Neto de Joan Miró revela o homem por trás do “mestre das formas”

Fonte: CNN Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/canva| Data: 08/08/2026

Com a exposição “Miró: Mestre das Formas” em cartaz em São Paulo, Joan Punyet Miró compartilha memórias ao lado do avô e revela facetas pouco conhecidas do artista catalão.

O que a arte de Joan Miró e o Brasil têm em comum? Além de ganhar uma ampla mostra com mais de 100 obras, algumas inéditas no país, no MAB FAAP (Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Alvares Penteado) até 12 de outubro, o artista catalão já ilustrou um livro do poeta João Cabral de Melo Neto e se inspirava em elementos que o Brasil tem de sobra, como a reunião de diversas culturas e a força expressiva das artes primitiva e tribal.

Quem afere isso é Joan Punyet Miró, que carrega o nome e o sobrenome do avô. Artista e curador, ele é um dos netos do “mestre das formas” e um dos principais divulgadores do legado de Miró no mundo da arte.

“Falar do meu avô é falar de como trabalhar uma linguagem universal. Entre suas inspirações, ele buscava a força expressiva da poesia, do surrealismo, da arte primitiva e da música. Buscava ser um cidadão universal”, disse Punyet em conversa com jornalistas e convidados no Rosewood São Paulo, após desembarcar em solo nacional para a abertura de “Miró: Mestre das Formas”, no MAB FAAP.

Para Punyet, o Brasil é um exemplo perfeito do universo de Miró. A convivência entre diferentes culturas e a riqueza das expressões artísticas ancestrais aproximam o país do primitivismo expressivo e de uma criação que não passa pelo controle rígido da razão, o chamado automatismo cromático, que marcaram a produção do catalão.

O Miró que poucos conheciam

Em consonância com a abertura da mostra, Punyet trouxe a São Paulo algumas memórias do avô. Uma das lembranças mais poderosas é, também, bastante quieta: Miró gostava de andar com o neto de mãos dadas em silêncio na natureza.

Diz ele que também era muito metódico no dia a dia. Tirava uma “siesta” após o almoço, com o dia de trabalho permeado de poesia e música. Todos os dias.

“Ele também trabalhava o gesto. Tinha muitas canetas e papéis espalhados na casa. Ele dizia que um boxeador deveria trabalhar os músculos, então, ele deveria trabalhar a alma. Era um exercício de liberar mão do intelectualismo e buscar a introspecção”.

Para nutrir a criatividade, o neto conta que Miró se cercava de artistas mais jovens, alargando as trocas além da pintura na presença de literatos, poetas e músicos. “E qual seria o conselho para jovens artistas de hoje num momento em que estamos inundados de imagens?”, perguntou o artista colombiano Leo Macias no encontro com jornalistas.

“Para começar, o conselho do meu avô seria viajar longe de casa. Depois, fazer um detox de telas e dispositivos eletrônicos, pelo menos uma vez na semana, e passear pela natureza, com os pés descalços”

Linguagem universal: entendendo Miró

Quando pequeno, Joan Punyet Miró começou a entender a força das cores por meio das obras do avô. Ele lembra especificamente de um quadro verde com um sol vermelho, que o impactou muito na infância.

Buscar o movimento fortuito e livre junto com a força expressiva da cor são definições que se encaixam bem na obra do catalão.

“Por isso ele fala com crianças do mundo todo. É universal. Para expressar essa maneira de trabalhar, deve haver depuração. Limpar a parte tóxica e se afastar do trabalho mais intelectual. Liberar a arte primitiva e desovar o coração”.

Para o neto, essa busca pela expressão artística passa pela arte rupestre e pelas manifestações ancestrais de povos incas, maias e astecas, estabelecendo também um paralelo com as tradições indígenas da Amazônia.

Nas palavras de Punyet, entender Miró é entender a seguinte combinação: a magia surrealista da França; o arcabouço psicanalítico de Freud, mais notadamente com a leitura de “A Interpretação dos Sonhos”; o automatismo poético, para “liberar a alma da razão”; o automatismo dos japoneses budistas e de Jackson Pollock; e, por fim, até mesmo a música flamenca.

Antes de Miró ser Miró, foi Francesc Galí, professor de Belas Artes em Barcelona, que despertou a instrospecção do artista.

Segundo Punyet, o começo foi mais ou menos assim: propôs que Miró trabalhasse de olhos fechados, pintando sem olhar para o que estava ao redor, recorrendo às cores primárias como ponto de partida. A ideia era deixar de lado a realidade exterior para voltar o olhar para dentro de si.

No Met (Metropolitan Museum of Art), em Nova York, está uma das obras que mais sintetiza Joan Miró, “Esta é a cor dos meus sonhos“, de 1925. É uma tela quase inteiramente branca que traz apenas uma mancha azul, feita em um gesto automático, que acompanha a frase em francês: “Ceci est la couleur de mes rêves”.

Para Joan Punyet Miró, trata-se de uma das pinturas surrealistas mais importantes do mundo, já que também representa um desafio direto à fotografia, então associada à capacidade da tecnologia de registrar e congelar um instante. Em vez de reproduzir aquilo que está diante dos olhos, Miró propõe o contrário: voltar-se para dentro.

O caminho até a consagração

O tema central que rege a nova mostra, que tem curadoria do espanhol Jordi J. Clavero,é a liberdade criativa de Miró, descascando suas facetas além da pintura, que incluem escultura e tapeçaria. “Eu tinha muitos brinquedos que desapareciam, como bonecos e bolas. 50 anos depois, notei que todos estavam em diferentes esculturas”, comentou Punyet.

Na FAAP, estão à mostra cerca de 10 toneladas de tapeçarias, como lembrou Roberto Souza Leão, CEO do Instituto Totex, realizador da exposição.

“Creio que Miró foi capaz de criar tudo o que desejou. Ele sempre falava de deixar um legado para a criança do amanhã. Esse foi o grande enigma do meu avô, de não ver o impacto que hoje sua obra tem em todo o universo”, relembrou Punyet.

Mais de 40 anos se passaram desde a morte do artista catalão, mas sua assinatura visual continua reconhecida quase que instantaneamente. O começo da carreira, porém, parecia trilhar o caminho contrário. “Era um fracasso total. Os críticos riam. As matérias na imprensa eram muito negativas”, recordou o neto. Fazem parte dessa “chacota” inicial uma exposição em Barcelona em 1918 e uma exposição em Paris em 1921.

Foi em 1925 que veio o lampejo. Uma mostra na Cidade Luz despertou interesse de colecionadores. Miró também chamou a atenção de André Breton e, dali em diante, se tornou uma figura importante do surrealismo. Nos anos 1920, em Paris, transformou seu ateliê em um polo de experimentação artística e literária, explorando a criação espontânea e, depois, novos materiais e técnicas, como colagens, esculturas e objetos.

Em 1930, o êxito a nível internacional veio em Nova York, com a primeira exposição individual nos Estados Unidos, que contou com a ajuda de Pierre Matisse, filho mais novo do pintor francês Henri Matisse. O resto da história, todos sabemos.