A tecnologia pode fazer cérebro funcionar melhor?

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 17/01/2026 Você tem uma longa lista de compras que precisa recordar? Ou os nomes dos convidados para uma reunião importante? Existem truques de memória que usamos para treinar o cérebro, para que ele funcione melhor. É o chamado método “software”, para melhorar nossa capacidade mental. Mas será que poderíamos também usar o hardware, ou seja, dispositivos que fornecem impulsos elétricos ao cérebro? Até o momento, esta tecnologia foi desenvolvida para ajudar a restaurar as funções cerebrais em certas condições neurológicas. Um exemplo é a estimulação cerebral profunda (ECP), uma técnica complexa, utilizada por muitos anos para tratar de pessoas com transtornos de movimento, como a Doença de Parkinson. Marca-passo para o cérebro A professora Francesca Morgante, da Universidade City St George de Londres, observou o impacto da ECP em seus pacientes. “Ela é considerada para pessoas cuja medicação não consegue controlar os sintomas”, declarou a professora ao programa de rádio CrowdScience, do Serviço Mundial da BBC. O Parkinson causa a morte das células produtoras do mensageiro químico dopamina. A dopamina é necessária para sinalização nas partes do cérebro que controlam os movimentos corporais. Sem dopamina em quantidade suficiente, as pessoas que sofrem de Parkinson podem ter sintomas como tremores, rigidez e lentidão de movimentos. A doença piora com o tempo e, até o momento, não tem cura. A ECP consiste em implantar cirurgicamente um gerador de pulsos embaixo da pele, geralmente pouco abaixo da clavícula. Ele é conectado a cabos ou eletrodos que são inseridos nas regiões do cérebro afetadas, para estimulá-las com uma pequena corrente elétrica. O dispositivo age como um marca-passo do cérebro, segundo Morgante, ajudando a restabelecer a sinalização cerebral normal. Não há uma solução única para todos A estimulação cerebral profunda pode ajudar a aliviar alguns dos sintomas de Parkinson, mas nem sempre é eficaz. As formas com que a vasta rede de neurônios envia sinais elétricos entre si são complexas e, até o momento, não são totalmente compreendidas. “Existem muito mais sintomas do que apenas tremores e problemas de mobilidade”, explica Lucia Ricciard, também da Universidade City St George de Londres. “Eles incluem sintomas como depressão, ansiedade, falta de motivação, problemas de memória e dificuldades para dormir.” Ela destaca que os estudos indicam que a estimulação cerebral profunda também pode ajudar a aliviar alguns destes sintomas, como a depressão e a ansiedade, mas é preciso realizar mais pesquisas a respeito. Existem também considerações individuais. Cada cérebro é altamente complexo e único e, por isso, não existe uma solução única que sirva para todos. Os cabos implantados e empregados na ECP consistem de diversos segmentos independentes, conectados a diferentes neurônios. Os especialistas precisam determinar quais segmentos devem ser estimulados para conseguir maior impacto sobre os sintomas do paciente. “Para tomar a decisão de qual segmento ativar e com qual parâmetro em termos de frequência, amplitude e pulso, existem muitos aspectos que devem ser considerados”, afirma Ricciard. Este processo de calibragem personalizada, tradicionalmente realizado por meio de tentativa e erro, vem melhorando constantemente, ainda mais agora que a inteligência artificial pode sugerir quais combinações são as melhores para cada cérebro. Reforço para a memória? Ainda não está muito claro se a estimulação cerebral serve para melhorar outras funções, como a memória. Mas este ponto, atualmente, é objeto de investigação. A memória humana está concentrada em uma região do cérebro chamada hipocampo. Ela recebe informações de outras partes do cérebro, como o odor, o som e a imagem de uma experiência, e a converte em um código que é armazenado a curto ou longo prazo, explica o especialista em memória Robert Hampson, da Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos. Há vários anos, sua equipe realizou experimentos com pequenos roedores, que receberam uma tarefa que exigia o uso da memória, e observou o surgimento de padrões elétricos específicos antes que o animal decidisse o que fazer. “Se o rato de laboratório girar para a esquerda, obtenho um padrão que chamo de ‘esquerda’. Se ele girar para a direita, obtenho um padrão que chamo de ‘direita’”, explica Hampson. “Descobrimos que existem padrões associados ao funcionamento correto da memória e suas possíveis falhas.” Hampson começou a se perguntar se seria possível influenciar esses padrões e “reparar a memória quando ela falhar”. Sua equipe foi pioneira nos primeiros testes em seres humanos de um dispositivo denominado prótese neural hipocampal. De forma similar à ECP, ele exige a implantação cirúrgica de diversos eletrodos, estes dirigidos ao hipocampo. A tecnologia ainda não está totalmente desenvolvida. Por isso, no lugar da implantação de um marca-passo, os eletrodos são atualmente conectados a um grande computador externo, que pode enviar e receber sinais do cérebro. “Tentamos restaurar a função quando ela fica debilitada ou se perde”, detalhou Hampson. Em testes com pessoas com epilepsia, os resultados são promissores. “Observamos uma melhora de 25% a 35% da capacidade de reter informações por cerca de uma a 24 horas. Isso foi observado em pacientes que apresentavam maiores problemas de memória no início do teste.” Possibilidades para o futuro Esta tecnologia, algum dia, poderá ajudar pessoas que sofrem de problemas de memória como Alzheimer, segundo Robert Hampson. Mas será que ela poderia melhorar o cérebro de qualquer pessoa, não só das que sofrem de doenças degenerativas? Hampson acredita que ainda temos muito o que aprender sobre os motivos que levam a memória de algumas pessoas a funcionar melhor do que outras. “Não temos necessariamente informações suficientes para dizer ‘podemos melhorar o cérebro além do normal’”, segundo ele. E é claro que existem obstáculos éticos a considerar, além dos riscos da própria cirurgia cerebral. “A memória é a essência que nos define e a única coisa que não queremos é alterá-la”, conclui Hampson.
Guia orienta sobre mudança no rastreamento do câncer de colo do útero

Fonte: Agência Brasil EBC | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 08/01/2026 Alana Gandra – Repórter da Agência BrasilA Fundação do Câncer lançou nesta quinta-feira (8) nova versão atualizada do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero, como parte do Janeiro Verde, mês de conscientização e prevenção da doença. O guia teve a primeira edição lançada em 2022, quando se falava de vacinação contra o HPV (papilomavirus humano), vírus que afeta a pele e as mucosas – a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo – e o rastreamento com o exame Papanicolau, que utilizava a citologia, método vigente à época. A nova versão do guia visa a orientar profissionais de saúde na transição de rastreamento, que substituirá gradualmente o exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV. “Tanto a vacinação quanto o método de rastreamento receberam muitas mudanças nesse período, principalmente em 2025. Houve uma ampliação para vacinação do público-alvo contra o HPV”, disse a consultora médica da Fundação do Câncer, Flávia Miranda Corrêa. Segundo ela, em relação ao rastreamento foram incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS), em 2024, os testes moleculares (DNA-HPV) para detecção do HPV oncogênico (tipos de HPV com potencial capacidade de causar câncer de colo do útero). A partir de setembro do ano passado, começou o processo de implementação”. O processo de implementação dos testes moleculares para detecção do HPV oncogênico foi iniciado em setembro do ano passado, por meio de um núcleo criado na Secretaria de Atenção Especializada em Saúde, do Ministério da Saúde, e ocorrerá de forma gradativa, disse Flavia Corrêa, doutora em Saúde Coletiva da Criança e da Mulher pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz). Primeiro foram elencados municípios de 12 estados para começar essa implementação baseada. Eles estão em diferentes estágios de evolução desse processo. Agora começaram as conversas com mais 12 estados para ter apoio do ministério e começar a implementação”. Flavia destacou que nos lugares em que o rastreamento molecular (DNA-HPV) não tiver chegado ainda, continuarão valendo as regras baseadas no rastreamento citológico (Papanicolau). O guia atualizado da Fundação do Câncer já incorpora as recomendações das novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, aprovadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que preveem a substituição gradual do exame de Papanicolaou pelo teste de DNA-HPV no SUS. De acordo com o cirurgião oncológico e diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni, enquanto o Papanicolau identifica alterações celulares quando elas já estão presentes, o novo exame molecular detecta a infecção pelo HPV, “ampliando a capacidade de detecção precoce e a efetividade das estratégias de prevenção”. Público alvo Flavia Corrêa informou que o público-alvo do novo exame de rastreamento DNA-HPV continua o mesmo no Brasil, abrangendo mulheres na faixa etária de 25 a 64 anos de idade. Outros países fixaram a idade inicial em 30 anos. Após estudos, o Brasil decidiu manter o que já estava consolidado no país, principalmente para não ter os dois métodos sendo usados concomitantemente em uma mesma unidade de saúde. “As duas técnicas não podem coexistir, porque senão vai haver muita confusão e, inclusive, a possibilidade de serem feitos os dois testes na mesma mulher”, explicou. A periodicidade dos testes também é diferente. Na citologia, ele tem de ser repetido de três em três anos após um resultado negativo, depois de dois resultados negativos feitos no intervalo de um ano. “Os primeiros exames são anuais e, a partir daí, são trienais”. Com o exame molecular (DNA-HPV), mais sensível, sabe-se que 99% das mulheres têm teste negativo, não têm HPV, não têm lesão precursora nem câncer e, por isso, pode-se ampliar o intervalo do rastreamento para cinco anos. Essa diferença é justificada pela maior sensibilidade do teste HPV. Entre as mulheres que tiverem resultado positivo para os tipos mais perigosos e responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo do útero, que são o HPV 16 e 18, em que há mais risco de lesão precursora de câncer, o encaminhamento para exame de colposcopia é imediato. A colposcopia permite, por meio de lentes de aumento, visualizar o colo do útero e a vagina de forma ampliada e detalhada e, com o uso de alguns reagentes, detectar lesões precursoras da doença. Flavia Corrêa disse ainda que além do HPV 16 e 18, existe um grupo de mais dez tipos de HPV, considerados pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) responsáveis por 30% dos casos de câncer de colo de útero. As mulheres com resultado positivo para outros tipos de HPV oncogênico terão a citologia reflexa processada no mesmo material coletado para o teste molecular. Caso a citologia apresente alterações, essas pacientes também serão encaminhadas para colposcopia. Mas se a citologia for normal, se não tiver nenhuma alteração, a paciente repete o teste de HPV em um ano, em vez de cinco anos, porque está em risco intermediário entre a mulher que tem HPV 16 e 18 positivo e aquela que apresenta teste negativo. Pilares O Brasil aderiu à Estratégia Global para a Eliminação do Câncer de Colo do Útero, lançada em 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e assumiu metas até 2030 que incluem vacinar 90% das meninas até 15 anos de idade, rastrear 70% das mulheres com teste molecular e tratar 90% das pacientes diagnosticadas com lesões precursoras ou câncer. Flavia Corrêa destacou que a vacinação das meninas é a forma mais eficaz de prevenir o câncer de colo do útero “porque simplesmente não tendo uma infecção por HPV, o câncer não ocorre. É o que a gente chama de prevenção primária”. Com a pandemia de covid-19 e, nos anos seguintes, com o movimento muito forte antivacina, a cobertura caiu. Agora, o Programa Nacional de Imunização (PNI) faz grande esforço em relação à meta de 2030 e, desde o final do ano passado, com duração prevista até o final do primeiro semestre de 2026, está fazendo o resgate dos adolescentes entre 15 e 19 anos que não foram vacinados até o momento contra o HPV. “Vai ser uma medida muito importante, porque a gente sabe que quanto mais
Como inteligência artificial está ressuscitando estrelas de cinema

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 27/08/2023 A maioria dos atores sonha em construir uma carreira que sobreviva mesmo após a morte. Poucos conseguem – o show business pode ser um lugar difícil para obter sucesso. Mas aqueles que conquistam seu objetivo podem alcançar uma espécie de imortalidade nas telas e além delas. Um dos ícones que conseguiu o feito é o ator de cinema americano James Dean, que morreu em 1955 em um acidente de carro depois de estrelar apenas três filmes, todos muito aclamados. No entanto, agora, quase sete décadas depois de sua morte, Dean foi escalado como estrela de um novo filme chamado Back to Eden (De volta ao Éden, em tradução livre). Um clone digital do ator – criado com tecnologia de inteligência artificial semelhante à usada para gerar deepfakes – caminhará, falará e interagirá na tela com outros atores do filme. A tecnologia está na vanguarda das imagens geradas por computador (CGI) de Hollywood. Mas também é fonte de preocupação para atores e roteiristas que entraram em greve em Hollywood pela primeira vez em 43 anos. Eles temem ser substituídos por algoritmos de IA – algo que eles argumentam que sacrificará a criatividade em prol do lucro. A atriz Susan Sarandon está entre aqueles que falaram sobre suas preocupações publicamente, alertando que a IA poderia fazê-la “dizer e fazer coisas sobre as quais não tenho escolha”. A ressurreição digital de Dean não é o primeiro episódio em que atores falecidos aparentemente voltaram à vida na tela com a ajuda de tecnologia digital avançada e uma pitada da magia de Hollywood. Carrie Fisher, Harold Ramis e Paul Walker são apenas algumas das celebridades notáveis que reprisaram papéis icônicos no cinema postumamente. A cantora brasileira Elis Regina também ressuscitou recentemente para um anúncio da Volkswagen, no qual apareceu fazendo dueto com a filha Maria Rita. Essas aparições na tela representam o que Travis Cloyd, executivo-chefe da agência de mídia imersiva WorldwideXR (WXR), chama de representações de “tela plana passiva, 2D”, semelhantes a deepfakes. Esta é a segunda vez que o clone digital de Dean é escalado para um filme. Em 2019, foi anunciado que ele seria ressuscitado em CGI para um filme chamado Finding Jack (À Procura de Jack, em português), que foi posteriormente cancelado. Cloyd confirmou à BBC, no entanto, que Dean estrelará Back to Eden, um filme de ficção científica em que “uma visita fora deste mundo para encontrar a verdade leva a uma viagem pela América com a lenda James Dean”. A clonagem digital de Dean também representa uma mudança significativa no que é possível. Seu avatar de IA não apenas poderá desempenhar um papel de tela plana em Back to Eden e em uma série de filmes subsequentes, mas também interagir com o público em plataformas interativas, incluindo realidade aumentada, realidade virtual e jogos. A tecnologia vai muito além da reconstrução digital passiva ou da tecnologia deepfake que sobrepõe o rosto de uma pessoa ao corpo de outra. Levanta a perspectiva de os atores – ou qualquer outra pessoa – alcançarem uma espécie de imortalidade que de outra forma teria sido impossível, com carreiras que continuam muito depois de as suas vidas terem terminado. Mas ela também traz à tona alguns pontos controversos. Quem detém os direitos sobre o rosto, a voz e a personalidade de alguém após sua morte? Que controle eles podem ter sobre a direção de sua carreira após a morte – um ator que fez seu nome estrelando dramas corajosos poderia de repente aparecer em uma comédia boba ou mesmo em pornografia? E a imagem pode ser usada para anúncios? E indo ainda além, por que não deixar as celebridades descansarem em paz? O primo de Dean, Marc Winslow, que passou a infância em uma fazenda em Illinois com o ator, a quem ele carinhosamente chama de Jimmy, afirma que é o inegável apelo de seu primo, que transcende gerações, que o tornam uma escolha atraente para um papel grande no cinema moderno. “Se há duas ou três pessoas em uma cena, seus olhos vão direto para ele”, diz ele. “Sabe, não acho que alguém será capaz de substituí-los, mas é possível que eles consigam fazer isso na tela e tornar muito realista.” Clones digitais A imagem de Dean é uma das centenas representadas pela WRX e sua empresa parceira CMG Worldwide – incluindo Amelia Earhart, Bettie Page, Malcolm X e Rosa Parks. Quando Dean morreu, há 68 anos, ele deixou para trás uma coleção robusta de sua imagem em filmes, fotografias e áudio – o que Cloyd do WRX chama de “material de origem”. Cloyd diz que para obter uma representação realista de Dean, inúmeras imagens são digitalizadas, sintonizadas em alta resolução e processadas por uma equipe de especialistas digitais utilizando tecnologias avançadas. Adicione áudio, vídeo e IA e, de repente, esses materiais se tornam os blocos de construção de um clone digital que parece, soa, se move e até responde a comandos como Dean. O que Dean não deixou para trás foi uma pegada digital, ao contrário das celebridades de hoje que se envolvem nas redes sociais, tiram selfies privadas, enviam textos e e-mails, utilizam motores de busca, fazem compras online e compram receitas médicas online. Essas atividades fornecem enormes quantidades de dados sobre como pensamos e agimos que poderiam ser potencialmente utilizados para transformar um clone digital superficial em um inteligente que pode conversar de forma convincente com os vivos. Agora existem até empresas que permitem aos usuários fazer upload de dados digitais de entes queridos falecidos para criar “deadbots” que conversam com os vivos do mundo da morte. Quanto mais material de origem, mais preciso e inteligente será o deadbot, o que significa que os herdeiros das celebridades modernas podem potencialmente permitir que clones convincentes e realistas de seus parentes falecidos continuem trabalhando na indústria cinematográfica – e interagindo de forma quase autônoma – para sempre. Prevendo uma realidade assim para seu futuro, o ator Tom Hanks falou sobre o tema recentemente em um podcast, chamado Adam Buxton Podcast. “Eu poderia ser atropelado por um ônibus amanhã e pronto, mas minhas performances
OMS reconhece o fim da transmissão do HIV de mãe para filho no país

Fonte: Agência Brasil EBC | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 15/12/2025 Anúncio foi feito pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha Fabíola Sinimbú – Repórter da Agência Brasil O Brasil foi reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o maior país do mundo a eliminar a transmissão do HIV de mãe para filho, a chamada transmissão vertical, como problema de saúde pública. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, antecipou o anúncio durante o programa Bom Dia, Ministro, do CanalGov, na sexta-feira (15). Segundo Padilha, o Conselho da Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS) em conjunto com representantes da OMS visitará o Brasil esta semana para a entrega oficial da certificação ao governo brasileiro. “Significa que o Brasil conseguiu eliminar graças ao SUS [Sistema Único de Saúde], aos testes rápidos das unidades básicas de saúde, aos testes do pré-natal, às gestantes que têm HIV tomarem a medicação pelo SUS”, disse Padilha. O ministro lembrou que há algumas décadas o Brasil tinha iniciativas filantrópicas para manutenção de abrigos para órfãos com HIV, que haviam perdido os pais em decorrência da Aids. “Abrigavam aqueles bebês que tinham nascido com HIV e seus pais tinham morrido. A gente não tem mais isso no nosso país, felizmente, nem a transmissão do HIV da gestante para o bebê”, comemorou. Segundo o ministro, o Brasil apresentou um dossiê à organização mundial no mês julho com os dados do SUS no Brasil. Apostas eletrônicas Ao longo do programa, o ministro destacou ainda iniciativas promovidas pela pasta da Saúde como o Observatório Saúde de Apostas Eletrônicas, que reúne uma série de iniciativas de enfrentamento aos riscos à saúde mental associados às apostas eletrônicas. Entre as ações destacadas, Padilha reforçou a disponibilização de uma ferramenta que permite ao cidadão bloquear simultaneamente todas as contas em sites de apostas, por meio do aplicativo Meu SUS Digital. O serviço de teleatendimento psicossocial também será implantado como parte das iniciativas, informou. Segundo o ministro, estudos realizados pela pasta da Saúde apontam que as pessoas se sentem mais à vontade em consultas online com psicólogos e psiquiatras para tratar do assunto. “As pessoas não vão ao Centro de Atenção Psicossocial para isso. Eles têm um número pequeno de atendimentos dessa natureza. Devem chegar, este ano, a 5 mil”, explicou.
Robôs cuidadores e roupas com GPS: as apostas do Japão contra crise de demência entre idosos

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet / Design por Freepik | Data: 08/12/2025 Em 2024, mais de 18 mil idosos com demência deixaram suas casas e desapareceram no Japão. Quase 500 foram encontrados mortos. Segundo a polícia, o número de casos dobrou desde 2012. Pessoas com 65 anos ou mais respondem hoje por quase 30% da população japonesa (do total de quase 124 milhões) — a segunda maior proporção do mundo, atrás de Mônaco, segundo o Banco Mundial. A crise se aprofunda com a queda da força de trabalho e as restrições à entrada de estrangeiros para atuar nos cuidados. O governo japonês trata a demência como uma de suas prioridades. O Ministério da Saúde estima que os gastos de saúde e assistência social ligados à condição chegarão a 14 trilhões de ienes (cerca de R$ 490 bilhões) até 2030, acima dos 9 trilhões de ienes (cerca de R$ 315 bilhões) previstos para 2025. A estratégia mais recente do governo aponta para maior aposta em tecnologia para aliviar a pressão sobre o sistema. Pelo país, multiplicam-se sistemas baseados em GPS para rastrear pessoas que se perdem. Algumas regiões distribuem dispositivos vestíveis que alertam as autoridades assim que alguém ultrapassa uma área delimitada. Em algumas cidades, os funcionários de lojas de conveniência recebem alertas em tempo real, criando uma rede comunitária de proteção que permite encontrar desaparecidos em poucas horas. Robôs cuidadores e IA Outras tecnologias buscam detectar a demência mais cedo. O aiGait, da empresa japonesa Fujitsu, usa inteligência artificial para analisar a postura e os padrões de marcha, identificando sinais precoces de demência, como arrastar os pés ao caminhar, giros mais lentos ou dificuldade em manter-se em pé. O sistema gera esboços esqueléticos que os médicos podem analisar durante exames de rotina. “A detecção precoce de doenças relacionadas à idade é fundamental”, diz Hidenori Fujiwara, porta-voz da Fujitsu. “Se os médicos puderem usar dados de captura de movimento, poderão intervir mais cedo e ajudar as pessoas a se manterem ativas por mais tempo.” Enquanto isso, pesquisadores da Universidade Waseda (Japão) desenvolvem o AIREC, um robô humanoide de 150 kg projetado para ser um cuidador “do futuro”. Ele pode ajudar a calçar as meias, mexer os ovos e dobrar as roupas. Os cientistas esperam que, no futuro, o AIREC possa trocar fraldas geriátricas e prevenir escaras — lesão na pele causada por pressão contínua em pessoas acamadas ou com mobilidade reduzida. Robôs semelhantes já são usados em casas de repouso para tocar músicas para os residentes ou orientá-los em exercícios de alongamentos simples. Eles também monitoram os pacientes à noite — instalados sob os colchões para acompanhar o sono e as condições de saúde — e reduzir a necessidade de rondas humanas. Embora robôs humanoides estejam previstos para o futuro próximo, o professor assistente Tamon Miyake afirma que o nível de precisão e inteligência necessário para interagir com segurança com pessoas ainda exige ao menos cinco anos de desenvolvimento. “É preciso captação completa do corpo e compreensão adaptativa — e como saber se ajustar para cada pessoa e situação”, diz. A inovação também avança no apoio emocional. O Poketomo, um robô de 12 cm, pode ser transportado em uma bolsa ou caber no bolso. Ele lembra os usuários a hora do medicamento, dá instruções sobre o clima em tempo real e conversa com pessoas que vivem sozinhas, o que, segundo seus criadores, ajuda a reduzir o isolamento social. “Estamos focados em questões sociais… e em usar novas tecnologias para ajudar a resolver esses problemas”, afirma Miho Kagei, gerente de desenvolvimento da Sharp, à BBC. Apesar do avanço dos dispositivos, o vínculo humano continua insubstituível. “Os robôs devem complementar, e não substituir, os cuidadores humanos”, diz Miyake. “Embora possam assumir algumas tarefas, seu papel principal é auxiliar tanto os cuidadores quanto os pacientes.” No restaurante Restaurant of Mistaken Orders, em Sengawa, Tóquio, os clientes chegam para ser atendidos por pessoas com demência. O espaço foi fundado por Akiko Kanna. Inspirada pela experiência do seu pai com a doença, Kanna queria criar um lugar onde as pessoas pudessem se manter ativas e ter propósito. Toshio Morita, um dos atendentes do café, usa flores para lembrar quais mesas fizeram cada pedido. Apesar do declínio cognitivo, ele aprecia a interação. Para a esposa, o café oferece alívio e ajuda a manter Morita engajado. O café de Kanna mostra por que intervenções sociais e apoio comunitário continuam essenciais. A tecnologia pode fornecer ferramentas e aliviar a rotina, mas é o engajamento significativo e a conexão humana que sustentam, de fato, quem vive com demência. “Honestamente? Eu queria um dinheirinho extra. Gosto de conhecer pessoas diferentes”, diz Morita. “Cada um é diferente e é isso que torna divertido.” Reportagem adicional de Jaltson Akkanath Chummar
A incrível história do garoto que inventou o sistema Braille

Fonte: BBC Brasil| Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet | Data: 19/11/2025 Num dia de 1812, na comuna de Coupvray, perto de Paris, na França, Louis Braille estava brincando na oficina do pai, que fabricava arreios para cavalos. Aos 3 anos, não era raro que se sentisse atraído por ferramentas de marcenaria e, imitando o que havia visto, pegou uma das mais pontiagudas para “brincar de papai”. Talvez não tenha sido a primeira vez que ele fez isso, e provavelmente haviam dito a ele para não fazer — mas, nesta idade, não se medem as consequências. E, nesta ocasião, aconteceu um acidente que mudaria para sempre sua vida e, alguns anos mais tarde, a de muitas outras pessoas. Enquanto tentava fazer um buraco no couro, a sovela escorregou das mãos dele e perfurou seu olho. O olho ficou infeccionado, e a infecção não apenas evoluiu, como também passou para o outro olho. Aos 5 anos, Louis Braille estava completamente cego. Embora a escola local não oferecesse nenhum programa especial para pessoas com deficiência visual, seus pais tinham clareza que não deviam negar a ele a oportunidade de estudar. Eles o matricularam então e, aos 7 anos, Braille começou a ir para a escola. Como a maior parte do ensino era feita de forma oral, ele acabou sendo um aluno apto. Mas, sem saber ler ou escrever, estava sempre em desvantagem. Finalmente, aconteceu a melhor coisa que poderia acontecer: ele ganhou uma bolsa para estudar no Instituto Nacional para Jovens Cegos (Inja, na sigla em francês), em Paris. Rumo a Paris Braille chegou à capital francesa e ao Inja quando tinha 10 anos. Naquela época, o sistema de leitura usado até mesmo no instituto era muito básico: os poucos livros que haviam eram impressos com letras em relevo, sistema inventado pelo fundador da escola, Valentin Haüy. Isso significava que os alunos tinham que passar os dedos sobre cada letra lentamente, do começo ao fim, para formar palavras e, depois de muito esforço, frases. Em 1821, Charles Barbier, capitão do exército francês, foi ao instituto compartilhar um sistema de leitura tátil desenvolvido para que os soldados pudessem ler mensagens no campo de batalha na escuridão, sem alertar o inimigo com lanternas. Ele se deu conta de que sua “escrita noturna”, como a chamava, poderia beneficiar os cegos. Pontos e linhas, em vez de letras Em vez de usar letras impressas em relevo, a escrita noturna utilizava pontos e traços em relevo. Os alunos experimentaram, mas logo perderam o interesse, uma vez que o sistema não apenas não incluía letras maiúsculas ou pontuação, como as palavras eram escritas como eram pronunciadas, e não na ortografia francesa padrão. Louis Braille, no entanto, persistiu. Pegou o código como base e foi aperfeiçoando. Três anos depois, quando tinha 15 anos, havia completado seu novo sistema. As mudanças A primeira versão de seu novo sistema de escrita foi publicada em 1829. O que ele fez foi simplificar o sistema de Barbier, reduzindo os pontos em relevo. A ideia era que ficassem do tamanho certo para senti-los com a ponta do dedo com um único toque. Para criar os pontos em relevo na folha de papel, ele usou uma sovela, a mesma ferramenta pontiaguda que havia causado sua cegueira. E, para garantir que as linhas ficassem retas e legíveis, usou uma grade plana. Como Braille adorava música, também inventou um sistema para escrever notas. O tempo passou… O mundo da medicina era muito conservador e demorou a adotar a inovação de Braille. Tanto que ele morreu 2 anos antes de finalmente começarem a ensinar seu sistema no instituto em que havia estudado. Faleceu de tuberculose aos 43 anos. Com o passar do tempo, o sistema começou a ser usado em todo o mundo francófono. Em 1882, já estava em uso na Europa. Em 1916, chegou à América do Norte e depois ao resto do mundo. Um sistema adaptável O sistema braille mudou a vida de muitas pessoas cegas ao redor do mundo. Lê-se da esquerda para a direita como outras escritas europeias, e não é uma língua: é um sistema de escrita, o que significa que pode ser adaptado para diferentes línguas. Foram desenvolvidos ainda códigos braille para fórmulas matemáticas e científicas. No entanto, com o advento de novas tecnologias, incluindo leitores de tela para computador, as taxas de alfabetização neste sistema estão diminuindo. Homenagem póstuma Em 1952, em homenagem ao seu legado, os restos mortais de Louis Braille foram desenterrados e transferidos para o Panteão de Paris, onde estão localizados os túmulos de alguns dos mais célebres líderes intelectuais da França. No entanto, Coupvray, sua terra natal, insistiu em ficar com as mãos dele, que estão sepultadas em uma urna simples no cemitério da igreja. A Nasa, agência espacial americana, deu, por sua vez, o nome de “9969 Braille” a um tipo raro de asteroide, um eterno tributo a um grande ser humano. *Este artigo é baseado no vídeo The incredible story of the boy who invented Braille (“A incrível história do menino que inventou o Braille”), da BBC Ideas. Você pode assistir aqui ao vídeo (em inglês). **Este texto foi publicado originalmente em abril de 2022 e republicado em 19 de novembro de 2025
Inteligência artificial já pode ter consciência? O que dizem os cientistas

Fonte: BBC News Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet | Data: 26/05/2025 Entro na cabine com alguma apreensão. A qualquer instante, vou ser exposto a uma luz estroboscópica enquanto uma música toca no fundo, tudo parte de um projeto de pesquisa que tenta entender o que nos torna verdadeiramente humanos. É uma experiência que lembra o teste do filme de ficção científica Blade Runner, criado para distinguir humanos de seres criados artificialmente que se passam por humanos. Será que eu poderia ser um robô do futuro e não saber? Passaria no teste? Os pesquisadores me garantem que não é disso que se trata o experimento. O dispositivo que eles chamam de “máquina dos sonhos” foi projetado para estudar como o cérebro humano gera nossas experiências conscientes do mundo. É como pular em um caleidoscópio, com triângulos, pentágonos e octógonos em constante mudança. As cores são vivas, intensas e em constante mudança: tons de rosa, magenta e turquesa, brilhando como luzes de neon. A “máquina dos sonhos” traz a atividade interna do cérebro à tona com luzes piscantes com o objetivo de explorar como nossos processos de pensamento funcionam. As imagens que vejo são exclusivas do meu mundo interior e únicas para mim, de acordo com os pesquisadores, que acreditam que esses padrões podem lançar luz sobre a própria consciência. Eles me ouvem sussurrar: “É lindo, absolutamente lindo. É como voar pela minha própria mente!” A “máquina dos sonhos”, no Centro de Ciência da Consciência da Universidade de Sussex, é apenas um dos muitos novos projetos de pesquisa ao redor do mundo que investigam a consciência humana: a parte de nossas mentes que nos permite ter autoconsciência, pensar, sentir e tomar decisões independentes sobre o mundo. Ao aprender sobre a natureza da consciência, os pesquisadores esperam entender melhor o que está acontecendo dentro dos cérebros de silício da inteligência artificial. Alguns acreditam que os sistemas de IA em breve se tornarão conscientes de forma independente, se é que ainda não o são. Mas o que realmente é consciência e quão perto a IA está de obtê-la? E a crença de que a IA pode ser consciente pode mudar fundamentalmente os humanos nas próximas décadas? Da ficção científica à realidade A ideia de máquinas com mentes próprias tem sido explorada há muito tempo na ficção científica. As preocupações com a IA remontam a quase cem anos, ao filme Metrópolis, no qual um robô se passa por uma mulher real. O medo de que as máquinas se tornassem conscientes e representassem uma ameaça aos humanos foi explorado no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de 1968, quando o computador HAL 9000 tentou matar astronautas a bordo de sua nave espacial. E no último filme Missão Impossível, que acaba de ser lançado, o mundo é ameaçado por uma poderosa IA desonesta, descrita por um personagem como um “parasita digital autoconsciente, autodidata e devorador de verdades”. No mundo real, contudo, muito recentemente houve uma rápida mudança no pensamento sobre a consciência das máquinas — especialistas começaram a expressar preocupação de que isso não seja mais coisa de ficção científica. A mudança repentina foi motivada pelo sucesso dos chamados grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês), que podem ser acessados por meio de aplicativos como Gemini e Chat GPT. A capacidade da última geração dos LLMs de ter conversas plausíveis e fluidas surpreendeu até mesmo seus criadores e alguns dos principais especialistas da área. Há uma visão crescente entre alguns pensadores de que, à medida que a IA se torna ainda mais inteligente, as luzes se acenderão repentinamente dentro das máquinas e elas se tornarão conscientes. Outros, como o professor Anil Seth, que lidera a equipe da Universidade de Sussex, discordam, descrevendo a visão como “cegamente otimista e motivada pelo excepcionalismo humano”. Associamos consciência à inteligência e à linguagem porque elas andam juntas nos humanos. Mas só porque andam juntas em nós, não significa que andem juntas em geral, por exemplo, nos animais. Então, o que é realmente consciência? A resposta curta é que ninguém sabe. Isso fica claro pelos argumentos bem-humorados, porém robustos, da própria equipe do professor Seth, composta por jovens especialistas em IA, especialistas em computação, neurocientistas e filósofos, que estão tentando responder a uma das maiores questões da ciência e da filosofia. Embora existam muitas visões diferentes no centro de pesquisa da consciência, os cientistas estão unidos em seu método: dividir esse grande problema em muitos outros menores em uma série de projetos de pesquisa, que inclui a “máquina dos sonhos”. Assim como a busca pela “centelha de vida” que poderia dar vida a objetos inanimados foi abandonada no século 19 em favor da identificação de como partes individuais dos sistemas vivos funcionavam, a equipe de Sussex agora está adotando a mesma abordagem para a consciência. Eles esperam identificar padrões de atividade cerebral que expliquem várias propriedades de experiências conscientes, como mudanças em sinais elétricos ou fluxo sanguíneo para diferentes regiões. O objetivo é ir além da busca por meras correlações cerebrais entre atividade e consciência e tentar encontrar explicações para seus componentes individuais. O professor Seth, autor do livro sobre consciência Being You (“sendo você”, em tradução literal), teme que possamos estar nos precipitando em uma sociedade que está sendo rapidamente remodelada pelo ritmo acelerado das mudanças tecnológicas sem conhecimento suficiente sobre a ciência ou reflexão sobre as consequências. “Entendemos isso como se o futuro já estivesse escrito; que há uma marcha inevitável para uma substituição sobre-humana”, diz ele. “Não tivemos essas conversas o suficiente com o surgimento das mídias sociais, para nosso prejuízo coletivo. Mas com a IA, ainda não é tarde demais. Podemos decidir o que queremos.” Já existe consciência na inteligência artificial? Alguns no setor de tecnologia acreditam que a IA em nossos computadores e telefones pode já estar consciente e que, por isso, devemos tratá-la como tal. O Google suspendeu o engenheiro de software Blake Lemoine em 2022 após ele argumentar que chatbots de inteligência artificial podiam sentir e potencialmente sofrer. Em novembro de 2024, um responsável pelo bem-estar da IA da Anthropic, Kyle Fish, foi coautor de um relatório sugerindo que a consciência da
A maratonista de 77 anos que a ciência estuda para entender como envelhecer melhor

Fonte: BBC News Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet | Data: 06/05/2025 “Idade?”, questiona Jeannie Rice, com um sorriso. “A idade é só um número.” Ela havia disputado a maratona de Boston, nos Estados Unidos, dias antes de conversar com a BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. E, agora, ela tem mais três provas à sua frente. Mas, além destes eventos, a atleta de elite de 77 anos de idade tem outro “grande objetivo”. “Espero me manter saudável para, quando tiver 80 anos, ainda conseguir correr uma boa maratona“, afirma ela. Rice já quebrou recordes mundiais na categoria feminina entre 75 e 79 anos, em distâncias que variam dos 1,5 mil metros até a maratona. Ela chegou a superar os homens vencedores em algumas corridas na mesma categoria de idade. Seu desempenho esportivo chamou a atenção de uma equipe de pesquisadores, que pediu a ela que participasse de um estudo científico. “O incrível nos seus dados é que seu VO2 máximo, provavelmente, é mais alto do que o de mulheres de 25 anos”, segundo o pesquisador Michele Zanini, da Faculdade de Esportes, Exercícios e Ciências da Saúde da Universidade de Loughborough, no Reino Unido. O VO2 máximo é a maior quantidade de oxigênio que pode ser absorvida, usada e transportada pelo corpo ao realizar uma atividade física. Ele é considerado indicador do rendimento aeróbico. Zanini é um dos autores do estudo. Ele conta que Rice passou por uma série de testes, seis dias depois de participar da maratona de Londres, em 2024. “Ela havia acabado de bater o recorde mundial na sua categoria”, explica o pesquisador. “Por isso, foi um momento muito bom para que entendêssemos como seu corpo se desenvolve.” Os pesquisadores se concentraram nos “fatores fisiológicos determinantes do rendimento excepcional” da atleta. Mas Rice garante que não se sente diferente dos demais corredores. Correndo há mais de 40 anos Rice nasceu na Coreia do Sul e emigrou para os Estados Unidos. Ela tem dois filhos, um com 52 e outro com 50 anos de idade. A atleta começou a correr quando tinha 35 anos, para perder alguns quilos que havia ganhado nas férias. “Comecei a trotar em volta da quadra, até que, sem perceber, estava correndo distâncias cada vez mais longas.” Primeiro, foram 3,4 km, depois 8 km. Rice decidiu entrar em um clube de corredores da sua comunidade. Junto com eles, ela treinou e se inscreveu na sua primeira corrida: a maratona de Cleveland, nos Estados Unidos, em 1983. “Corri em 3 horas e 45 minutos”, relembra ela. “Ali, fiquei sabendo que poderia fazê-lo e, por isso, comecei a treinar um pouco mais forte.” Depois, veio a maratona de Columbus, no Estado americano de Ohio. Rice completou a prova em 3 horas e 16 minutos, garantindo sua classificação para a maratona de Boston. “Ali, me apaixonei. Desde então, não parei de correr maratonas”, ela conta. Seus triunfos se traduziram em cada vez mais corridas, dentro e fora dos Estados Unidos. “Não se tratava mais de correr em uma prova”, segundo ela, “mas também da emoção de viajar para outro país.” O primeiro recorde mundial Rice já correu mais de 130 maratonas. Ela conta que estabeleceu seu primeiro recorde mundial com 70 anos de idade, na maratona de Chicago, em 2018. “O recorde anterior tinha cinco anos”, relembra ela, “e bater aquela marca foi muito importante para mim.” “Em 2019, fui a Berlim [na Alemanha] e quebrei meu próprio recorde em três minutos: 3 horas e 24 minutos. Tenho certeza de que alguém logo irá batê-lo.” Rice estabeleceu este recorde na categoria de 70 a 74 anos de idade. Em 2023, na maratona de Chicago, nos Estados Unidos, ela conseguiu um novo recorde na categoria de 75 a 79 anos. “E, no ano passado, bati o recorde da maratona de Londres”, ela conta. Agora, Rice tem em vista a maratona de Sydney, na Austrália, que irá ocorrer em agosto. “Estou trabalhando para tentar quebrar meu próprio recorde.” Toda semana, ela corre cerca de 80 km, em um regime de treinamento de seis dias por semana. “Estou sempre pronta porque corro ao longo de todo o ano”, ensina Rice. Quando a ciência bate à porta O campeão da maratona de Boston de 1968, Amby Burfoot, é reconhecido como especialista nesta questão. Sua vasta experiência como corredor da maratona é complementada pela sua carreira como escritor e jornalista. “Observamos as atuações de Jeannie e ela correu mais rápido que qualquer outra mulher de 75 anos [de que se tenha registro]”, declarou ele à BBC. Burfoot entrou em contato com o professor de Nutrição e Ciências do Desenvolvimento Bas Van Hooren, da Universidade de Maastricht, na Holanda. “Ele me recomendou que analisasse Jeannie, porque sabe que fiz estudos com homens atletas da categoria máster”, contou Van Hooren à BBC News Mundo. “Ele me disse que ela também está quebrando recordes mundiais nesta divisão e me pareceu muito interessante, já que não havíamos realizado estudos com mulheres.” Quando soube que Rice viajaria para Londres, o pesquisador ligou para seu colega Michele Zanini e eles fizeram contato com a atleta. “Fiquei muito lisonjeada quando eles me pediram para participar”, relembra Rice. Ela tinha 76 anos na época do estudo. “Explicamos o que pretendíamos fazer e o que poderíamos oferecer, em termos de ideias para treinar melhor, que é o que você normalmente obtém depois de passar por um teste fisiológico”, relembra Zanini. Mas este estudo vai muito além de Rice. Seu rendimento também esclarece como podemos envelhecer de forma saudável. No laboratório Os pesquisadores pediram à atleta que corresse em uma máquina, “como faz habitualmente” durante seus treinamentos. Zanini destaca que eles se concentraram principalmente em medir sua capacidade aeróbica e calcular seu rendimento. “Tudo é feito em função de três parâmetros observados na absorção máxima de oxigênio, ou seja, na quantidade máxima de oxigênio que uma pessoa pode utilizar”, explica Zanini. “Isso nos permite avaliar a economia do exercício e a economia da corrida, ou seja, como esse oxigênio se traduz em velocidade e nos limites fisiológicos.” Em outras palavras, quanto
As pessoas que ‘enxergam’ línguas estrangeiras

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet | Data: 13/04/2025 O nome da minha mãe é da cor do leite. As cordas de uma guitarra acústica, quando dedilhadas, tocam o amarelo forte do favo de mel. O som é plano, duro ou macio. E segunda-feira é cor-de-rosa. Estas sensações são sempre as mesmas e estão sempre presentes. Trata-se da sinestesia – no meu caso, sinestesia grafema-cor, sinestesia som-cor e sinestesia auditiva-tátil. Como ocorre com muitas pessoas sinestésicas, descobri ainda jovem que eu tinha talento para a música e os idiomas. Na música, eu não me destacava no ato físico de me apresentar, mas sim na composição. Eu me tornei compositora para filmes curtos e dança teatral, além de editora de sons para televisão. Para mim, escrever música se parecia muito com um idioma, já que eu “via” as cores dos sons de forma parecida. Também estudei francês, alemão, espanhol e linguística – e a cor dos idiomas me ajuda a lembrar as palavras e os padrões gramaticais. A sinestesia é um fenômeno neurológico que faz com que cerca de 4,4% das pessoas vivenciem o mundo como uma cacofonia de sensações. Foram identificados cerca de 60 tipos diferentes de sinestesia, mas pode haver mais de 100 e alguns tipos são vivenciados de forma conjunta. Acredita-se que esta condição seja causada por características genéticas hereditárias que afetam o desenvolvimento estrutural e funcional do cérebro. O aumento da comunicação entre regiões sensoriais do cérebro significa, por exemplo, que as palavras podem estimular o paladar, sequências de números podem ser percebidas em disposições espaciais ou a sensação das texturas pode desencadear emoções. A sinestesia não é considerada um distúrbio neurológico. Ela está relacionada a condições de saúde mental e desenvolvimento neurológico, incluindo autismo, ansiedade e esquizofrenia. Mas ela é descrita como “realidade perceptiva alternativa”, geralmente considerada benéfica. “Quando eu era mais jovem, sabia que observava o mundo de um jeito diferente e minha forma de descrever aquilo para os outros era ‘colorida’”, conta Smadar Frisch. Frisch tem sinestesia grafema-cor, sinestesia som-cor e sinestesia léxico-gustativa, que faz as palavras terem sabor. Ela explora o mundo dos sentidos no seu podcast, Chromatic Minds (“Mentes cromáticas”, em tradução livre). E, no momento, está escrevendo seu primeiro livro sobre o tema. “Aprender na escola era demais para mim, em termos sensoriais”, ela conta. “É muito difícil tentar solucionar uma equação quando toda a coloração de uma série de números era uma explosão psicodélica.” Este jato de cores, segundo Frisch, pode fazer com que ela perca o foco e esqueça o que está fazendo. “[Era o] mesmo com a linguagem”, ela conta. “As cores, músicas e sensações de paladar das palavras me inflamavam e eu queria tanto me expressar, que perdia o foco.” Somente quando havia quase terminado o ensino médio, ela conheceu o livro de Richard Cytowic e David Eagleman, Wednesday is Indigo Blue (“Quarta-feira é azul índigo”, em tradução livre). “Minha ideia inicial era que quarta-feira, na verdade, é laranja”, conta Frisch. “E eu precisava conseguir este livro.” Para ela, foi uma reviravolta. “Finalmente compreendi como o meu cérebro sinestésico é ligado e conectado. E pensei comigo mesma como este fenômeno é incrível. Posso usar as cores para me ajudar a aprender, em vez de me confundir.” Frisch desenvolveu um sistema de codificação por cores para ajudá-la a aprender novos idiomas de forma rápida e fluente. Estudar idiomas não parecia mais algo confuso, mas sim “organizado”, segundo ela. “E funcionou! Meu mundo inteiro mudou. Fui aprender aquilo em que o meu cérebro estava destinado a se destacar: idiomas.” Frisch conta que conseguiu aprender francês e espanhol até chegar ao nível avançado em apenas dois meses. “Tive nota 90+ em cada exame [de francês e espanhol]”, afirma ela. Estes exames fizeram parte do seu Te’udat Bagrut, a qualificação obtida em Israel ao término do ensino médio. Frisch conta que, atualmente, sabe falar sete idiomas com fluência – e que pode aprender qualquer idioma que quiser, “sem dificuldade e em pouco tempo”. Julia Simner é diretora do laboratório de Pesquisa sobre Sinestesia Multissensorial da Universidade de Sussex, no Reino Unido. Ela e sua equipe examinaram cerca de 6 mil crianças com seis a 10 anos de idade. “Selecionamos cada um individualmente para determinar a sinestesia e, em seguida, oferecemos [a eles] uma bateria de testes para determinar quais técnicas são favorecidas por esta particularidade”, explica ela. O estudo concluiu que as crianças com sinestesia obtiveram melhores resultados em uma série de técnicas do que as crianças que não vivenciam o fenômeno. E estas técnicas, segundo Simner, “certamente auxiliam o aprendizado do primeiro e segundo idiomas”. “Especificamente, elas apresentaram desempenho significativamente melhor em vocabulário receptivo (quantas palavras elas conseguiam entender), vocabulário produtivo (quantas palavras elas sabiam dizer), armazenamento de memória de curto prazo, atenção aos detalhes e criatividade”, afirma ela. “Estas técnicas relacionadas à sinestesia indicam que podemos esperar que o aprendizado de um segundo idioma seja mais fácil para alguém com sinestesia.” Simner explica que ter cores sinestésicas torna as letras mais fáceis de serem memorizadas. E as cores da sinestesia podem passar de um idioma para outro, fazendo com que as palavras no segundo idioma também sejam memorizadas com mais facilidade. “Essas cores podem migrar entre os idiomas pela aparência ou pelo som das letras”, explica Simner. “É como se a cor se transferisse de um idioma para outro.” Caleidoscópio de palavras Em 2019, outro experimento liderado pelos psicólogos da Universidade de Toronto, no Canadá, descobriu a sinestesia grafema-cor. Nela, cada letra ou número possui sua própria cor distinta, fornecendo uma vantagem significativa de aprendizado estatístico – a possibilidade de que a pessoa “veja” padrões, o que é uma capacidade fundamental para o aprendizado de idiomas. Os pesquisadores pediram aos participantes que ouvissem um conjunto de palavras sem sentido, como “mucá” e “beô”. Elas representavam um idioma “artificial”. Em seguida, eles ouviram um segundo conjunto de palavras, que incluía as palavras artificiais originais e novas palavras artificiais que representavam um idioma “estrangeiro”. E foi pedido aos participantes que diferenciassem as “palavras” de cada um dos dois idiomas artificiais. “Não havia significado”, explica a psicóloga Amy Finn, diretora
O estudo pioneiro que tenta ‘desligar’ a artrite reumatoide

Fonte: Correio Braziliense | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet | Data: 27/03/2025 Ao ‘retreinar’ as células do sangue, os cientistas acreditam que são capazes de ‘desligar’ a artrite reumatoide. Pacientes estão participando de um ensaio clínico que os cientistas esperam que possa levar à cura da artrite reumatoide. O estudo AuToDeCRA-2 busca provar que é possível treinar “comandantes” de glóbulos brancos — chamados de “generais” do sistema imunológico — para ordenar que outras células “soldados” parem de atacar tecidos saudáveis. O professor de reumatologia clínica John Isaacs, que estuda a condição há 35 anos e está liderando a pesquisa, acredita que isso poderia tornar possível “desligar” a artrite reumatoide. Participante do estudo, Carol Robson, de Jarrow, na Inglaterra, diz que a pior parte de viver com a doença é a dor — mas se a pesquisa ajudar a aliviar o sofrimento, “vai ser maravilhoso”. O estudo, financiado pela instituição beneficente Versus Arthritis e pela Comissão Europeia, está sendo conduzido pela Universidade de Newcastle e pelo Hospital Universitário de Newcastle. “É pioneiro”, afirma Isaacs, que dá aula na Universidade de Newcastle. “Há apenas um ou dois outros grupos no mundo fazendo um trabalho semelhante.” Treinar ‘generais’ para manter a calma Neste estudo mais recente, agora em sua segunda fase, determinadas células são isoladas do sangue de um paciente. Isaacs explica que há diferentes tipos de células que se unem, como um Exército de soldados, para atacar uma infecção ou doença. Elas recebem instruções dos glóbulos brancos conhecidos como células dendríticas, às quais ele se refere como os “generais” do sistema imunológico. Quando estes generais percebem o perigo, ficam agitados e enviam o sinal de ataque, mas quando não há perigo detectado, eles permanecem calmos, e instruem o Exército a ignorar os tecidos saudáveis. Quando isso dá errado, causa doenças como a artrite reumatoide. Ao longo de uma semana, os glóbulos brancos do paciente são cultivados em laboratório e treinados para se parecerem com os generais “calmos”, de modo que, quando devolvidos ao paciente, eles comandam os soldados para que parem de atacar suas articulações. “Com o tempo, este tratamento pode proporcionar benefícios significativos para as pessoas que sofrem de artrite reumatoide, ‘desligando’ a doença”, explica Isaacs. Entre as cerca de 450 mil pessoas na Inglaterra que vivem com a condição, está a ex-enfermeira Robson, de 70 anos. Ela acorda todas as manhãs com dor. Antes de ser diagnosticada, ela colocava as mãos em pacotes de ervilhas congeladas na tentativa de encontrar algum alívio. Atualmente, ela toma medicamentos imunossupressores, que, segundo ela, ajudam um pouco, mas desde que recebeu a injeção de glóbulos brancos “treinados”, acredita que está sentindo menos dor. “Será que é por que eu quero muito que funcione? Mas, realisticamente, acho que está melhor”, diz ela. “Se este estudo conseguir ‘desligar’ a artrite reumatoide, vai ser maravilhoso.” “É um privilégio fazer parte de algo que é, na verdade, um grande avanço — se der certo.” O resultado da pesquisa em Newcastle está sendo amplamente monitorado, à medida que pode ter implicações enormes para os 18 milhões de pacientes com artrite reumatoide ao redor do mundo. Isaacs afirma que, se for bem-sucedido, o estudo também pode ter implicações para outras doenças autoimunes, como diabetes ou esclerose múltipla. “Trata-se de uma área de pesquisa que descrevemos como reeducação do sistema imunológico.” Os dois primeiros ensaios clínicos são pequenos — no total, cerca de 32 pacientes foram envolvidos — e mais pesquisas são necessárias, mas se apresentar sinais de sucesso, outro estudo maior será realizado. Mesmo que tudo saia como planejado e o tratamento demonstre reeducar o sistema imunológico, ainda pode levar de cinco a dez anos para que os pacientes tenham acesso a ele. Mas Isaacs, que dedica sua carreira à condição, afirma que ele e sua equipe ficariam imensamente orgulhosos por terem desenvolvido o tratamento.

