta. “Como os ácidos não são estáveis como medicamentos, é preciso constituí-los na forma de sal para que possam ser consumidos. Aqui entra em jogo o lítio. Ele misturou lítio ao ácido úrico, criando urato de lítio. Quando administrou essa solução às cobaias, ele observou que elas se tranquilizavam.” Quando Cade administrou urato de lítio aos pacientes, ele comprovou uma melhora — mas a atribuiu ao ácido úrico e não ao lítio. “Mas, depois, ao testar outros sais, não obteve o mesmo resultado. Ele foi inteligente e deduziu que havia sido o lítio que havia melhorado seus pacientes”, acrescentou Vieta. Lítio no sangue Walter Brown disse que sua ideia era escrever uma biografia de Cade. “Mas na pesquisa fiquei sabendo, por exemplo, que o próprio Cade havia suspendido seu trabalho porque seus pacientes ficavam doentes. E outras pessoas assumiram seu lugar. Decidi então escrever a história de uma descoberta científica, de pessoas que aprenderam com outras pessoas”, afirmou. Embora os 10 pacientes iniciais de John Cade tenham demonstrado melhoras em sua saúde mental, alguns deles sofreram severas intoxicações com muita rapidez. O próprio Cade achava que o lítio era perigoso e não deveria ser receitado. Mas outros médicos na Austrália, como Edward Trautner, comprovaram que era possível medir a quantidade de lítio no sangue dos pacientes e assim evitar a intoxicação. Segundo o presidente da Sociedade Argentina de Psiquiatria, Ricardo Corral, existe uma “janela terapêutica” entre um limite mínimo (no qual o lítio não é eficaz) e um máximo (em
Fibra é a nova proteína? Os surpreendentes benefícios da mais nova tendência de bem-estar

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 24/01/2026 Até recentemente, era comum ver na busca incessante por proteínas a melhor esperança de aumentar nossa resistência e melhorar a forma física. Mas, nos últimos meses, o principal tema alimentar nas redes sociais passou a ser a fibra, algo que muito poucos de nós consumimos em quantidade suficiente todos os dias. Postagens com as hashtags #fibremaxxing e #fibermaxxing (“maximizando as fibras”, em português) receberam mais de 150 milhões de visualizações no TikTok. E vídeos de sementes de chia sendo lançadas sobre mingau e nutricionistas alardeando os benefícios do feijão-vermelho e do grão-de-bico surgiram nos feeds de todas as pessoas. O NHS (o serviço público de saúde do Reino Unido) recomenda aos adultos o consumo de 30 g de fibra por dia. Mas 96% dos britânicos não atingem esta recomendação. Muitos não chegam nem perto. O consumo médio diário de fibra no país é de cerca de 16,4 g — e as mulheres comem menos que os homens. Muitos nutricionistas afirmam que esse alvoroço em torno das fibras não é algo ruim. A nutricionista Kate Hilton explica que a fibra foi considerada, por muito tempo, um “nutriente pouco charmoso”, devido às suas associações à digestão e à flatulência, ao contrário da relação de longa data entre a proteína e a boa forma física. “Quando comecei a observar as postagens sobre a fibra, fiquei bastante empolgada”, afirma a nutricionista Kristen Stavridis. “Parece que as mensagens sobre a saúde do intestino finalmente estão atingindo as pessoas.” Além de favorecer o intestino, comer mais alimentos fibrosos, como arroz integral e batata assada, também traz outros benefícios. “As pessoas que ingerem mais fibras viverão por mais tempo, sofrerão menos doenças cardiovasculares, terão menos câncer e menos risco de condições como diabetes”, segundo o professor de nutrição Kevin Whelan, do King’s College de Londres. Whelan destaca que alguns estudos indicam que a fibra também pode melhorar nossa saúde mental. Yeshe Sander é de Birmingham, no Reino Unido. Ela tem 24 anos de idade e conta que aumentar a ingestão de fibra na sua alimentação para 30 g por dia a ajudou a se sentir “muito melhor”, física e mentalmente. Ela conta que seus pais tentaram fazer com que ela comesse oito porções de frutas, legumes e verduras por dia e tivesse uma dieta rica em fibras. Mas, durante a adolescência, ela decidiu se rebelar contra isso. “Eu não queria nada que fosse comida saudável”, conta Sander. “Quando era adolescente eu comia muito chocolate, rosquinhas e biscoitos.” Na faculdade, sua refeição rápida favorita era macarrão instantâneo com torradas de pão de forma branco ou pizza congelada. “Somente quando fiquei mais velha, com pouco mais de 20 anos, pensei que talvez eles (seus pais) tivessem razão”, afirma ela. Depois de se sentir fraca, indisposta e sem motivação, ela reexaminou sua alimentação e voltou a comer alimentos mais saudáveis. E, após aumentar sua ingestão de fibras, Sander percebeu a diferença. “Agora, consigo ver claramente”, conta Sander. “Quando como mais fibras, minha saúde mental melhora e minha ansiedade e meu desânimo diminuem.” O café da manhã é a sua refeição preferida. Ela recomenda comer mingau com diversas coberturas, para consumir um pouco de fibra pela manhã. O que é a fibra e qual a sua importância na alimentação? A fibra alimentar é uma cadeia de moléculas de açúcar produzidas pelas plantas, que não pode ser digerida por seres humanos. Ela é encontrada em frutas, verduras, legumes, cereais, feijões e nozes. Os efeitos da fibra foram descobertos nos anos 1970. Acreditava-se que a fibra fosse apenas um “material grosseiro e duro”, que ajudava nossos corpos a se livrar dos resíduos, segundo Whelan. “Agora, sabemos que ela é muito mais do que isso. Ela traz outros benefícios à saúde além do intestino.” As fibras fermentáveis, encontradas em alimentos como aveia e legumes, ajudam as bactérias boas do intestino delgado a crescer, enriquecendo nosso microbioma intestinal. Já as fibras insolúveis, encontradas no pão integral, farelo e nas cascas das frutas e legumes, ajudam as fezes a trafegar pelo intestino. Por fim, as fibras viscosas, encontradas na aveia, sementes e nas cascas de algumas frutas e legumes, reduzem a velocidade de absorção do açúcar e seus picos na corrente sanguínea. Todos esses tipos diferentes de fibras, entre outros, nos ajudam a manter a saúde, explica Whelan. Em relação aos benefícios do consumo de fibras à saúde, Whelan indica diversos estudos epidemiológicos em larga escala. Eles registram os hábitos alimentares de um grande grupo de pessoas e quais doenças elas desenvolveram. Estes estudos nem sempre levam em consideração outros fatores, como a demografia, o ambiente e conscientização sobre alimentação. Mas o professor afirma que existem também testes clínicos que indicam que a fibra traz benefícios à saúde de muitas partes do corpo. Alguns estudos também sugerem que a alimentação com alto teor de fibra pode melhorar a saúde mental, segundo Whelan. Um microbioma saudável, alimentado com fibra pré-biótica que promove a saúde das bactérias do intestino, potencialmente, pode reduzir a ansiedade e o risco de depressão. “Existe uma comunicação em duas vias entre o nosso cérebro e o intestino, o eixo intestino-cérebro“, explica ele. Testes clínicos sugerem que certas fibras (as fibras pré-bióticas que alimentam a microbiota) podem ajudar a melhorar o humor. Uma descoberta surpreendente das pesquisas de Whelan foi que a fibra ajudou a melhorar a cognição em pessoas de mais de 60 anos. ‘Minha pele melhorou, tenho mais energia’ Vicky Owens conta que aumentar sua ingestão de fibra após um problema de saúde no ano passado trouxe enormes benefícios. Como empresária com pouco tempo para cozinhar, ela se alimentava principalmente com delivery e alimentos prontos. A jovem de 25 anos começou a ter sintomas sem motivo aparente, como ataques de pânico, problemas gástricos e olhos inchados e irritados. Seu médico ficou perplexo, segundo ela. Ela começou a reavaliar seu estilo de vida e, depois que um acupunturista sugeriu que ela alterasse sua alimentação, Owens percebeu que quase não comia fibras. Ela começou a cortar os alimentos ultraprocessados e dar preferência a frutas e verduras frescas, macarrão integral e

