Robôs cuidadores e roupas com GPS: as apostas do Japão contra crise de demência entre idosos

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet / Design por Freepik | Data: 08/12/2025 Em 2024, mais de 18 mil idosos com demência deixaram suas casas e desapareceram no Japão. Quase 500 foram encontrados mortos. Segundo a polícia, o número de casos dobrou desde 2012. Pessoas com 65 anos ou mais respondem hoje por quase 30% da população japonesa (do total de quase 124 milhões) — a segunda maior proporção do mundo, atrás de Mônaco, segundo o Banco Mundial. A crise se aprofunda com a queda da força de trabalho e as restrições à entrada de estrangeiros para atuar nos cuidados. O governo japonês trata a demência como uma de suas prioridades. O Ministério da Saúde estima que os gastos de saúde e assistência social ligados à condição chegarão a 14 trilhões de ienes (cerca de R$ 490 bilhões) até 2030, acima dos 9 trilhões de ienes (cerca de R$ 315 bilhões) previstos para 2025. A estratégia mais recente do governo aponta para maior aposta em tecnologia para aliviar a pressão sobre o sistema. Pelo país, multiplicam-se sistemas baseados em GPS para rastrear pessoas que se perdem. Algumas regiões distribuem dispositivos vestíveis que alertam as autoridades assim que alguém ultrapassa uma área delimitada. Em algumas cidades, os funcionários de lojas de conveniência recebem alertas em tempo real, criando uma rede comunitária de proteção que permite encontrar desaparecidos em poucas horas. Robôs cuidadores e IA Outras tecnologias buscam detectar a demência mais cedo. O aiGait, da empresa japonesa Fujitsu, usa inteligência artificial para analisar a postura e os padrões de marcha, identificando sinais precoces de demência, como arrastar os pés ao caminhar, giros mais lentos ou dificuldade em manter-se em pé. O sistema gera esboços esqueléticos que os médicos podem analisar durante exames de rotina. “A detecção precoce de doenças relacionadas à idade é fundamental”, diz Hidenori Fujiwara, porta-voz da Fujitsu. “Se os médicos puderem usar dados de captura de movimento, poderão intervir mais cedo e ajudar as pessoas a se manterem ativas por mais tempo.” Enquanto isso, pesquisadores da Universidade Waseda (Japão) desenvolvem o AIREC, um robô humanoide de 150 kg projetado para ser um cuidador “do futuro”. Ele pode ajudar a calçar as meias, mexer os ovos e dobrar as roupas. Os cientistas esperam que, no futuro, o AIREC possa trocar fraldas geriátricas e prevenir escaras — lesão na pele causada por pressão contínua em pessoas acamadas ou com mobilidade reduzida. Robôs semelhantes já são usados em casas de repouso para tocar músicas para os residentes ou orientá-los em exercícios de alongamentos simples. Eles também monitoram os pacientes à noite — instalados sob os colchões para acompanhar o sono e as condições de saúde — e reduzir a necessidade de rondas humanas. Embora robôs humanoides estejam previstos para o futuro próximo, o professor assistente Tamon Miyake afirma que o nível de precisão e inteligência necessário para interagir com segurança com pessoas ainda exige ao menos cinco anos de desenvolvimento. “É preciso captação completa do corpo e compreensão adaptativa — e como saber se ajustar para cada pessoa e situação”, diz. A inovação também avança no apoio emocional. O Poketomo, um robô de 12 cm, pode ser transportado em uma bolsa ou caber no bolso. Ele lembra os usuários a hora do medicamento, dá instruções sobre o clima em tempo real e conversa com pessoas que vivem sozinhas, o que, segundo seus criadores, ajuda a reduzir o isolamento social. “Estamos focados em questões sociais… e em usar novas tecnologias para ajudar a resolver esses problemas”, afirma Miho Kagei, gerente de desenvolvimento da Sharp, à BBC. Apesar do avanço dos dispositivos, o vínculo humano continua insubstituível. “Os robôs devem complementar, e não substituir, os cuidadores humanos”, diz Miyake. “Embora possam assumir algumas tarefas, seu papel principal é auxiliar tanto os cuidadores quanto os pacientes.” No restaurante Restaurant of Mistaken Orders, em Sengawa, Tóquio, os clientes chegam para ser atendidos por pessoas com demência. O espaço foi fundado por Akiko Kanna. Inspirada pela experiência do seu pai com a doença, Kanna queria criar um lugar onde as pessoas pudessem se manter ativas e ter propósito. Toshio Morita, um dos atendentes do café, usa flores para lembrar quais mesas fizeram cada pedido. Apesar do declínio cognitivo, ele aprecia a interação. Para a esposa, o café oferece alívio e ajuda a manter Morita engajado. O café de Kanna mostra por que intervenções sociais e apoio comunitário continuam essenciais. A tecnologia pode fornecer ferramentas e aliviar a rotina, mas é o engajamento significativo e a conexão humana que sustentam, de fato, quem vive com demência. “Honestamente? Eu queria um dinheirinho extra. Gosto de conhecer pessoas diferentes”, diz Morita. “Cada um é diferente e é isso que torna divertido.” Reportagem adicional de Jaltson Akkanath Chummar
A fascinante história do alho (e quais são suas propriedades medicinais)

Fonte: BBC Brasil| Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet | Data: 23/11/2025 O alho é apreciado há milhares de anos, não só pelo seu sabor intenso e inconfundível, mas pelas suas propriedades medicinais. Conhecido pelos seus efeitos antimicrobianos e antivirais, o alho, há muito tempo, é um produto fundamental na cozinha e nos remédios tradicionais. Originário da Ásia central, o alho foi levado ao longo do tempo, pelas populações migrantes, para a Europa e os Estados Unidos. Atualmente, o maior produtor mundial de alho é a China. O programa de rádio The Food Chain, do Serviço Mundial da BBC, explorou recentemente a rica história do alho e seu significado cultural. E apresentou uma questão importante: o alho é realmente benéfico para nós? Imprescindível na cozinha O alho é um ingrediente essencial na cozinha de inúmeros países. O chef dinamarquês Poul Erik Jenson recebe estudantes do Reino Unido, Austrália, Ásia e Estados Unidos na sua Escola de Gastronomia Francesa, no noroeste da França. Ele garante que nunca teve um aluno que não conhecesse o alho. Para Jenson, o alho enaltece imensamente os alimentos e se pergunta o que seria da cozinha francesa sem ele. “Não acredito que os franceses consigam imaginar um prato salgado sem alho”, afirma ele. “Dos caldos às sopas, em saladas ou pratos com carne, certamente existe um dente de alho em alguma parte. Deixar de usá-lo é inimaginável.” Mas, quando ele era criança em uma região rural da Dinamarca, no início da década de 1970, o alho era virtualmente desconhecido. Jenson recorda que o alho era conhecido principalmente pelo seu odor forte. Mas, quando trabalhadores turcos começaram a imigrar para a Dinamarca, a preparação de alimentos com alho passou a ser uma experiência mais comum. O atual chef de cozinha também se acostumou com o alho nas pizzas italianas. E, hoje em dia, ele também se beneficia do condimento como remédio no inverno. “Minha esposa e eu tomamos um copo de caldo pela manhã, com uma cabeça de alho inteira, espremida”, ele conta. “Não tivemos uma única gripe ou resfriado sério e tenho certeza de que foi graças ao alho.” Longa jornada O significado cultural e espiritual do alho se expandiu já dura milênios. Os gregos antigos deixavam alho nas encruzilhadas, como oferenda a Hécate, a deusa dos feitiços e protetora dos lares. No Egito, os arqueólogos encontraram alho na tumba de Tutancâmon (c.1341 a.C.-c.1323 a.C.), para proteger o famoso faraó na vida após a morte. E, no folclore chinês e filipino, existem lendas de pessoas usando alho para afugentar vampiros. “A receita mais antiga do mundo é um guisado mesopotâmico, de cerca de 3,5 mil anos, contendo dois dentes de alho”, segundo Robin Cherry, autora do livro Garlic: An Edible Biography (“Alho: uma biografia comestível”, em tradução livre). “A menção mais antiga do alho também tem cerca de 3,5 mil anos. Trata-se do papiro de Ebers”, prossegue a escritora. “Ele inclui muitas instruções sobre como usar o alho para curar de tudo, desde mal-estar até parasitas e problemas cardíacos ou respiratórios.” Cherry destaca que o médico e filósofo grego Hipócrates (c.460 a.C. – c.370 a.C.) usava alho em uma série de tratamentos medicinais. Além dele, pensadores e escritores de destaque, como Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) e Aristófanes (c.446 a.C.-c. 386 a.C.), também fizeram referência às propriedades medicinais do alho. Da comida dos escravos para os pratos da realeza O alho foi muito popular em civilizações antigas como a Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma, China e Índia. Os soldados romanos acreditavam que o alho trazia força e coragem e o espalharam pela Europa durante suas conquistas. O alho era usado como alimento e como remédio, mas houve época em que seu uso culinário estava restrito às classes baixas. “De fato, era um alimento para as pessoas pobres”, segundo Cherry. “Acreditava-se que ele fortalecia as pessoas escravizadas que construíram as pirâmides do Egito e os marinheiros romanos. Era barato e podia disfarçar o sabor desagradável dos alimentos rançosos. Por isso, era considerado algo que só os pobres comiam.” A reputação do alho começou a mudar durante o Renascimento europeu — um período fundamental da história do continente entre os séculos 14 e 16, marcado pelo ressurgimento dos ensinos clássicos e pelo florescimento das artes e das ciências. “O rei Henrique 4° da França (1553-1610) foi batizado com alho e se alimentava muito com o condimento”, prossegue a escritora. “Isso fez com que o alho se tornasse popular.” Cherry destaca ainda que o condimento também ganhou popularidade na Inglaterra vitoriana, no século 19. O alho chegou aos Estados Unidos muito depois, nos anos 1950 e 1960. Levado pelos imigrantes, ele ajudou a reverter estereótipos. “Na verdade, o alho era usado em um sentido muito depreciativo contra judeus, italianos e coreanos”, explica Cherry. “Eles eram chamados de ‘comedores de alho’, o que tinha conotação negativa.” O alho na Medicina Existem atualmente cerca de 600 variedades de alho. Algumas delas só recentemente ficaram disponíveis em todo mundo, como o alho do Uzbequistão, na Ásia Central, e da Geórgia, na região do Cáucaso. Além do seu papel de destaque na cozinha moderna, o alho é usado regularmente para tratar ou reduzir os sintomas do resfriado. Testes clínicos examinaram seus efeitos sobre a pressão arterial, o colesterol e até o câncer, mas com resultados contraditórios. Um pequeno estudo no Irã concluiu que alho com suco de limão ajudou a reduzir o colesterol e a pressão arterial dos participantes em seis meses. Mas um estudo maior, realizado na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, envolveu 200 indivíduos saudáveis durante seis meses e não encontrou reduções significativas dos níveis de colesterol. Um estudo de 2014, realizado na Universidade de Sydney, na Austrália, confirmou as fortes propriedades antimicrobianas, antivirais e antifúngicas do alho. “O alho contém altos níveis de potássio, fósforo, zinco e enxofre, além de quantidades moderadas de magnésio, manganês e ferro. É como um vegetal milagroso”, afirma a nutricionista pediátrica e porta-voz da Associação Alimentar Britânica, Bahee Van de Bor. “O alho possui compostos encantadores que contêm enxofre, chamados alicinas”, prossegue ela. “Ele é rico em fibras prebióticas, que
Vitamina D: um marcador da mobilidade

Fonte: Correio Braziliense| Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet | Data: 16/11/2025 Baixos níveis do nutriente no sangue sinalizam risco aumentado de lentidão de marcha na velhice, impactando diretamente a independência. Estudo mostra que carência está associada à maior possibilidade de quedas, hospitalização e mortalidade A deficiência de vitamina D pode ser um sinal precoce de perda de mobilidade e, consequentemente, de uma velhice menos independente. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em parceria com a University College London (UCL), no Reino Unido, mostrou que idosos com baixos níveis do nutriente no sangue têm um risco 22% maior de desenvolver lentidão da marcha em seis anos de acompanhamento, em comparação a pessoas da mesma faixa etária com taxas adequadas. Definida como velocidade inferior a 0,8m por segundo, a lentidão da marcha é considerada um dos principais indicadores de fragilidade em idosos, uma condição associada a aumento do risco de quedas, hospitalização, dependência funcional e mortalidade. Segundo Tiago da Silva Alexandre, professor do Departamento de Gerontologia da UFSCar e autor principal da pesquisa, a vitamina D pode ser usada como marcador para identificar precocemente o risco de declínio da mobilidade. “Como a lentidão da caminhada está associada ao maior risco de dependência funcional e desfechos adversos, o monitoramento dos níveis de vitamina D, principalmente em pessoas idosas, também deve ser priorizado nos diversos contextos clínicos e serviços de saúde”, afirma. O artigo foi publicado na revista Diabetes, Obesity and Metabolism. A vitamina D ganhou notoriedade nos últimos anos pelos múltiplos papéis que desempenha no organismo — do fortalecimento dos ossos e músculos à modulação do sistema imunológico e neurológico, embora esses dois últimos careçam de mais evidências científicas. Praticamente todas as células têm receptores para o nutriente, o que explica sua influência em diversos órgãos. Quando a pele é exposta ao Sol, a radiação ultravioleta estimula um precursor que, após transformações metabólicas no fígado e nos rins, converte-se na forma ativa da molécula. Acompanhamento Os pesquisadores analisaram dados de 2.815 participantes do English Longitudinal Study of Ageing (Elsa), um estudo britânico que acompanha o envelhecimento populacional. Os participantes foram classificados conforme a concentração no sangue de 25-hidroxivitamina, principal forma de vitamina D circulante no organismo: suficiência (acima de 50 nmol/L), insuficiência (entre 30 e 50 nmol/L) e deficiência (abaixo de 30 nmol/L). Ao longo de seis anos, aqueles com deficiência tiveram risco significativamente maior de desenvolver marcha lenta, mesmo após o ajuste para fatores como idade, sexo, raça, escolaridade, tabagismo, nível de atividade física e presença de doenças crônicas, que também interferem nesse aspecto. Não houve, porém, relação estatística entre insuficiência e lentidão, indicando que apenas níveis muito baixos parecem aumentar o risco. Os mecanismos que explicam a associação envolvem tanto o sistema musculoesquelético quanto o sistema nervoso. A vitamina D atua nas células musculares regulando a entrada e saída de cálcio, processo essencial para a contração muscular. Quando há deficiência, esse fluxo é prejudicado e compromete a força e a eficiência dos músculos. Além disso, a falta do nutriente reduz a síntese de proteínas musculares, dificultando ainda mais a formação de massa magra em idosos — um problema que se soma ao declínio natural da força com a idade. Segundo a professora Mariane Marques Luiz, que conduziu a pesquisa durante seu doutorado na UFSCar, a falta de vitamina D também tem impacto neurológico, interferindo na proteção dos neurônios e na velocidade da transmissão dos impulsos nervosos. “Além da questão muscular, a carência de vitamina D tem repercussão no sistema nervoso central e periférico, comprometendo a marcha pela lentidão na transmissão dos estímulos neuronais para a caminhada”, explica. Exposição Com o envelhecimento, a própria capacidade de síntese de vitamina D diminui. O geriatra Saulo Borges, da Clínica Bella Ricca Saúde e Bem-estar, explica que a pele mais fina reduz a produção do precursor do nutriente, e o número de receptores da molécula nos tecidos também tende a cair. “Outro ponto é que, muitas vezes, o idoso já tem uma deficiência na funcionalidade e tende a se expor menos ao Sol. Mas temos condições patológicas decorrentes do envelhecimento, que podem gerar processos de desabsorção de nutriente, aumentando o risco de deficiência”, esclarece. Os autores do artigo observam, porém, que, apesar de a vitamina D ser um fator de risco importante, a lentidão da marcha é multifatorial. O envelhecimento está associado a alterações musculares, neurológicas e metabólicas que interagem entre si, e o declínio da mobilidade dificilmente decorre de uma única causa. Outro alerta que fazem é sobre o cuidado com a suplementação excessiva, que pode ser tóxica, segundo Tiago Alexandre. “Acho importante frisar que as evidências científicas atuais nos mostram que a suplementação é benéfica para quem tem deficiência documentada”, reforça Polianna Souza, médica geriatra e cofundadora do canal Longidade. “Isso é, não adianta a gente sair por aí suplementando indiscriminadamente todo mundo. O que os trabalhos nos mostram é que quem não tem deficiência não tem benefício adicional da suplementação da vitamina D. Então, essa é uma coisa que precisa ficar bem clara.” Prescrição A nutricionista Maria Catarine Camargo, especialista em nutrição esportiva, lembra que somente um profissional pode indicar a suplementação. “A prescrição — se a pessoa vai precisar tomar uma dose mais intensa ou se fará consumo diário, por exemplo — depende muito do nível de deficiência identificado e também de quem vai receber o suplemento”, diz. “Se houver uma dificuldade absortiva, o profissional pode escolher vias diferentes de suplementação e também dosagens diversas.” Para os autores do estudo e especialistas, uma das implicações do trabalho é a importância do rastreamento dos níveis de vitamina D em idosos em risco. “Sem dúvida nenhuma, pacientes mais idosos, que vivem institucionalizados, aqueles mais restritos à casa, com distúrbios de mobilidade e que já tem distúrbios de absorção instalados deveriam ser rastreado”, acredita o geriatra Saulo Borges. “Na prática clínica, já fazemos isso, mas esse rastreamento poderia ser incentivado por meio da promoção de políticas públicas.” Três perguntas para Thiago Póvoa, geriatra do Hospital Sírio-Libanês e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria
Whey protein: como o suplemento ajuda a ganhar músculos e para quem é indicado

Imagem: Reprodução Internet/Designed by Freepik. Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Data: 06/02/2025 Muito popular nas academias mundo afora, o pó feito com soro do leite é considerado uma alternativa prática para ingerir quantidades significativas de proteína, mas especialistas recomendam alguns cuidados. As proteínas estão presente em todo o corpo — nos músculos, ossos, pele, cabelo e praticamente em todos os tecidos e órgãos. Para que seu corpo funcione bem no dia a dia, mais de 10 mil tipos delas — formadas por diferentes combinações de aminoácidos, os “blocos de construção” desse macronutriente — estão trabalhando em processos complexos no organismo. É com elas que reparamos tecidos, transportamos substâncias pelo sangue e produzimos hormônios e anticorpos. Mas em meio a tantos processos importantes, um de seus poderes é que recebe a maior popularidade: seu papel na construção de massa muscular. Durante exercícios de resistência, como musculação, ocorrem pequenas lesões nas fibras musculares. Para repará-las e fortalecê-las, o corpo utiliza os aminoácidos que vêm das proteínas, promovendo o crescimento e a adaptação dos músculos ao esforço. Sem uma ingestão adequada de proteínas, o processo que levaria ao ganho de massa muscular fica incompleto. As principais fontes desse macronutriente são carnes, ovos, laticínios e leguminosas, como feijão, lentilha e grão-de-bico. E, desde a década de 1980, também se tornaram populares as opções de “soroproteínas” em pó, popularmente chamadas de whey protein (ou simplesmente whey) — um jeito considerado “mais prático” para ingerir doses significativas de proteína. Como o whey protein ajuda no ganho de músculos Se o objetivo é aumentar a quantidade de músculos, uma pessoa precisa consumir entre 1,4 e 2 gramas de proteína por quilo do seu peso, de acordo com a recomendação da Sociedade Internacional de Nutrição e Esporte. Isso, claro, aliado à prática de atividades físicas focadas no ganho de massa muscular, como a musculação. Para uma pessoa que pesa 70 kg, por exemplo, a recomendação seria ingerir cerca de 119 gramas de proteína por dia. Distribuído ao longo do dia, um exemplo de consumo — considerando apenas a ingestão proteica, sem levar em conta outros nutrientes — poderia incluir: No entanto, é comum que nem sempre seja priorizada a proteína ao montar as refeições. Em situações assim, o whey protein surge como uma alternativa prática para complementar a ingestão do macronutriente. O suplemento é composto por proteínas extraídas do soro do leite, rico em aminoácidos essenciais, fundamentais para a recuperação e o crescimento muscular. Além disso, é uma solução conveniente para quem busca aumentar a ingestão proteica de forma simples e eficaz. “Cerca de 80% das proteínas do leite são caseína, usada na produção de queijo, iogurte e coalhada, enquanto os 20% restantes correspondem ao soro, conhecido como whey protein — que permanecem solúveis quando a caseína é removida”, explica Veridiana Vera de Rosso, do Instituto de Saúde e Sociedade da Universidade Federal de São Paulo (ISS/Unifesp) – Campus Baixada Santista. “É uma fonte de proteína de alta qualidade, rapidamente absorvida pelo organismo.” Para fim de comparação, uma dose do suplemento, tomada em um copo de água ou leite, geralmente tem cerca de 25 gramas de proteína — o mesmo que um bife de carne bovina de 120 g, ou quatro ovos, ou um filé de frango de 100 g. “O whey pode ser indicado para pacientes com sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de massa muscular e força, comum em idosos”, afirma Daniela Gomes, nutróloga do Hospital Albert Sabin, de São Paulo. O processo natural de perda progressiva de massa muscular e força começa a acontecer, embora lentamente, a partir dos 30 anos de idade. Quando se atinge os 50 anos, começa a ocorrer uma perda mais significativa de massa muscular, que pode chegar a 2% por ano. De acordo com Gomes, o whey é geralmente recomendado no pós-treino, pois sua rápida absorção auxilia na recuperação muscular e na síntese de proteínas. No entanto, se o objetivo for apenas aumentar a ingestão diária de proteínas, o suplemento pode ser consumido em qualquer horário, desde que a quantidade total ao longo do dia seja suficiente para atender às necessidades do organismo. Os tipos de whey protein Embora exista uma quantidade de proteína recomendada, isso pode variar de acordo com o peso, a massa muscular e, principalmente, o nível de atividade física de uma pessoa, explica Veridiana Vera de Rosso. “Uma pessoa sedentária, por exemplo, precisa de menos proteína do que um atleta, que possui uma alta demanda metabólica.” A especialista aconselha que um nutricionista seja procurado para entender se realmente há necessidade de consumir o suplemento e qual seria a dose ideal e melhor versão de whey. “O que temos visto hoje é que muitas pessoas começam a treinar e já assumem que precisam tomar creatina ou whey protein, sem avaliar se há realmente essa necessidade”, diz ela. “O acompanhamento nutricional é essencial para tomar decisões mais seguras e adequadas.” Existem três principais tipos de whey no mercado, que se diferenciam por absorção e processamento da proteína pelo corpo e pela composição nutricional: Whey protein concentrado Esta versão tem menos concentração de proteína. O restante é composto por carboidratos (lactose) e gorduras — o que o torna mais barato. Seu processamento na fabricação é menos intenso, o que mantém mais nutrientes do leite, como imunoglobulinas e lactoferrina. Whey protein isolado Contém 90% ou mais de proteína, com menos gordura e lactose — uma boa opção para quem tem sensibilidade ou intolerância. Essa versão passa por um processo de filtragem mais rigoroso, removendo a maior parte dos carboidratos e gorduras. Tem rápida absorção, ideal para consumo pós-treino. Whey protein hidrolisado “O whey hidrolisado passa por um processo de hidrólise enzimática, que simula a digestão no nosso organismo, quebrando as proteínas em aminoácidos”, explica De Rosso. “Isso facilita a absorção, pois o corpo não precisa digeri-las completamente antes da assimilação”, prossegue a especialista. “No entanto, seja isolado, concentrado ou hidrolisado, o whey protein tem alta digestibilidade e é rapidamente absorvido pelo organismo.” Essa versão é indicada para pessoas com problemas digestivos, intolerância à lactose severa ou atletas que buscam absorção ultrarrápida, e costuma ser mais cara. Opções veganas Embora o whey protein seja originalmente uma proteína derivada do soro do leite, existem versões veganas de proteína em pó. Ao consumir proteínas de
Contra inflamações, dieta mediterrânea é aliada da boca, mostra estudo

Imagem: Reprodução Internet/Designed by Freepik. Fonte: Correio Braziliense | Seção: Notícias | Data: 16/09/2025 Padrão alimentar foi associado a uma redução de 65% no risco de gengivite grave em estudo que avaliou o impacto do que se come na saúde oral. O consumo de carne vermelha e ultraprocessados aumentou marcadores inflamatórios. Reconhecida pelos benefícios cardiovasculares, metabólicos e neurológicos, a dieta mediterrânea também desempenha um importante papel na saúde bucal. Um estudo conduzido por pesquisadores do King’s College London, no Reino Unido, e da Universidade de Catânia, na Itália, mostra que pessoas que seguem esse padrão alimentar têm menor risco de desenvolver periodontite grave, doença inflamatória crônica que afeta as gengivas e pode levar à perda dentária. O artigo foi publicado no Journal of Periodontology. Segundo os autores, que avaliaram 200 pacientes atendidos em hospitais do Reino Unido entre 2023 e 2024, o consumo frequente de carne vermelha está associado a quadros mais severos de periodontite. Por outro lado, frutas, legumes e leguminosas demonstraram efeito protetor, reduzindo marcadores de inflamação no organismo. O estudo britânico confirma os resultados de um artigo de revisão publicado no ano passado no Journal of Oral Microbiology, que incluiu dados de milhares de pessoas. Na pesquisa atual, os cientistas mediram desde a profundidade de bolsas periodontais — espaços entre a gengiva e o dente, resultantes da inflamação — até níveis de proteínas inflamatórias, como interleucina-6 (IL-6) e proteína C-reativa (PCR). Em seguida, aplicaram modelos estatísticos para verificar associações entre hábitos alimentares, marcadores biológicos e saúde gengival. Gravidade A análise revelou que seguir um padrão alimentar condizente com a dieta mediterrânea reduziu em cerca de 65% o risco de formas severas de periodontite. Já o consumo frequente de carne vermelha e derivados praticamente triplicou a probabilidade de gengivite grave. A periodontite é uma condição microbiana e inflamatória que destrói os tecidos de sustentação dos dentes. Já é bem conhecido que os efeitos da doença extrapolam a boca: estudos associam o problema a doenças cardiovasculares, diabetes e até quadros neurológicos. Na pesquisa britânica, a interleucina-6, um marcador inflamatório, apareceu em níveis mais altos em pessoas com doença periodontal avançada. Segundo os autores, os dados reforçam que a inflamação periodontal tem impacto além da cavidade oral — e que a alimentação pode modular essa resposta. A dieta mediterrânea é caracterizada por alto consumo de frutas, verduras, legumes, grãos integrais, azeite de oliva e oleaginosas; ingestão moderada de peixes, laticínios e vinho; e baixo consumo de carnes vermelhas e processadas. Esse padrão alimentar é rico em fibras, antioxidantes e ácidos graxos insaturados, compostos que reduzem o estresse oxidativo e regulam a produção de citocinas inflamatórias. Crônicas No estudo, o consumo frequente de vegetais e leguminosas esteve inversamente relacionado a biomarcadores inflamatórios como IL-6, IL-1, IL-10 e IL-17. Isso sugere que os efeitos benéficos vão além da boca, fortalecendo a hipótese de que a nutrição saudável protege contra inflamações crônicas sistêmicas. Já a carne vermelha, especialmente em excesso, pode aumentar o risco de inflamação devido à presença de ferro heme, que favorece a formação de radicais livres. Além disso, ambientes ricos em proteínas e ligeiramente alcalinos — típicos de quem consome muita proteína de origem animal — favorecem o crescimento de bactérias periodontopatogênicas, como Porphyromonas gingivalis, associada à progressão da periodontite. “O microbioma da boca é formado por trilhões de microrganismos que, quando em desequilíbrio, podem favorecer o surgimento de doenças periodontais. A dieta mediterrânea contribui para manter o equilíbrio por ser rica em alimentos com propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes”, esclarece o nutricionista Guilherme Lopes, do Grupo Mantevida. “Frutas, vegetais, azeite de oliva, grãos integrais, nozes e peixes ajudam a modular a composição bacteriana da boca, fortalecendo a imunidade local e reduzindo a inflamação gengival.” Da mesma forma, a alimentação pode prejudicar a saúde bucal, lembra o cirurgião-dentista Gustavo Delmondes, de Brasília. “Os alimentos que consumimos impactam tanto na integridade dos dentes quanto na saúde da gengiva. Uma dieta rica em açúcares simples e ultraprocessados favorece a formação de placa bacteriana e aumenta o risco de cáries. Além disso, carências nutricionais podem comprometer a imunidade e deixar a boca mais suscetível a inflamações, como a gengivite e a periodontite.” Três perguntas para Ilana Marques, cirurgiã-dentista da IGM Odontologia para Família Como os hábitos alimentares influenciam a saúde da boca? Os hábitos alimentares estão diretamente ligados ao desenvolvimento da doença cárie e das doenças gengivais. Isso porque determinados alimentos — especialmente os ricos em açúcares simples e ultraprocessados — favorecem bactérias que desestabilizam o microbioma oral, levando à produção de ácidos que atacam o esmalte. Por outro lado, existem alimentos chamados neutralizadores, como queijos, iogurte natural sem açúcar, nozes e vegetais fibrosos, que estimulam a salivação e ajudam a restabelecer o pH da boca após a ingestão de alimentos ácidos ou açucarados. Esse equilíbrio entre o que agride e o que protege é fundamental para manter a saúde bucal. A chamada dieta mediterrânea pode ajudar a prevenir doenças bucais? Sim. O padrão mediterrâneo é considerado um dos mais protetores para a saúde, inclusive bucal. Ele se caracteriza pelo baixo consumo de ultraprocessados e açúcares e pela abundância de frutas, verduras, legumes, azeite de oliva, oleaginosas e peixes ricos em ômega-3. Embora inclua alimentos naturalmente ácidos, como frutas cítricas e vinho tinto, a dieta mediterrânea também oferece uma variedade de alimentos neutralizadores, que reduzem o impacto da acidez e ajudam a preservar o esmalte dental. Além disso, seu perfil anti-inflamatório contribui para a prevenção de doenças gengivais. Que tipo de pesquisa ainda falta para um avanço na compreensão da relação entre dieta, microbioma e saúde bucal? Ainda faltam estudos longitudinais que avaliem não apenas o impacto do açúcar ou da frequência alimentar, mas também o papel dos alimentos neutralizadores no reequilíbrio do pH oral após refeições ácidas. Também é necessário mapear como diferentes padrões alimentares modulam o microbioma oral a longo prazo e identificar a proporção ideal entre alimentos potencialmente prejudiciais (ácidos e fermentáveis) e os alimentos que ajudam a neutralizar seus efeitos. Esse tipo de dado permitirá recomendações ainda mais específicas para a prevenção de lesões de cárie e doenças
Hidroginástica, natação e deep water: por que exercícios na água são indicados na terceira idade

Fonte: Gauchazh | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet | Data: 05/02/2025 Atividades físicas contribuem para um envelhecimento saudável, estando intimamente ligadas à longevidade Após realizar tratamentos quimioterápicos e cirúrgicos devido a um câncer de mama, Denise Figueiredo, 69 anos, ainda sofria com dores como consequência da doença. Em 2008, a médica veterinária aposentada foi orientada pelo oncologista a experimentar a hidroginástica em busca de alívio. Desde então, pratica o exercício aquático rigorosamente. Hoje, define como se sente em quatro palavras: — Perfeita, maravilhosa, saudável e feliz. Exercícios físicos são as medidas que mais trazem benefícios para um envelhecimento saudável, estando intimamente ligados à longevidade, afirma Virgílio Olsen, chefe do serviço de Geriatria da Santa Casa de Porto Alegre. Os exercícios na água, especificamente, como hidroginástica e natação, estão entre os melhores para quem tem mais de 60 anos. Têm tanto um componente de força quanto aeróbico, sem o impacto de atividades como caminhada ou corrida. — O exercício na água retira esse impacto e é uma boa alternativa para que pessoas com problemas de artrose e dor crônica, por exemplo, mantenham-se ativas — explica Olsen. Menos risco de quedas Exercícios aquáticos trabalham as articulações dos idosos de maneira diferente, sendo mais controlados, além de garantir mais segurança, ao diminuir o risco de quedas, aponta Daniel Godoy, professor do setor de atividades aquáticas do Parque Esportivo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), também na Capital. Além da hidroginástica e da natação, Luiz Fernando Martins Kruel, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), recomenda o deep water, que consiste em exercícios realizados em piscina profunda, com a ajuda de um flutuador, sem impactos. A água proporciona um ambiente que melhora o conforto e a aderência aos exercícios, conforme o fundador e coordenador do Grupo de Pesquisa em Atividades Aquáticas e Terrestres. O especialista também destaca que, embora a natação seja benéfica, a hidroginástica e o deep water têm como vantagem um aprendizado mais rápido. Ambos os exercícios são eficazes na melhoria da densidade óssea, sendo úteis na prevenção e no tratamento da osteoporose. Além disso, contribui para o tratamento de doenças cardiometabólicas, como obesidade, dislipidemia (alteração de colesterol e triglicerídeos), pressão arterial, diabetes tipo 2 ou síndrome metabólica, segundo o pesquisador. O deep water, especificamente, também melhora o equilíbrio. — Para cada doença tem uma dose de exercício e uma intensidade — ressalta Kruel. Benefícios que se somam Olsen, da Santa Casa, afirma que “qualquer exercício é melhor do que nada”: — Para todo exercício que tem um acompanhamento de um profissional e uma rotina, os benefícios vão se somando e se tornando cada vez mais robustos. Há 17 anos, Denise tem sentido esses pontos positivos, com destaque para o reforço muscular e a resistência respiratória, ambos importantes para os idosos. Além da hidroginástica duas vezes por semana, sua rotina de atividades inclui musculação, de uma a duas vezes por semana, e dois dias de fisioterapia. Apesar de parecer “tranquila”, a hidroginástica cansa, garante a aposentada, que precisa dormir à tarde após o exercício, devido ao esforço. — Acho maravilhosa porque não se sente muito a resistência da água, mas ela trabalha bastante o corpo. Mesmo que se faça poucos movimentos, como no caso das pessoas que têm limitações, ainda assim é efetiva na musculatura — relata. Convívio em grupo Os exercícios aquáticos trazem diversas vantagens, segundo os especialistas, como benefícios cardiovasculares, metabólicos, respiratórios e diminuição de peso (veja lista ao final da reportagem). Godoy, da PUCRS, ressalta: — Isso tudo é fundamental para o público idoso. Até para a prevenção do Alzheimer e problemas de demência futura que podem vir a ter em função da idade. Há ainda benefícios de socialização, acrescenta Olsen: — Por meio do convívio em grupo, a hidroginástica oferece a oportunidade de continuar tendo um grupo de amigos nessa faixa etária. É o que Denise tem vivenciado há anos: — Criamos amizade, laços de afeto. Comemoramos juntos aniversários, Natal, Páscoa e Ano-Novo. Os laços ficam mais estreitos. Embora o exercício seja normalmente associado a pessoas de mais idade, a aposentada ressalta: — Não é uma turma de idosas, é de hidroginástica. Então, tem rapazes e moças também. Cuidados na hora de começar Os especialistas explicam que é preciso realizar uma revisão médica antes de começar a praticar uma atividade física, principalmente se a pessoa é sedentária ou não realiza atividade regular há algum tempo. Estando em condições e com autorização do médico, a recomendação é começar devagar, com acompanhamento e orientação de um profissional. Olsen aconselha: — Deve ser algo que caiba na rotina, ou seja, perto de casa ou do trabalho, para que esse exercício seja de fato incorporado como uma atividade de médio e longo prazo. Alguns idosos desejam, por vezes, realizar exercícios sozinhos na piscina de casa, com o auxílio de conteúdos da internet, mas é preciso cuidado, pois podem não ser os mais indicados e agravar algum problema, aponta Godoy, da PUCRS. Os professores orientam os alunos para que haja a melhor ergonomia, com a intensidade correta e segurança, de modo a evitar lesões.
Os idosos viciados em redes sociais: ‘Desligamos o wi-fi da minha mãe’

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet | Data: 23/12/2024 Na casa da família de Ester, no interior de São Paulo, o wi-fi está desligado. A cuidadora de idosos de 38 anos e os irmãos também têm evitado mexer no celular quando estão reunidos. A decisão repentina da família de ficar offline é uma tentativa de trazer uma pessoa “de volta à vida real”: a mãe de Ester, que tem 74 anos. “Ela está muito viciada: leva o celular para o banheiro, dorme com o celular embaixo do travesseiro, não interage e não deixa a gente chegar perto do telefone dela. Parece uma criança”, diz Ester, que preferiu preservar o nome da mãe e o sobrenome da família para evitar constrangimentos. Em uma medida mais drástica, os filhos chegaram a tirar o chip do telefone da mãe, para cortar o acesso da idosa a dados móveis e que, assim, parasse de entrar no Facebook e TikTok. O caso da família paulista ilustra um fenômeno que tem aparecido em pesquisas recentes sobre danos causados pelo vício em celular — a chamada nomofobia, expressão que vem do inglês no mobile (sem celular). Ela não é considerada uma doença ou um transtorno, mas um conjunto de sintomas exacerbados nessa relação não saudável com os aparelhos eletrônicos. Em alguns casos, o medo de ficar sem celular pode deixar uma pessoa tão nervosa que ela pode suar demais ou ter taquicardia. O uso excessivo de telas é relacionado a uma piora da saúde mental, com sintomas de estresse, depressão e ansiedade, segundo pesquisas reunidas em um estudo realizado pela terapeuta ocupacional Renata Maria Santos em seu doutorado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A principal surpresa para a pesquisadora, que acompanha pacientes no Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte, foi o impacto em idosos. “A gente imaginava que os idosos teriam uma aversão à tecnologia, pela dificuldade de mexer ou por um leve declínio cognitivo natural, que seriam uma barreira para um relacionamento positivo com esses aparelhos”, diz Santos, que analisou 142 artigos publicados sobre pesquisas que, reunidas, envolvem 2 milhões de pessoas no mundo. “Mas o que a gente encontrou é que as pessoas estão tão apegadas a ponto de desenvolver essa ansiedade generalizada de ficar desconectado [a nomofobia].” Ou seja, a dificuldade que muitos idosos relatam de lembrar de senhas, baixar algum programa ou conhecer os caminhos para acessar um site não tem sido mais uma barreira. Os especialistas com quem a BBC News Brasil conversou apontam que os celulares podem ser aliados importantes na melhoria da qualidade de vida de idosos (no contato com a família, por exemplo). Mas há alguns aspectos que deixam os idosos especialmente vulneráveis a uma possível dependência, como: Essas situações, somadas a algum declínio cognitivo e à falta de letramento digital, ainda podem levar os idosos a uma maior propensão a cair em golpes ou se viciar em jogos, explica a neuropsicóloga Cecília Galetti, especialista em gerontologia, a ciência que estuda o envelhecimento. “É como uma bola de neve. Um idoso isolado em casa e deprimido é mais vulnerável a um comportamento aditivo”, diz Galetti, que é colaboradora do Programa Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso da USP (Universidade de São Paulo). Além disso, “um dos critérios diagnósticos para identificar um vício em jogos, por exemplo, é saber se a pessoa aposta para fugir de um humor deprimido”. ‘Eu era viciada’ “Era como se o celular fosse parte de mim, e eu tinha que ficar perto dele o tempo inteiro. Senão, sentia que faltava alguma coisa.” O relato da aposentada Maria Aparecida Silva, de 70 anos, de São Paulo, remete ao momento que ela percebeu que tinha uma dependência, em 2021. O Brasil vivia ainda a pandemia de covid-19, e o celular passou a ser sua única conexão com o mundo exterior. Aparecida, que mora sozinha, lembra que “passou a levar o celular para a cama e não conseguia mais dormir”, além de “deixar de realizar tarefas domésticas para ficar conectada”. A aposentada passava maior parte do tempo no Facebook, um aplicativo que faz “um serviço muito bem feito para chamar nossa atenção”, conta. De fato, as redes sociais são habilidosas em contemplar a busca por “recompensas” do nosso cérebro. Temos centros neurais que reagem ao prazer — ao sexo, às drogas, a ganhar dinheiro em apostas —, e esperam que isso se repita várias vezes. Isso é conhecido como circuito de recompensa do cérebro, e é o mesmo mecanismo pelo qual uma pessoa se torna dependente de uma substância como o álcool. As redes sociais, em particular, sempre têm algo novo prazeroso a oferecer: uma foto, um vídeo, uma mensagem. Por isso, têm potencial aditivo. Especialmente nos idosos, a pesquisadora Renata Maria Santos explica que esse acesso exacerbado ao mundo digital tem causado um estado psíquico chamado hebefrenia, uma confusão mental que, nos grupos afetados, tem levado a um “comportamento de adolescente“. “Tenho percebido um aumento da preocupação com a validação dos pares, das compras por impulso na internet de coisas que não precisam e da busca por ideais de beleza”, diz Santos. “Em tese, são comportamentos que, pela idade, eles já teriam perdido, mas que agora tem voltado com as redes. E isso coloca os idosos em uma susceptibilidade parecida ao dos adolescentes. Eles querem se sentir inseridos.” As psicólogas com quem a BBC News Brasil conversou indicam alguns sinais que os familiares podem perceber sobre o uso não saudável do celular, como: Na avaliação da psicóloga Anna Lucia Spear King, fundadora do Instituto Delete, que promove uso consciente de tecnologias, a nomofobia ocorre, em geral, para “dar vazão a um transtorno de origem”, como compulsão, ansiedade, depressão ou síndrome do pânico. “Quando percebido o problema, o tratamento é no transtorno de origem que leva a essa dependência”, conta Spear King, que pesquisa dependência digital e é professora do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além disso, as especialistas aconselham as famílias a estarem por perto dos idosos e incentivá-los a realizar atividades fora de casa. A aposentada Maria Aparecida Silva conta que conseguiu se sentir “livre” do celular ao fazer aulas
Gordura visceral pode ser prognóstico de Alzheimer 20 anos antes dos primeiros sintomas

Fonte: G1 | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/ G1 Data: 03/12/2024 Na reunião anual da Sociedade Norte-Americana de Radiologia (RSNA em inglês), que vai até o dia 5, pesquisadores apresentaram trabalho associando um determinado tipo de gordura corporal às proteínas encontradas no cérebro que são consideradas marcadores da Doença de Alzheimer – o mais interessante é que o quadro se manifestava 20 anos antes do surgimento dos primeiros sintomas de demência. “Conseguimos chegar a esse resultado porque investigamos a patologia do Alzheimer na meia-idade, entre os 40 e 50 anos, quando a doença está em estágios iniciais e modificações no estilo de vida, como perda de peso e redução de gordura visceral, são meios eficazes para prevenir ou retardar o começo da enfermidade”, afirmou a médica Mahsa Dolatshahi, pesquisadora de pós-doutorado e autora principal do estudo. Nos Estados Unidos, há quase sete milhões de pessoas, acima dos 65 anos, vivendo com a doença. No Brasil, a estimativa da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) é que sejam 1.7 milhão de pacientes acima dos 60 com algum tipo de demência – o Alzheimer corresponde a 55% dos casos. O estudo contou com 80 indivíduos sem qualquer alteração cognitiva, com idade média de 49 anos, sendo 62.5% deles mulheres. No grupo, 57.5% eram obesos e todos se submeteram a exames de sangue e de imagem do cérebro, além de ressonância magnética do abdômen, para medir o volume de gordura subcutânea – a que fica embaixo da pele – e gordura visceral, que se acumula na cavidade abdominal, entre os órgãos internos. Um maior nível da visceral estava relacionado ao aumento de placas de proteína amiloide, que se acumulam no cérebro e causam danos irreversíveis. “Os pacientes estavam na meia-idade, a décadas de exibir os primeiros sintomas de demência, mas já havia uma condição alterada”, disse Dolatshahi. O estudo também mostrou que um alto nível de resistência à insulina (que leva ao diabetes) e um baixo nível de HDL, um tipo de colesterol considerado benéfico à saúde, estavam atrelados às proteínas amiloide no cérebro. A doutora e seus colegas apresentaram ainda outra pesquisa, no mesmo encontro da entidade, revelando, através de imagens, que obesidade e gordura visceral diminuem o fluxo sanguíneo para o cérebro.
Dez dicas para aumentar a segurança financeira das mulheres

Fonte: G1| Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/G1 Data: 07/11/2024 Segundo pesquisa realizada nos Estados Unidos, o maior medo apontado por elas é viver além das suas reservas No seminário anual promovido pelo Instituto das Mulheres para uma Aposentadoria Segura (Women’s Institute for a Secure Retirement, conhecido como WISER), que acompanhei on-line, ficou claro não somente que a educação financeira é crucial para administrar bem o orçamento, evitar erros e tomar as melhores decisões, mas também que a desigualdade de gênero é um obstáculo para atingir esse objetivo. Mesmo nos EUA, 49% das mulheres entre os 18 e 64 anos (um contingente de cerca de 27 milhões) não têm acesso a um plano de previdência privado de seus empregadores. “Quando ajustamos a lente para minorias, 64% das hispânicas e 53% das negras estão nessa situação”, afirmou Catherine Collinson, CEO da Transamerica Institute, que realizou pesquisa com 57 mil trabalhadores. “Não podemos perder de vista que é a mulher que deixa o emprego para cuidar de filhos e pais idosos. Além de viver mais, elas não conseguem poupar tanto quanto os homens”, completou. O levantamento mostra que as mulheres avaliam sua situação financeira com ansiedade: apenas 16% se dizem confiantes de que conseguirão se aposentar e manter um padrão de vida confortável e 39% estimam que só deixarão de trabalhar depois dos 70 anos, ou nem consideram mais essa hipótese. Outro motivo de angústia é a perspectiva de se tornar uma cuidadora – uma tendência em ascensão, por causa do envelhecimento da população.

