Por que o sal tem um efeito tão poderoso em nosso cérebro?

Fonte: BBC News Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Pixabay | Data: 02/05/2026 Como você vai entender ao longo dessa reportagem, a resposta para essa pergunta tem a ver com dois fatores: primeiro, com o paladar, já que o sal altera e realça o sabor da comida. Segundo, com uma necessidade básica de manter o equilíbrio do nosso organismo, já que o sódio é fundamental para o funcionamento das células. Mas por que gostamos tanto de sal? E como ele deixa a nossa comida tão saborosa? Ele está presente em quase todas as culinárias do mundo, seja na forma de minúsculos grãos ou como parte de temperos básicos de algumas regiões — o molho de soja, por exemplo, pode conter entre 14% e 18% de sal. Quimicamente, falamos do cloreto de sódio. Ele é composto por íons de sódio e cloro. O que acontece quando um desses minúsculos cristais toca nossa língua? “O paladar é um sentido que, através das papilas gustativas, nos permite detectar substâncias químicas em nosso ambiente que podem ser benéficas ou prejudiciais”, explica a especialista em paladar Courtney Wilson, da Faculdade de Medicina da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. “Essas papilas gustativas são pequenos aglomerados de células no formato de um dente de alho, espalhadas por toda a língua. Essas células possuem receptores que evoluíram para reagir a certos tipos de substâncias químicas”, acrescenta ela. No caso do sal, temos receptores que reagem especificamente ao sódio. “Eles são essencialmente poros minúsculos na superfície da célula que permitem apenas a passagem de certos íons. Assim, quando os íons de sódio estão presentes, eles podem fluir por esse minúsculo canal. A célula é alertada para a presença de sódio e envia esse sinal elétrico pelo nervo até o cérebro”, diz Wilson. Mas por que o sal tem um gosto tão bom? “Nem sempre… Basicamente, temos dois sistemas: um que nos diz quando o sabor é agradável e outro que nos avisa que é demais e que provavelmente deveríamos cuspir”, afirma a especialista. “Se você tiver a concentração certa de sal, a quantidade que manterá seu corpo num nível ideal, terá um gosto realmente delicioso.” Essa sensação, ensina Wilson, acontece porque o corpo sempre tenta manter o teor de sal dentro de uma faixa estreita. Embora a presença de sal seja essencial para o funcionamento do organismo, o excesso dele pode ser prejudicial. “Manter a quantidade certa de sódio no nosso corpo é extremamente importante. Os sinais elétricos que as células cerebrais enviam umas às outras e aos músculos, e que recebem dos sistemas sensoriais — e até mesmo os pensamentos — dependem do sódio.” Mas o sal faz mais do que “salgar”: ele pode realçar outros sabores. E nós sabemos como esse mecanismo funciona? “A resposta simples é não”, admite Wilson. “A resposta mais complexa é que existem algumas evidências de que as células gustativas se comunicam entre si, o que afetaria a intensidade da resposta a um determinado estímulo na boca, seja ele doce, amargo ou salgado. Portanto, adicionar sal poderia afetar a resposta das papilas gustativas às outras dimensões”, explica ela. “Mas isso também pode estar acontecendo mais adiante nessa via de informação. Pode acontecer no tronco encefálico ou no córtex gustativo, onde a informação chega e as células podem estar interagindo para modular a nossa percepção.” Assim, o poder mágico e transformador do sal — aquele que faz com que os doces tenham um sabor melhor com apenas uma pitada salgada — permanece um mistério. Talvez ele altere o comportamento das nossas células gustativas, ou talvez a forma como percebemos os sinais disso no cérebro. Mas o sal não é apenas um condimento. Como diz Wilson, ele é vital para o bom funcionamento do nosso organismo. Será que isso explica, em parte, por que achamos esse ingrediente tão atraente? Sem sal, não há vida “Os animais, incluindo nós, usam sódio para uma variedade de funções. Ele é essencial para a vida”, constata Joel Geerling, professor associado de neurologia da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. “Cerca de um terço do nosso gasto energético diário está relacionado ao bombeamento de sódio de dentro para fora da célula”, enfatiza ele. “Cada célula do corpo possui uma bomba de sódio-potássio em seu revestimento externo, que funciona o dia todo, e bombeia íons de sódio para fora da célula.” Quando esse sódio está fora das nossas células, ele tenta voltar rapidamente, num mecanismo parecido ao que acontece com a água represada por uma barragem. Nossas células controlam o movimento do sódio através de canais especiais. Quando esses canais se abrem, o sódio entra em grande quantidade, e nossas células aproveitam a energia desse movimento para diversos processos. “Cerca de um terço do nosso gasto energético diário é gasto bombeando sódio de dentro para fora da célula”, repete ele. “Os íons de sódio invadem a célula e causam uma mudança rápida e acentuada na voltagem da membrana, conhecida como potencial de ação no neurônio — não apenas no cérebro, mas também nas células do músculo cardíaco, aquelas que nos mantêm vivos, batimento após batimento”, detalha o especialista. Se não tivéssemos sódio, nossas células simplesmente não funcionariam. Geerling tem pesquisado o cérebro para tentar entender por que sentimos tanta necessidade de sal. “Os animais que vivem no mar têm muito sódio ao redor e, na verdade, têm o problema oposto ao dos animais terrestres: eles precisam reter parte do sódio e manter o equilíbrio interno.” Nos animais terrestres, a situação é oposta. “O sódio é muito escasso na terra. Se você mora longe do mar, e principalmente se não come carne, terá muito pouco sódio na dieta”, explica o especialista. “Os carnívoros comem outros tecidos animais, que têm cerca de 0,9% de cloreto de sódio, então geralmente consomem sal suficiente. Mas os herbívoros, se comerem apenas plantas, terão um teor muito alto de potássio e praticamente nenhum sódio”, compara ele. “Os elefantes são um exemplo famoso. Existem manadas desses animais na África que se lembram da localização de cavernas com sal nas paredes, de onde extraem esse composto com as presas.” “Os cervos

Cegueira por desatenção: por que às vezes você não vê o que está diante dos olhos

Fonte: BBC News Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Canva | Data: 02/05/2026 Muitas pessoas vão reconhecer essa situação tão comum. Alguém insiste que um objeto simplesmente não está ali, que é impossível de encontrá-lo, apesar de dizer que fez uma busca minuciosa e eficaz. Outra pessoa chega, dá uma olhada rápida no mesmo lugar e encontra o objeto quase de imediato. “Está bem debaixo do seu nariz!” Essa situação frustrante (para os dois envolvidos) revela algo fundamental sobre como o cérebro funciona. Encontrar objetos em ambientes do nosso dia a dia depende de um processo chamado busca visual, e nosso cérebro não é tão eficiente nisso. Mesmo quando algo está à nossa frente, o cérebro pode não perceber que ele está ali. Em outras palavras, olhamos, mas não vemos. À primeira vista, procurar algo parece simples. Olhamos uma superfície — a bancada da cozinha, a mesa de trabalho, aquela gaveta onde guardamos de “tudo” — até encontrar o objeto. Mas o cérebro não consegue analisar todos os elementos de uma cena ao mesmo tempo. Por isso, se baseia na atenção, seleciona algumas características e deixa o restante de lado. Os psicólogos costumam descrever a atenção como um holofote que percorre o campo visual. Onde ele se concentra, a informação é processada em detalhes. O que fica fora dele recebe muito menos atenção. Existe uma razão anatômica para o olhar se mover o tempo todo. O centro da retina — a fóvea — concentra a visão mais nítida. Mas ocupa apenas uma pequena parte do campo visual, do tamanho aproximado da unha do polegar e na distância do braço estendido. Para enxergar bem uma cena, os olhos precisam se mover repetidamente, levando diferentes partes do ambiente a essa pequena área de alta resolução. Esses movimentos são conhecidos como sacadas, ou movimentos oculares sacádicos, e ocorrem o tempo todo. Mesmo quando achamos que estamos olhando fixamente para algo, os olhos se movem discretamente de um ponto a outro. Na maioria das vezes, esse sistema funciona muito bem. Ele permite que a gente se oriente em ambientes visuais complexos sem ficar sobrecarregado de informação. Olhando sem enxergar A visão, afinal, não é apenas o que vemos. É também o que o cérebro espera encontrar. Esse fenômeno é conhecido como “cegueira por desatenção”. Uma das demonstrações mais conhecidas desse fenômeno aparece em um vídeo em que um grupo de pessoas troca passes com uma bola de basquete. Quem assiste deve contar o número de passes. Enquanto o espectador se concentra na tarefa, uma pessoa vestida de gorila atravessa a cena tranquilamente. Cerca de metade dos espectadores não percebe o gorila. O gorila não está escondido. Ele passa pelo centro da tela. Mas o cérebro, concentrado em contar os passes de basquete, simplesmente não o registra. Se você já procurou suas chaves na bancada da cozinha e outra pessoa as encontrou na hora, já passou por isso. Assim que a informação visual chega ao cérebro, ela é processada por diferentes vias. Uma delas, frequentemente chamada de via dorsal, segue em direção ao lobo parietal do cérebro, área responsável por funções essenciais como a percepção espacial e a orientação da atenção. É esse sistema que permite ao cérebro identificar onde os objetos estão no espaço e direcionar a atenção durante a busca visual. Homens e mulheres procuram de forma diferente? Ao descrever essa situação comum, evitei recorrer a um estereótipo, aquele em que é o marido quem não consegue encontrar um objeto bem diante dele. Estudos sobre busca visual identificaram pequenas diferenças na forma como homens e mulheres examinam cenas complexas. Em média, as mulheres tendem a se sair um pouco melhor ao localizar objetos em ambientes desordenados, enquanto os homens costumam se sair melhor em tarefas que envolvem orientação espacial ampla ou imaginar objetos girando em três dimensões. Ainda não há consenso sobre as razões, mas parte da explicação pode estar na forma como movemos os olhos ao procurar algo. A busca visual depende do movimento do olhar de um ponto a outro, as chamadas “sacadas”. Estudos com rastreamento ocular mostram que algumas pessoas examinam a cena de forma mais metódica, seguindo um padrão mais organizado. Outras fazem movimentos maiores pelo campo visual. Uma inspeção mais sistemática tende a percorrer toda a superfície, mesmo quando está cheia de objetos, o que aumenta as chances de encontrar algo pequeno, como um par de chaves ou a tesoura da cozinha. Movimentos maiores, por outro lado, podem pular partes inteiras, deixando um objeto à vista sem entrar no foco da atenção do cérebro. Alguns psicólogos evolucionistas sugerem que essas diferenças podem ter origem em sociedades de caçadores-coletores. Mas há poucas evidências disso. Experiência, familiaridade com o ambiente e diferenças individuais de atenção provavelmente pesam muito mais do que o gênero. No fim, a busca visual tem menos a ver com examinar uma foto e mais com um processo de antecipação. O cérebro tenta prever o tempo todo onde algo pode estar e direciona a atenção com base nisso. Na maior parte das vezes, essas previsões estão corretas. Às vezes isso não acontece, e um objeto bem diante dos olhos não corresponde ao que o cérebro espera encontrar. Isso significa que, quando alguém diz que já procurou por toda parte, pode estar dizendo a verdade. Só não procurou da maneira certa. * Michelle Spear é professora de anatomia na Universidade de Bristol, no Reino Unido. * Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e reproduzido aqui sob licença Creative Commons. Clique aqui para ler a versão original em inglês.

Os surpreendentes alimentos que ajudam a dormir melhor

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 26/08/2025 Quando acordamos pela manhã, depois de uma grande refeição no final da noite, sempre nos sentimos cansados. O excesso de energia necessário para digerir grandes porções de ricos nutrientes pode perturbar o nosso sono, gerando uma noite agitada. Felizmente, existem formas de tentar melhorar o nosso sono pela alimentação, evitando certas comidas e bebidas que sabemos que irão nos manter acordados, como as que contêm cafeína. Mas será que outros alimentos, particularmente se consumirmos antes de irmos para a cama, podem nos ajudar a melhorar a qualidade do sono? Alimentos específicos ou a dieta como um todo? Diversos estudos selecionaram certos alimentos no jantar que podem melhorar o nosso sono. Estudos pequenos concluíram, por exemplo, que o suco de cereja-amarena pode ajudar as pessoas a dormir melhor. Outros descobriram que comer kiwi antes de deitar também é bom . Existem também pesquisas que demonstram que leite quente pode nos ajudar a dormir. Acredita-se que os altos níveis de triptofano presentes no leite possam ajudar a induzir o início do sono. Ele é usado pelo corpo para sintetizar melatonina, o “hormônio do sono”. A melatonina regula nosso ciclo de sono e vigília. O nosso corpo produz a substância em maior quantidade no final do dia, quando começa a escurecer. Diversos estudos concluíram que comer alimentos ricos em melatonina pode melhorar a qualidade do sono e nos ajudar a dormir por mais tempo. Mas existem também muitas pesquisas que indicam que nenhuma comida ou bebida específica é suficiente para melhorar o sono. O que importa é a nossa alimentação como um todo. “Você não pode comer mal o dia inteiro e achar que é suficiente tomar um copo de suco de cereja amarena antes da hora de dormir”, alerta a professora de Medicina Nutricional Marie-Pierre St-Onge, do Instituto de Nutrição Humana da Universidade Columbia em Nova York, nos Estados Unidos. Isso ocorre porque o corpo leva pelo menos duas horas para extrair dos alimentos os nutrientes necessários para produzir as substâncias neuroquímicas que promovem o sono, segundo ela. Por isso, o que comemos ao longo do dia é que pode melhorar a qualidade do sono. Que tipo de alimentação melhora o sono? Pesquisas demonstram que a alimentação mais benéfica para o sono aparentemente é uma dieta baseada em plantas, que inclua muitos grãos integrais, além de laticínios e proteínas magras, incluindo peixe, segundo a professora de Ciências da Nutrição Erica Jansen, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. No seu estudo de 2021 para examinar a relação entre o sono e a alimentação, Jansen concluiu que as pessoas que começarem a comer mais frutas e verduras todos os dias por um período de três meses podem melhorar drasticamente o seu sono. O estudo solicitou a mais de 1 mil participantes que aumentassem sua ingestão diária de frutas e verduras. O aumento se destinava a destacar a relação de duas vias entre o sono e a alimentação, que domina as pesquisas nesta área. Estudos populacionais demonstraram que as pessoas com dieta mais saudável têm melhor sono, mas sempre existe a possibilidade de que elas tomem melhores decisões alimentares porque estão mais descansadas. Jansen concluiu que as mulheres apresentaram mais que o dobro da probabilidade de vivenciar melhoria dos sintomas da insônia depois de comer três ou mais porções adicionais de frutas e verduras por dia. Um dos motivos é que as frutas e verduras (ao lado da carne, laticínios, nozes, sementes, grãos integrais e legumes) geralmente contêm alto teor do aminoácido essencial triptofano. Um estudo realizado na Espanha em 2024 perguntou a mais de 11 mil estudantes quais eram seus hábitos de sono e alimentação. A pesquisa descobriu que o quartil que consumia menos triptofano diariamente apresentou qualidade de sono significativamente inferior. Os pesquisadores concluíram que a baixa ingestão de triptofano está relacionada ao maior risco de curta duração do sono e insônia. E que comer alimentos com maior teor de triptofano pode melhorar a qualidade do sono. Jansen explica que o triptofano é importante porque é precursor da serotonina, que é transformada em melatonina. “Se não houver triptofano no corpo, nem fontes diretas de melatonina na alimentação, os níveis de melatonina produzidos pelo corpo serão reduzidos”, afirma a professora. Mas não é apenas questão de comer alimentos ricos em triptofano, segundo ela. A ingestão precisa ser feita com um carboidrato com alto teor de fibras, como grãos integrais ou legumes. Isso permite a digestão adequada e o encaminhamento da substância para o cérebro, de onde ela pode melhorar o sono. A alimentação rica em vegetais também pode melhorar o sono de muitas outras formas. Sabe-se, por exemplo, que dietas com alto teor de alimentos vegetais reduzem as inflamações do corpo. E pesquisas indicam que o baixo nível de inflamação é associado à melhor qualidade do sono. Na sua pesquisa, St-Onge concluiu que a melhoria do sono é associada à alimentação com alto teor de fibras, que desempenha papel fundamental na fermentação bacteriana no intestino. Estudos demonstram que existem possíveis mecanismos benéficos que podem explicar por que o intestino saudável pode melhorar o sono, por meio do eixo intestino-cérebro. Existem também estudos com animais que mostram a conexão entre a melhoria do sono e a ingestão dos compostos vegetais benéficos chamados polifenóis. Mas St-Onge afirma que é difícil avaliar este ponto em estudos com seres humanos, pois os bancos de dados que mostram o teor de polifenóis de diferentes alimentos (que poderiam ser empregados para medir a quantidade de consumo por uma pessoa) podem não ser totalmente precisos. Isso ocorre porque a quantidade de polifenóis nos alimentos varia de uma safra para outra, ano após ano, dependendo do tipo de solo, das condições do tempo e dos processos agrícolas. O mesmo ocorre com o teor de melatonina em alimentos de origem vegetal, que também pode ser diferente, dependendo do local e da forma de cultivo. Qual o valor do magnésio? O magnésio é outro nutriente encontrado em dietas ricas em plantas que pode levar a uma boa noite de sono. O mineral pode ajudar a reduzir os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, o que acalma o sistema nervoso. A recomendação é que a maioria dos adultos com mais de 30 anos

O elemento químico que mudou a história da saúde mental

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 03/03/2026 Em julho de 1968, quando Walter Brown começou sua especialização em psiquiatria na Universidade Yale (EUA), sua primeira missão foi evitar que “Mr. G” se reunisse com o então presidente americano. Mr. G era um paciente que havia passado 17 anos internado em hospitais psiquiátricos, ora imobilizado por uma depressão suicida, ora com uma euforia que o fazia imaginar um encontro com o mandatário do país. “Diversas vezes por semana, Mr. G corria em direção à porta. Três enfermeiras e eu precisávamos arrastá-lo para um quarto de reclusão, onde, enquanto eu lutava com ele, uma delas aplicava um sedativo”, escreveu Brown no seu livro Lithium: a Doctor, a Drug and a Breakthrough (Lítio: um médico, uma droga e um avanço, em tradução livre). O paciente tinha psicose maníaco-depressiva ou transtorno bipolar. Seu prognóstico não era nada animador, mas, dois anos depois, Brown voltou a se encontrar com Mr. G. Agora, ele vivia por conta própria, fora dos hospitais e trabalhava em um supermercado. E ainda se lembrava, com uma mescla de assombro e vergonha, do seu desejo de se encontrar com o presidente americano. Um novo medicamento havia estabilizado suas mudanças de humor: o lítio. Ali nasceu o interesse do psiquiatra por aquele metal alcalino e, sobretudo, pelo homem que o transformou na primeira droga psiquiátrica: o médico australiano John Cade. Do Big Bang até a febre do lítio O lítio vem sendo chamado no século 21 de “ouro do futuro”, devido ao seu uso em baterias de produtos eletrônicos e na indústria de veículos automotores. A busca de fontes alternativas de energia para substituir os combustíveis fósseis fez disparar uma corrida pelo lítio, encontrado em grandes quantidades nas salinas de Bolívia, Chile e Argentina. Mas o lítio — o mais leve dos metais — é nosso companheiro desde tempos imemoriais. Os cientistas acreditam que o lítio seja um dos três elementos criados com o Big Bang (origem do universo), ao lado do hidrogênio e do hélio. São eles que ocupam os três primeiros lugares da tabela periódica, que todos nós estudamos nas aulas de química. Em seu livro sobre a tabela periódica, James Russell afirma que os registros do uso terapêutico do lítio remontam ao século 2 d.C., quando o médico grego Sorano de Éfeso recomendava banhos em cachoeiras de águas alcalinas para as pessoas que sofriam de “manias e melancolia”. Em meados do século 20, o lítio voltaria a ser fundamental para o tratamento desses dois estados — “muito para cima” e “muito para baixo”. Para Walter Brown, dois aspectos são fundamentais nessa história: as características da psiquiatria até a conversão do lítio em produto farmacêutico e o contexto que levou à descoberta de John Cade em 1949. “Até aquele momento, não havia drogas para a saúde mental. As pessoas usavam opioides e às vezes recebiam estimulantes ou sedativos. O lítio foi a primeira oportunidade de tratamento eficaz dos sintomas de uma doença psiquiátrica”, declarou Brown à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC. Os tratamentos para a depressão maníaca e outras condições de saúde mental incluíam internações em hospitais psiquiátricos, onde era possível desde induzir o coma com uma dose de insulina até sedar o paciente para terapias de sono profundo. Também eram aplicados choques elétricos e, nos anos 1940 e princípio dos anos 1950, foi muito utilizada a lobotomia (retirada de uma parte do cérebro). John Cade era um psiquiatra jovem e desconhecido. Veterano da Segunda Guerra Mundial, ele trabalhava em um hospital de Melbourne, na Austrália, sem treinamento formal, sem bolsa de estudos e sem colaboradores. Seu laboratório ficava na cozinha do hospital. Há quem diga que sua descoberta ocorreu por acaso, mas Brown não concorda totalmente com essa avaliação. “Em parte do processo, ele teve sorte”, afirmou Brown. “Ele começou a administrar sais de lítio a cobaias e percebeu que elas ficavam relaxadas. Mas é preciso dar-lhe crédito porque ele observou essa reação e imaginou que poderia funcionar com as pessoas, com pacientes maníacos. Dar este salto, para mim, é muito intuitivo e reflete sua capacidade de observar sem preconceitos.” Eduard Vieta, chefe de serviços de psiquiatria e psicologia do Hospital Universitário de Barcelona, na Espanha, afirmou à BBC News Mundo que, embora hoje nos pareça lógico, a revolucionária ideia de Cade de que seria possível tratar as doenças mentais com medicamentos não era assim tão óbvia 70 anos atrás. “Ele formulou uma hipótese, que por fim se demonstrou ser falsa, de que o ácido úrico poderia desempenhar um papel chave (nos tratamentos)”, segundo Vieta. “Como os ácidos não são estáveis como medicamentos, é preciso constituí-los na forma de sal para que possam ser consumidos. Aqui entra em jogo o lítio. Ele misturou lítio ao ácido úrico, criando urato de lítio. Quando administrou essa solução às cobaias, ele observou que elas se tranquilizavam.” Quando Cade administrou urato de lítio aos pacientes, ele comprovou uma melhora — mas a atribuiu ao ácido úrico e não ao lítio. “Mas, depois, ao testar outros sais, não obteve o mesmo resultado. Ele foi inteligente e deduziu que havia sido o lítio que havia melhorado seus pacientes”, acrescentou Vieta. Lítio no sangue Walter Brown disse que sua ideia era escrever uma biografia de Cade. “Mas na pesquisa fiquei sabendo, por exemplo, que o próprio Cade havia suspendido seu trabalho porque seus pacientes ficavam doentes. E outras pessoas assumiram seu lugar. Decidi então escrever a história de uma descoberta científica, de pessoas que aprenderam com outras pessoas”, afirmou. Embora os 10 pacientes iniciais de John Cade tenham demonstrado melhoras em sua saúde mental, alguns deles sofreram severas intoxicações com muita rapidez. O próprio Cade achava que o lítio era perigoso e não deveria ser receitado. Mas outros médicos na Austrália, como Edward Trautner, comprovaram que era possível medir a quantidade de lítio no sangue dos pacientes e assim evitar a intoxicação. Segundo o presidente da Sociedade Argentina de Psiquiatria, Ricardo Corral, existe uma “janela terapêutica” entre um limite mínimo (no qual o lítio não é eficaz) e um máximo (em

Fibra é a nova proteína? Os surpreendentes benefícios da mais nova tendência de bem-estar

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 24/01/2026 Até recentemente, era comum ver na busca incessante por proteínas a melhor esperança de aumentar nossa resistência e melhorar a forma física. Mas, nos últimos meses, o principal tema alimentar nas redes sociais passou a ser a fibra, algo que muito poucos de nós consumimos em quantidade suficiente todos os dias. Postagens com as hashtags #fibremaxxing e #fibermaxxing (“maximizando as fibras”, em português) receberam mais de 150 milhões de visualizações no TikTok. E vídeos de sementes de chia sendo lançadas sobre mingau e nutricionistas alardeando os benefícios do feijão-vermelho e do grão-de-bico surgiram nos feeds de todas as pessoas. O NHS (o serviço público de saúde do Reino Unido) recomenda aos adultos o consumo de 30 g de fibra por dia. Mas 96% dos britânicos não atingem esta recomendação. Muitos não chegam nem perto. O consumo médio diário de fibra no país é de cerca de 16,4 g — e as mulheres comem menos que os homens. Muitos nutricionistas afirmam que esse alvoroço em torno das fibras não é algo ruim. A nutricionista Kate Hilton explica que a fibra foi considerada, por muito tempo, um “nutriente pouco charmoso”, devido às suas associações à digestão e à flatulência, ao contrário da relação de longa data entre a proteína e a boa forma física. “Quando comecei a observar as postagens sobre a fibra, fiquei bastante empolgada”, afirma a nutricionista Kristen Stavridis. “Parece que as mensagens sobre a saúde do intestino finalmente estão atingindo as pessoas.” Além de favorecer o intestino, comer mais alimentos fibrosos, como arroz integral e batata assada, também traz outros benefícios. “As pessoas que ingerem mais fibras viverão por mais tempo, sofrerão menos doenças cardiovasculares, terão menos câncer e menos risco de condições como diabetes”, segundo o professor de nutrição Kevin Whelan, do King’s College de Londres. Whelan destaca que alguns estudos indicam que a fibra também pode melhorar nossa saúde mental. Yeshe Sander é de Birmingham, no Reino Unido. Ela tem 24 anos de idade e conta que aumentar a ingestão de fibra na sua alimentação para 30 g por dia a ajudou a se sentir “muito melhor”, física e mentalmente. Ela conta que seus pais tentaram fazer com que ela comesse oito porções de frutas, legumes e verduras por dia e tivesse uma dieta rica em fibras. Mas, durante a adolescência, ela decidiu se rebelar contra isso. “Eu não queria nada que fosse comida saudável”, conta Sander. “Quando era adolescente eu comia muito chocolate, rosquinhas e biscoitos.” Na faculdade, sua refeição rápida favorita era macarrão instantâneo com torradas de pão de forma branco ou pizza congelada. “Somente quando fiquei mais velha, com pouco mais de 20 anos, pensei que talvez eles (seus pais) tivessem razão”, afirma ela. Depois de se sentir fraca, indisposta e sem motivação, ela reexaminou sua alimentação e voltou a comer alimentos mais saudáveis. E, após aumentar sua ingestão de fibras, Sander percebeu a diferença. “Agora, consigo ver claramente”, conta Sander. “Quando como mais fibras, minha saúde mental melhora e minha ansiedade e meu desânimo diminuem.” O café da manhã é a sua refeição preferida. Ela recomenda comer mingau com diversas coberturas, para consumir um pouco de fibra pela manhã. O que é a fibra e qual a sua importância na alimentação? A fibra alimentar é uma cadeia de moléculas de açúcar produzidas pelas plantas, que não pode ser digerida por seres humanos. Ela é encontrada em frutas, verduras, legumes, cereais, feijões e nozes. Os efeitos da fibra foram descobertos nos anos 1970. Acreditava-se que a fibra fosse apenas um “material grosseiro e duro”, que ajudava nossos corpos a se livrar dos resíduos, segundo Whelan. “Agora, sabemos que ela é muito mais do que isso. Ela traz outros benefícios à saúde além do intestino.” As fibras fermentáveis, encontradas em alimentos como aveia e legumes, ajudam as bactérias boas do intestino delgado a crescer, enriquecendo nosso microbioma intestinal. Já as fibras insolúveis, encontradas no pão integral, farelo e nas cascas das frutas e legumes, ajudam as fezes a trafegar pelo intestino. Por fim, as fibras viscosas, encontradas na aveia, sementes e nas cascas de algumas frutas e legumes, reduzem a velocidade de absorção do açúcar e seus picos na corrente sanguínea. Todos esses tipos diferentes de fibras, entre outros, nos ajudam a manter a saúde, explica Whelan. Em relação aos benefícios do consumo de fibras à saúde, Whelan indica diversos estudos epidemiológicos em larga escala. Eles registram os hábitos alimentares de um grande grupo de pessoas e quais doenças elas desenvolveram. Estes estudos nem sempre levam em consideração outros fatores, como a demografia, o ambiente e conscientização sobre alimentação. Mas o professor afirma que existem também testes clínicos que indicam que a fibra traz benefícios à saúde de muitas partes do corpo. Alguns estudos também sugerem que a alimentação com alto teor de fibra pode melhorar a saúde mental, segundo Whelan. Um microbioma saudável, alimentado com fibra pré-biótica que promove a saúde das bactérias do intestino, potencialmente, pode reduzir a ansiedade e o risco de depressão. “Existe uma comunicação em duas vias entre o nosso cérebro e o intestino, o eixo intestino-cérebro“, explica ele. Testes clínicos sugerem que certas fibras (as fibras pré-bióticas que alimentam a microbiota) podem ajudar a melhorar o humor. Uma descoberta surpreendente das pesquisas de Whelan foi que a fibra ajudou a melhorar a cognição em pessoas de mais de 60 anos. ‘Minha pele melhorou, tenho mais energia’ Vicky Owens conta que aumentar sua ingestão de fibra após um problema de saúde no ano passado trouxe enormes benefícios. Como empresária com pouco tempo para cozinhar, ela se alimentava principalmente com delivery e alimentos prontos. A jovem de 25 anos começou a ter sintomas sem motivo aparente, como ataques de pânico, problemas gástricos e olhos inchados e irritados. Seu médico ficou perplexo, segundo ela. Ela começou a reavaliar seu estilo de vida e, depois que um acupunturista sugeriu que ela alterasse sua alimentação, Owens percebeu que quase não comia fibras. Ela começou a cortar os alimentos ultraprocessados e dar preferência a frutas e verduras frescas, macarrão integral e

O mercado bilionário dos aplicativos que salvam a comida de ir para o lixo no Brasil e no mundo

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 07/01/2026 Em uma tarde na cidade de São Paulo, o publicitário Arthur Santana Domingues, de 23 anos, abre o aplicativo da Food To Save no celular, empolgado para comprar comida acessível para um lanche. Na tela, surge uma “sacola surpresa” de uma padaria próxima, com pães, bolos e salgados por menos da metade do preço. Arthur não pensa duas vezes antes de garantir a oferta. “É sempre uma experiência divertida, pela curiosidade do que vem dentro. Quando tem mais itens, eu sinto que o valor vale a pena”, conta o publicitário, que conhece a Food To Save desde 2022, após ver vídeos promocionais nas redes sociais. “Eu acho muito legal poder economizar e ainda ajudar o meio ambiente.” A brasileira Food To Save foi lançada em 2021e afirma ser a maior plataforma do tipo no país, conectando milhares de estabelecimentos a consumidores. O acesso ao aplicativo é gratuito, assim como a participação das empresas na plataforma. Quando um cliente compra uma sacola com preço definido pelo estabelecimento, uma parte do valor pago fica com a plataforma — em um modelo que se repete ao redor do mundo. Lucas Infante, CEO e cofundador da Food To Save, conta que a empresa surgiu de uma experiência própria: em 2017, durante uma temporada na Espanha, percebeu o tamanho do desperdício no mercado de uma grande rede. Hoje, a plataforma está presente em 14 Estados e 100 cidades brasileiras. Na outra ponta, estão empresas parceiras, como as redes varejistas Cacau Show, Supernosso, Angeloni e Hortifruti Natural da Terra. A St. Marche, rede paulistana de supermercados, participa da Food To Save desde agosto de 2024, quando iniciou um piloto em três lojas. Antes da parceria, produtos próximos da validade eram direcionados a ações internas de redução de perdas e, em alguns casos, descartados. “A plataforma nos foi apresentada como uma solução inovadora para reduzir desperdício de alimentos que fez muito sentido para o nosso modelo de operação”, explica Karina Bandeira, diretora de Vendas e Operações da St. Marche. Segundo ela, a decisão de aderir foi motivada por temas já importantes para a companhia, como o combate ao desperdício de alimentos e a redução de quebras (perda financeira causada por produtos que não podem mais ser vendidos por vencimento, deterioração, danos ou descarte), além de transformar os produtos próximos da validade em receita em vez de perdas. Até setembro de 2025, o St. Marche vendeu 84.284 sacolas-surpresa e evitou mais de R$ 2,7 milhões em quebras. As sacolas incluem itens de hortifruti, padaria, mercearia e produtos refrigerados. Em 2024, segundo um relatório próprio, a Food do Save evitou que mais de 4 mil toneladas de alimentos fossem parar no lixo e evitou a emissão de 10 mil toneladas de CO₂. Além disso, gerou R$ 30 milhões em receita adicional para parceiros e proporcionou R$ 110 milhões em economia aos consumidores — o equivalente ao plantio de 1,6 milhão de árvores ou ao fornecimento de energia para 5 mil casas durante um ano, segundo a própria plataforma. “Quando um alimento é perdido ou desperdiçado, não se perde apenas aquele quilo de comida — perde-se também a terra utilizada para cultivá-lo, a água usada, transporte, embalagem e trabalho humano envolvido”, explica Cláudio Goldberg, especialista em varejo e professor de Gestão e Planejamento Estratégico na Fundação Getúlio Vargas (FGV). De acordo com dados divulgados pela Food to Save, seu faturamento vem crescendo: R$ 30 milhões em 2023, R$ 70 milhões em 2024, e a projeção é de atingir R$ 160 milhões em 2025 (os valores são nominais, ou seja, não consideram a inflação do período). A plataforma brasileira é inspirada na dinamarquesa Too Good To Go, referência no setor e que tem mais de 100 milhões de usuários e 175 mil estabelecimentos parceiros em 19 países. Além disso, oferece a Too Good To Go Platform, um sistema corporativo que ajuda varejistas a gerenciarem excedentes antes do descarte. O sucesso do Too Good To Go inspirou iniciativas semelhantes ao redor do mundo, que buscam oferecer descontos em produtos próximos do vencimento ou fora do padrão estético. Os itens são entregues em kits “surpresa”, sem que os consumidores saibam exatamente quais produtos e em quais quantidades eles serão entregues. No Reino Unido, o Olio estimula a troca de alimentos entre vizinhos; na Suécia, o Karma conecta restaurantes e cafés; e, no Canadá e Estados Unidos, o Flashfood atua em supermercados, oferecendo descontos em produtos próximos do vencimento. Um estudo da consultoria Boston Consulting Group, em parceria com a ONG World Wide Fund for Nature, projeta que o mercado global de soluções para redução de perdas de alimentos pode movimentar até US$ 700 bilhões até 2030. O custo invisível de jogar comida fora Daniel Balaban, diretor do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos (WFP), diz à BBC News Brasil que o uso da tecnologia para evitar o desperdício de comida representa “um avanço real, ainda que inicial”. “Isso se traduz em redução de emissões, pois o lixo orgânico em aterros sanitários gera metano, um gás de efeito estufa muito mais potente que o CO₂”, explica, ressaltando que evitar o desperdício é uma forma direta de mitigar as mudanças climáticas. Outro efeito desse tipo de iniciativa é a mudança cultural que começa a ser semeada. “Esses apps ajudam a reduzir desperdício, mas também educam sobre validade, aproveitamento dos alimentos e o valor da comida.” Entretanto, um desafio que permanece, para ele, é o desperdício em outras fases da cadeia da produção de alimentos. “Os aplicativos atuam principalmente no varejo e no final da cadeia, não abordando em grande escala as perdas que ocorrem na produção, transporte e armazenamento. Para ampliar o impacto, eles podem se conectar a feiras, CEASAs [Centrais Estaduais de Abastecimento] e agricultores familiares, onde o desperdício também é muito alto.” Cláudio Goldberg aponta que esse tipo de iniciativa precisa de “fatores estruturais” para dar certo, como infraestrutura adequada — com armazenamento, transporte refrigerado e pontos de coleta — e integração tecnológica com o

Máquinas já ‘pensam’ como humanos? O que teste criado há 75 anos revela sobre era da inteligência artificial

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 09/01/2026 Podemos distinguir se estamos conversando com outro ser humano ou com uma inteligência artificial (IA)? Durante muito tempo, esta tem sido uma das perguntas feitas pelas pessoas ao avaliarem o quão inteligentes os computadores realmente são. Ela se origina do Teste de Turing, elaborado pelo matemático e cientista da computação inglês Alan Turing em 1950 — transformando, pela primeira vez, o pensamento filosófico sobre a inteligência das máquinas em um teste empírico. De acordo com o teste, se o comportamento de um computador fosse indistinguível do de um humano, então ele seria considerado como alguém que exibe um comportamento “inteligente”. Mas quando um chatbot de IA supostamente passou no teste pela primeira vez em 2014, em vez de ser um momento decisivo, isso alimentou uma controvérsia. Um jogo de imitação O Teste de Turing é um jogo de imitação onde uma pessoa conversa, via texto, tanto com outro ser humano quanto com um computador. Elas podem fazer as perguntas que desejarem antes de terem que decidir qual é o humano e qual é a máquina. “Turing afirmou que, se as pessoas não conseguissem distinguir de forma confiável entre humanos e máquinas, então não teríamos base para dizer que o humano podia pensar, mas a máquina não”, diz Cameron Jones, professor assistente de psicologia na Universidade Stony Brook, em Nova York (EUA). Turing previu que, até o ano 2000, os computadores seriam capazes de se passar por humanos após cinco minutos de questionamento, em pelo menos 30% das vezes. ‘Sem jogar de forma justa’ Em 2014, um chatbot de IA chamado Eugene Goostman convenceu 33% dos juízes de que era humano no Teste de Turing — ultrapassando o limite estabelecido pelos organizadores da competição. Comunicando-se em inglês, ele adotou a personalidade de um menino ucraniano de 13 anos. Markus Pantsar, filósofo e palestrante convidado na Universidade RWTH Aachen, na Alemanha, diz que isso significava que ele não estava “jogando o jogo de forma justa”. “As deficiências do chatbot meio que se ajustavam às deficiências no domínio da língua inglesa de um adolescente ucraniano”, argumenta ele. Desde então, ferramentas mais avançadas teriam passado no Teste de Turing. Em um artigo publicado no início de 2025, Jones descobriu que o ChatGPT 4.5 da OpenAI foi julgado como humano em 73% das vezes — com mais frequência do que o seu homólogo humano. O Llama 3.1 da Meta foi julgado como humano em 56% das vezes. “Acho difícil argumentar que os modelos não passaram no teste, dado que são julgados como humanos significativamente mais vezes do que as pessoas”, diz ele. Mas alguns permanecem céticos sobre se isso prova que os computadores realmente podem pensar. O argumento do quarto chinês Em 1980, o filósofo John Searle propôs um experimento mental chamado “o argumento do quarto chinês”. Ele funciona assim: um homem inglês que não entende chinês é trancado em um quarto com alguns caracteres chineses e instruções em inglês sobre como usá-los. Pessoas fora do quarto passam bilhetes para ele com perguntas escritas em chinês, e ele usa as instruções para formular respostas, também em chinês. Para quem está de fora, pareceria que o homem sabe falar chinês, mas ele não entende verdadeiramente o que está dizendo. Alguns argumentam que o mesmo poderia ser dito sobre os computadores, que são meramente programados para dar respostas apropriadas. “Embora o Teste de Turing afirme identificar inteligência, ele tenta principalmente identificar se uma máquina consegue imitar humanos bem o suficiente”, diz George Mappouras, um engenheiro de software baseado na Califórnia, que criou sua própria alternativa ao Teste de Turing. Ele dá um exemplo para ilustrar isso. “Você pode abrir qualquer bot de IA e pedir primeiro que ele explique como funciona um relógio analógico, e ele explicará com precisão”, diz ele. Mas se você pedir para ele gerar a imagem de um relógio marcando uma hora específica, os modelos de IA atuais provavelmente falharão. “Ele não entende realmente a informação”, afirma. Outros, como Pantsar, pensam que o Teste de Turing coloca ênfase demais na capacidade do computador de enganar o juiz. “O comportamento inteligente real pode incluir enganar, mas, fundamentalmente, essa não é a parte principal”, argumenta ele. Testes alternativos Pantsar criou o Teste de Inteligência Baseado em Comunidade (CBIT) — uma das muitas alternativas propostas ao longo dos anos. Ao contrário do Teste de Turing, realizado em laboratório, no cenário dele um sistema de IA é colocado dentro de uma comunidade existente — por exemplo, uma comunidade online de matemáticos — sem o conhecimento deles. Depois de algum tempo, os membros são testados para verificar se perceberam que se tratava de uma máquina ou não. Ainda há algum nível de decepção, mas Pantsar acredita que a maior parte do teste envolveria o sistema “comportando-se de maneira humana”, e não “personificando” humanos — o que ele afirma ser uma distinção importante. “A inteligência deve ser avaliada em circunstâncias naturais — o tipo de ambiente em que realmente interagimos”, argumenta o filósofo. Ele diz que seu teste também incentiva os desenvolvedores a focarem em se um sistema de IA é útil ao criá-lo, em vez de se ele passaria ou não em um teste de enganação. Mappouras, por outro lado, elaborou um teste que, segundo ele, analisa uma medida de inteligência mais concreta. Ele acredita que a inteligência artificial geral — um conceito teórico onde uma máquina tem a mesma capacidade intelectual que um humano — seria alcançada se uma máquina pudesse “propor algum novo conhecimento científico e explicá-lo”, desde que ela já conheça toda a informação necessária. Apesar das críticas, alguns acreditam que o Teste de Turing ainda tem um lugar na pesquisa moderna de IA. Jones diz que o fato de ele ser aberto e as perguntas não serem claramente definidas permite testar “algum tipo de inteligência dinâmica e flexível”. “Se substituirmos isso por apenas outro parâmetro estático, acho que estaremos interpretando mal o que Turing pretendia”, afirma. ‘Uma batalha perdida’ Independentemente do teste utilizado, Pantsar acredita que, à medida que os sistemas de

Como inteligência artificial está ressuscitando estrelas de cinema

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 27/08/2023 A maioria dos atores sonha em construir uma carreira que sobreviva mesmo após a morte. Poucos conseguem – o show business pode ser um lugar difícil para obter sucesso. Mas aqueles que conquistam seu objetivo podem alcançar uma espécie de imortalidade nas telas e além delas. Um dos ícones que conseguiu o feito é o ator de cinema americano James Dean, que morreu em 1955 em um acidente de carro depois de estrelar apenas três filmes, todos muito aclamados. No entanto, agora, quase sete décadas depois de sua morte, Dean foi escalado como estrela de um novo filme chamado Back to Eden (De volta ao Éden, em tradução livre). Um clone digital do ator – criado com tecnologia de inteligência artificial semelhante à usada para gerar deepfakes – caminhará, falará e interagirá na tela com outros atores do filme. A tecnologia está na vanguarda das imagens geradas por computador (CGI) de Hollywood. Mas também é fonte de preocupação para atores e roteiristas que entraram em greve em Hollywood pela primeira vez em 43 anos. Eles temem ser substituídos por algoritmos de IA – algo que eles argumentam que sacrificará a criatividade em prol do lucro. A atriz Susan Sarandon está entre aqueles que falaram sobre suas preocupações publicamente, alertando que a IA poderia fazê-la “dizer e fazer coisas sobre as quais não tenho escolha”. A ressurreição digital de Dean não é o primeiro episódio em que atores falecidos aparentemente voltaram à vida na tela com a ajuda de tecnologia digital avançada e uma pitada da magia de Hollywood. Carrie Fisher, Harold Ramis e Paul Walker são apenas algumas das celebridades notáveis ​​que reprisaram papéis icônicos no cinema postumamente. A cantora brasileira Elis Regina também ressuscitou recentemente para um anúncio da Volkswagen, no qual apareceu fazendo dueto com a filha Maria Rita. Essas aparições na tela representam o que Travis Cloyd, executivo-chefe da agência de mídia imersiva WorldwideXR (WXR), chama de representações de “tela plana passiva, 2D”, semelhantes a deepfakes. Esta é a segunda vez que o clone digital de Dean é escalado para um filme. Em 2019, foi anunciado que ele seria ressuscitado em CGI para um filme chamado Finding Jack (À Procura de Jack, em português), que foi posteriormente cancelado. Cloyd confirmou à BBC, no entanto, que Dean estrelará Back to Eden, um filme de ficção científica em que “uma visita fora deste mundo para encontrar a verdade leva a uma viagem pela América com a lenda James Dean”. A clonagem digital de Dean também representa uma mudança significativa no que é possível. Seu avatar de IA não apenas poderá desempenhar um papel de tela plana em Back to Eden e em uma série de filmes subsequentes, mas também interagir com o público em plataformas interativas, incluindo realidade aumentada, realidade virtual e jogos. A tecnologia vai muito além da reconstrução digital passiva ou da tecnologia deepfake que sobrepõe o rosto de uma pessoa ao corpo de outra. Levanta a perspectiva de os atores – ou qualquer outra pessoa – alcançarem uma espécie de imortalidade que de outra forma teria sido impossível, com carreiras que continuam muito depois de as suas vidas terem terminado. Mas ela também traz à tona alguns pontos controversos. Quem detém os direitos sobre o rosto, a voz e a personalidade de alguém após sua morte? Que controle eles podem ter sobre a direção de sua carreira após a morte – um ator que fez seu nome estrelando dramas corajosos poderia de repente aparecer em uma comédia boba ou mesmo em pornografia? E a imagem pode ser usada para anúncios? E indo ainda além, por que não deixar as celebridades descansarem em paz? O primo de Dean, Marc Winslow, que passou a infância em uma fazenda em Illinois com o ator, a quem ele carinhosamente chama de Jimmy, afirma que é o inegável apelo de seu primo, que transcende gerações, que o tornam uma escolha atraente para um papel grande no cinema moderno. “Se há duas ou três pessoas em uma cena, seus olhos vão direto para ele”, diz ele. “Sabe, não acho que alguém será capaz de substituí-los, mas é possível que eles consigam fazer isso na tela e tornar muito realista.” Clones digitais A imagem de Dean é uma das centenas representadas pela WRX e sua empresa parceira CMG Worldwide – incluindo Amelia Earhart, Bettie Page, Malcolm X e Rosa Parks. Quando Dean morreu, há 68 anos, ele deixou para trás uma coleção robusta de sua imagem em filmes, fotografias e áudio – o que Cloyd do WRX chama de “material de origem”. Cloyd diz que para obter uma representação realista de Dean, inúmeras imagens são digitalizadas, sintonizadas em alta resolução e processadas por uma equipe de especialistas digitais utilizando tecnologias avançadas. Adicione áudio, vídeo e IA e, de repente, esses materiais se tornam os blocos de construção de um clone digital que parece, soa, se move e até responde a comandos como Dean. O que Dean não deixou para trás foi uma pegada digital, ao contrário das celebridades de hoje que se envolvem nas redes sociais, tiram selfies privadas, enviam textos e e-mails, utilizam motores de busca, fazem compras online e compram receitas médicas online. Essas atividades fornecem enormes quantidades de dados sobre como pensamos e agimos que poderiam ser potencialmente utilizados para transformar um clone digital superficial em um inteligente que pode conversar de forma convincente com os vivos. Agora existem até empresas que permitem aos usuários fazer upload de dados digitais de entes queridos falecidos para criar “deadbots” que conversam com os vivos do mundo da morte. Quanto mais material de origem, mais preciso e inteligente será o deadbot, o que significa que os herdeiros das celebridades modernas podem potencialmente permitir que clones convincentes e realistas de seus parentes falecidos continuem trabalhando na indústria cinematográfica – e interagindo de forma quase autônoma – para sempre. Prevendo uma realidade assim para seu futuro, o ator Tom Hanks falou sobre o tema recentemente em um podcast, chamado Adam Buxton Podcast. “Eu poderia ser atropelado por um ônibus amanhã e pronto, mas minhas performances

Nem 21 °C, nem 24 °C: a temperatura ideal do ar-condicionado para gastar menos luz

Fonte: TudoGostoso | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 04/01/2026 Ajustar o termostato corretamente pode representar uma economia significativa ao final do mês. Com a chegada do verão, o ar-condicionado deixa de ser luxo e passa a ser item de sobrevivência em muitas casas. O problema é que, junto com o alívio do calor, vem o susto na conta de luz. Muita gente acredita que programar o aparelho em 21 °C ou 22 °C é a melhor forma de resfriar o ambiente mais rápido, enquanto outros apostam nos “clássicos” 24 °C como solução equilibrada. Mas especialistas em eficiência energética alertam: nenhuma dessas temperaturas é a mais econômica. A faixa que equilibra conforto e economia De acordo com análises de eficiência energética e orientações de técnicos em climatização, a temperatura mais indicada para economizar energia no ar-condicionado fica entre 25 °C e 26 °C. Essa faixa é suficiente para reduzir a sensação de calor na maioria dos ambientes residenciais e, ao mesmo tempo, diminuir o esforço do compressor. O motivo é simples: quanto maior a diferença entre a temperatura externa e a temperatura programada no aparelho, maior será o consumo de eletricidade. Em dias de calor intenso, com termômetros acima dos 35 °C, ajustar o ar para valores muito baixos exige funcionamento contínuo e prolongado, o que pesa diretamente na conta de luz. Por que 21 °C ou 22 °C fazem o gasto disparar Programar o ar-condicionado em temperaturas muito baixas não significa resfriar o ambiente mais rápido. Na prática, o equipamento trabalha no limite por mais tempo, tentando alcançar um valor que muitas vezes é desnecessário para o conforto humano. Além do maior consumo, esse uso contínuo acelera o desgaste do compressor e reduz a vida útil do aparelho. Mesmo os 24 °C, que parecem uma escolha intermediária, ainda exigem mais esforço do sistema do que a faixa recomendada, sobretudo em casas com pouca ventilação natural ou grande incidência de sol. Outro ponto importante é que o corpo humano não precisa de ambientes excessivamente frios para se sentir confortável. Muitas vezes, a sensação de abafamento está mais ligada à umidade do ar do que à temperatura em si. Umidade, ventilação e tipo de equipamento fazem diferença Em regiões mais úmidas, baixar demais a temperatura não resolve o desconforto. Nesses casos, especialistas recomendam utilizar o modo Dry (desumidificação), que reduz a umidade do ambiente sem resfriar excessivamente o espaço, melhorando a sensação térmica com menor gasto energético. Outra estratégia eficiente é combinar o ar-condicionado ajustado entre 25 °C e 26 °C com ventiladores de teto ou de coluna. O movimento do ar potencializa a sensação de frescor e permite manter o termostato em temperaturas mais altas sem perda de conforto. O tipo de aparelho também influencia. Equipamentos com tecnologia Inverter são mais eficientes quando mantêm uma temperatura estável, pois ajustam a potência gradualmente.  Hábitos simples que reduzem o consumo Além de ajustar corretamente a temperatura, algumas práticas fazem diferença real no gasto mensal de energia. Entre as principais recomendações dos especialistas estão: Essas medidas, quando aplicadas em conjunto, podem reduzir o consumo do ar-condicionado em 20% a 30% ao longo do verão, segundo estimativas de técnicos do setor energético. Conforto térmico não é gelar ao máximo Um erro comum é associar conforto a temperaturas muito baixas. Na realidade, o corpo se adapta melhor a ambientes levemente frescos, especialmente quando há circulação de ar e controle da umidade.  Outro ponto relevante é a regularidade. Ligar e desligar o ar constantemente ou mudar o termostato o tempo todo gera picos de consumo. O ideal é escolher a faixa correta e manter o aparelho funcionando de forma contínua e moderada.

Como a fome interfere no humor, segundo pesquisadores

Fonte: Correio Braziliense | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 28/12/2025 Estudo fornece evidências da importância da percepção consciente dos estados corporais internos na regulação das emoções. Quando estamos com fome, costumamos ficar mal-humorados. Um novo estudo do Hospital Universitário de Bonn, da Universidade de Bonn e do Centro Hospitalar Universitário de Tübingen mostra que a relação entre fome e humor não é causada por processos metabólicos inconscientes. Os pesquisadores alemães examinaram como os níveis de glicose, a sensação de fome e o humor se influenciam mutuamente em 90 adultos saudáveis ao longo de um período de quatro semanas. “Quando os níveis de glicose caem, o humor também piora. Mas esse efeito só ocorre porque as pessoas sentem mais fome. Em outras palavras, não é o nível de glicose em si que influencia o humor, mas sim a intensidade com que percebemos conscientemente essa falta de energia”, explica Kristin Kaduk, pesquisadora de pós-doutorado no Hospital Universitário de Psiquiatria e Psicoterapia de Tübingen. O estudo fornece evidências da importância da interocepção — a percepção consciente dos estados corporais internos — na regulação das emoções. Segundo os pesquisadores, sentir conscientemente o próprio corpo pode funcionar como uma espécie de amortecedor para o humor. “Uma boa percepção dos sinais do próprio corpo parece ajudar a manter a estabilidade emocional – mesmo quando os níveis de energia oscilam”, frisa o professor Nils Kroemer, que trabalha em Tübingen no Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia do Hospital Universitário. Além dessas observações, os pesquisadores consideram as evidências apontadas no estudo como uma base importante para futuras pesquisas em pacientes com distúrbios metabólicos ou mentais. “Uma melhor compreensão de como a percepção corporal e o humor estão relacionados pode ajudar a aprimorar as abordagens terapêuticas a longo prazo – por exemplo, por meio de treinamento direcionado da interocepção ou estimulação não invasiva do nervo vago, que conecta os órgãos ao cérebro e influencia a interocepção.”, cita Nils Kroemer. O estudo foi publicado na revista eBioMedicine no início deste mês.