Fonte: CNN Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/pexels | Data: 01/09/2026
Da Liberdade ao Bom Retiro, dos mercados e feiras aos balcões de omakase e às cozinhas premiadas, a imigração asiática mudou não apenas o que São Paulo come, mas também a maneira como a cidade entende, celebra e incorpora outras culturas.
Há clichês que sobrevivem porque fazem sentido. Dizer que São Paulo é uma cidade onde se pode viajar sem entrar em um avião é um deles.
Basta caminhar algumas quadras para mudar de idioma, de paisagem e de repertório à mesa. Na Liberdade, lanternas, templos, mercados e restaurantes contam uma história japonesa que começou oficialmente em 1908, mas que há décadas divide espaço com chineses, taiwaneses e outras comunidades asiáticas. No Bom Retiro, letreiros em coreano convivem com o comércio de roupas que transformou o bairro e com restaurantes onde a carne chega à mesa para ser grelhada na hora. Mais adiante, cozinhas tailandesa, indiana, nepalesa e vietnamita ganharam seus próprios endereços. E, quando se olha para a Ásia Ocidental, a presença de libaneses, sírios, palestinos e outras comunidades ajuda a explicar por que esfiha, quibe, hommus e pão sírio deixaram há muito de ser comida de imigrante para se tornarem parte da dieta paulistana.
São Paulo recebeu imigrantes, pessoas que não trouxeram apenas receitas na mala. Com elas vieram ingredientes, técnicas, religiões, festas, mercados, maneiras de comer, negócios familiares, associações, escolas, templos e memórias.
A história da imigração asiática na cidade pode ser lida nos museus e nas instituições que preservam essas memórias, mas também nas feiras de rua, nos balcões apertados, nas grelhas acesas, nas padarias, nos mercados de ingredientes importados e nas mesas de restaurantes que hoje recebem gente que, muitas vezes, não tem nenhuma relação familiar com aquela cultura.
Uma cidade feita de chegadas
A imigração japonesa, marco fundamental dessa história, começou oficialmente em 18 de junho de 1908, quando o Kasato Maru chegou ao porto de Santos, trazendo centenas de imigrantes. Muitos seguiram para o interior do estado para trabalhar nas lavouras de café. Outros, ao longo das décadas, chegaram à capital e ajudaram a construir uma das maiores comunidades japonesas fora do Japão.
A Liberdade tornou-se o símbolo dessa presença, mas a história do bairro é mais complexa do que seus atuais portais vermelhos e lanternas. A região foi se transformando à medida que novas comunidades chegaram. Chineses e coreanos também passaram a ocupar o território, abrir negócios e criar redes próprias. O que antes era reconhecido sobretudo como um pedaço japonês da cidade tornou-se, aos poucos, uma espécie de porta de entrada para diferentes Ásias.
Nas prateleiras dos mercados aparecem algas, missô, shoyu, saquê, noodles, cogumelos, chás, temperos e produtos que, há algumas décadas, seriam desconhecidos da maioria dos paulistanos. Na Feira da Liberdade, aos fins de semana, há tempurás, guiozas, takoyaki, yakisoba, doces e outras preparações que convivem com barracas e ingredientes de diferentes tradições asiáticas. A feira virou atração turística e é uma excelente oportunidade para provar um pouco de muito e conferir de perto um pouco dessa rica cultura.
Na Liberdade, essa incorporação aconteceu em muitas camadas. Há o Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, que guarda documentos, objetos e histórias de quem atravessou o oceano; o Bunkyo, uma das principais instituições da comunidade; templos e associações que mantêm tradições; e a Japan House, já na Avenida Paulista, que mostra como o Japão contemporâneo pode dialogar com arte, design, gastronomia e inovação muito além da imagem tradicional do país.
E há as festas. O Tanabata Matsuri, realizado em julho, transforma a Liberdade em palco para uma das mais antigas tradições japonesas celebradas em São Paulo, com música, dança, taiko, artes marciais e comida. O Festival do Japão, por sua vez, cresceu de uma celebração comunitária para um dos maiores encontros da cultura japonesa fora do Japão. Criado em 1998, reúne representantes das 47 províncias japonesas e coloca a gastronomia no centro da experiência. Em 2025, recebeu cerca de 187 mil pessoas. Em 2026, voltou a ocupar o São Paulo Expo com dezenas de espaços gastronômicos e uma programação que mistura tradição, cultura pop, memória e novas gerações.
Quando o sushi conquistou o brasileiro
A transformação da comida japonesa talvez seja o exemplo mais evidente de como uma cozinha de imigração pode mudar de status. Primeiro vieram os restaurantes voltados para a própria comunidade. Depois, o sushi começou a conquistar os paulistanos. Vieram os rodízios, o temaki, o yakisoba, o lamen, os izakayas. A comida japonesa deixou de ser uma experiência exótica para se tornar uma das escolhas mais corriqueiras da cidade.
Hoje, São Paulo consegue oferecer praticamente todas as versões possíveis dessa cozinha. Há o rodízio, popularizado por casas como o Aoyama, que em 2026 foi eleito pela 12ª vez consecutiva o restaurante japonês preferido dos paulistanos em pesquisa Datafolha e já soma inúmeras unidades na capital. Há os izakayas e casas de lámen, como Hirá Ramen Izakaya, JoJo Ramen e Lamen Kazu. Há restaurantes contemporâneos, como o Kinoshita, que carrega em sua própria história a trajetória do falecido Toshio Kinoshita, imigrante japonês que fundou a casa original na Liberdade no fim dos anos 1970.
E há o outro extremo: o balcão de poucas cadeiras, o silêncio, a precisão do corte e o omakase. Ryo, Jun Sakamoto, Kuro, Oizumi Sushi e Kanoe são apenas alguns dos nomes que mostram como a cozinha japonesa alcançou o mais alto nível da gastronomia paulistana, inclusive com estrelas Michelin e presença constante em premiações nacionais e internacionais.
É curioso pensar que a mesma cidade que transformou o temaki em comida rápida, presente, por exemplo, no famoso e sempre abarrotado de gente Yaki, em um posto de gasolina no Paraíso, também criou uma das cenas de omakase mais sofisticadas do continente. O bom de São Paulo é que tem espaço e público para tudo.
No Bom Retiro, a Coreia ganhou endereço
Se a Liberdade é o grande símbolo da presença japonesa, o Bom Retiro é onde a história coreana ganhou uma de suas expressões mais fortes.
A chegada dos sul-coreanos ao Brasil começou na década de 1960 e, com o tempo, o bairro se transformou em um importante centro comercial e cultural da comunidade. Hoje, cerca de 90% da população sul-coreana do Brasil vive em São Paulo. A presença coreana aparece nas lojas, mercados, igrejas, cafés, salões, escolas e, de maneira especialmente saborosa, nos restaurantes.
Ali, a experiência pode começar pelo Cho Sun Gal Bi, onde o churrasco coreano coloca a grelha no centro da mesa. A carne chega para ser preparada diante do cliente, acompanhada pelos pequenos pratos de banchan que fazem parte da refeição coreana. É uma experiência que guarda algo da cozinha familiar e comunitária, mas que há muito já conquistou paulistanos de todos os cantos da cidade.
Há também casas como Dare, Seok Joung e Bicol, entre outras, onde aparecem bibimbap, japchae, bulgogi, tteokbokki e outras preparações que ajudam a entender a amplitude dessa cozinha. O Komah, na Barra Funda, foi um dos grandes nomes que ajudou a colocar a comida coreana no mapa da gastronomia contemporânea paulistana. O restaurante trabalha com receitas tradicionais, ingredientes e técnicas coreanas, mas fala também com um público que talvez nunca tivesse entrado em um restaurante coreano. O resultado é uma ponte: a tradição permanece reconhecível, mas a experiência ganha outra escala.
Em 2026, outro movimento chamou atenção: Paulo Shin, ex-Komah, voltou à cena paulistana com o Lavva, em plena Cidade Matarazzo. É difícil imaginar um contraste mais simbólico. A cozinha que criou raízes em restaurantes familiares do Bom Retiro agora ocupa um dos complexos mais sofisticados da cidade. No Lavva, o churrasco coreano ganha uma leitura contemporânea, com a grelha no centro da experiência e os acompanhamentos coreanos preservados. A cultura e a gastronomia, mais uma vez, mudaram de endereço sem perder suas raízes.
O calendário coreano também ganhou escala. O Festival da Cultura Coreana chegou à sua 19ª edição em 2026, no Bom Retiro, com gastronomia, K-pop, música tradicional, taekwondo, caligrafia, artesanato e outras manifestações. A feira gastronômica montada na Praça Coronel Fernando Prestes colocou pratos como bibimbap, japchae e tteokbokki nas ruas; paralelamente, o Bomre-Dong apresentou literatura, moda, artesanato e informações sobre a Coreia.
Até o cinema ajuda a explicar essa expansão. Em 2026, o Korean Film Festival levou 104 filmes a diferentes cidades brasileiras e, em São Paulo, incluiu programação gastronômica coreana. O K-food já não precisa de uma comunidade coreana para encontrar público. Assim como aconteceu com o sushi, ele encontrou uma cidade pronta para recebê-lo.
A Ásia que ganhou novas vozes
Durante muito tempo, tudo que vinha do Extremo Oriente acabava reunido em uma categoria genérica: “comida chinesa” ou “comida oriental”. Aos poucos, São Paulo passou a distinguir regiões, ingredientes e culturas.
O Aiô, na Vila Mariana, é um bom exemplo. A casa parte da culinária taiwanesa e das memórias de seus chefs Caio Yokota, Victor Valadão e Duílio Lin para construir uma cozinha contemporânea. Taiwan deixa de ser apenas uma referência geográfica e ganha identidade própria à mesa.
É uma mudança importante porque mostra que a imigração também produz novas perguntas. Quem define o que é uma cozinha? O país de origem? A memória de uma família? A técnica? O ingrediente? Ou o lugar onde aquela comida passa a existir? Em São Paulo, muitas vezes, é tudo isso ao mesmo tempo.
A cozinha tailandesa seguiu outro caminho. Não criou um bairro de referência como a Liberdade ou o Bom Retiro, mas encontrou chefs capazes de construir pontes. Maurício Santi, do Ping Yang, viveu na Tailândia e trouxe para São Paulo uma cozinha que vai muito além do pad thai conhecido pelo público internacional. Há curry, ervas, fermentados, pimentas, técnicas e uma preocupação em reproduzir a lógica de sabores da Tailândia. Em 2026, o restaurante recebeu um Bib Gourmand do Guia Michelin, reconhecimento que ajuda a mostrar o espaço conquistado por uma cozinha que, ainda há poucas décadas, era muito menos familiar aos paulistanos.
E há ainda as muitas outras Ásias que passaram a fazer parte desse mapa: os restaurantes indianos, os momos nepaleses, as cozinhas vietnamitas, as casas chinesas que trabalham diferentes tradições regionais. Existe, porém, um momento ainda mais interessante nessa história: quando a referência asiática deixa de estar necessariamente ligada a um restaurante de determinada comunidade e passa a integrar a linguagem de chefs brasileiros.
É quando a influência asiática deixa de ser apenas herança de imigração e passa a funcionar como linguagem criativa que entra em cena, por exemplo, Thiago Bañares. À frente do Tan Tan e do Kotori, o chef construiu uma gastronomia que parte de referências japonesas e asiáticas, mas ganha sotaque inequivocamente paulistano. O Tan Tan transformou a conexão entre comida e coquetelaria em uma de suas marcas e chegou ao 24º lugar entre os melhores bares do mundo em 2025.
No Kotori, Bañares levou esse olhar para a comida. A casa, que nasceu como um pequeno bar de yakitori em Pinheiros, ampliou sua proposta e passou a trabalhar também com a yōshoku, vertente da cozinha japonesa marcada pelo encontro com influências ocidentais. O restaurante estreou no Latin America’s 50 Best Restaurants em 2024 e permaneceu entre os 100 melhores da região em 2025. Mais do que prêmios, a trajetória das duas casas revela uma mudança importante: a Ásia já não aparece apenas como uma cozinha a ser preservada ou reproduzida, mas como repertório para uma nova geração de chefs criar uma gastronomia que é, ao mesmo tempo, asiática, brasileira e profundamente paulistana.
A influência asiática também ajuda a explicar por que a gastronomia paulistana é tão difícil de definir. Ela não nasceu de uma única tradição. Foi construída por sucessivas camadas de gente, comércio e comida. O que chegou como cozinha de uma comunidade tornou-se restaurante de bairro. O restaurante de bairro virou destino gastronômico. O prato de domingo virou comida de rua. A comida de rua virou tendência. A tendência chegou aos grandes restaurantes. E, em algum momento, ninguém mais sabia dizer exatamente quando aquela comida tinha deixado de ser estrangeira.
Hoje, um paulistano pode passar pela Liberdade para comer na feira, comprar missô e shoyu em um mercado, almoçar um churrasco coreano no Bom Retiro, descobrir um restaurante taiwanês na Vila Mariana e terminar o dia diante de um balcão estrelado de omakase.
O sushi já é paulistano. O lamen também. O churrasco coreano encontrou seu público. O bibimbap deixou de ser uma palavra desconhecida. O matcha aparece em cafés e sobremesas. O shoyu está na geladeira de milhões de casas. A esfiha e o quibe fazem parte da rotina de uma cidade inteira. E, ao lado deles, continuam existindo restaurantes, mercados, templos, associações, museus e festas que preservam as histórias de onde tudo começou.
São Paulo não apagou as origens dessas cozinhas ao incorporá-las. Ao contrário: quanto mais a cidade as adotou, mais espaço elas ganharam para contar de onde vieram.






