Artemis II: Saiba que horas é o lançamento; CNN Brasil transmite ao vivo

Fonte: CNN | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 01/04/2026 Missão está marcada para o dia 1º de abril, às 19h25 do horário de Brasília, e terá transmissão ao vivo da CNN Brasil; operação marca retorno dos astronautas ao espaço profundo após mais de 50 anos Vitor Bonets, colaboração para a CNN Brasil, em São Paulo – 01/04/26 A missão Artemis II, que marca o retorno dos astronautas ao espaço profundo após mais de 50 anos, está na fase final de preparativos para a decolagem rumo à orbita lunar. A nova previsão oficial da Nasa para o lançamento é dia 1º de abril, às 19h25 do horário de Brasília, e terá transmissão ao vivo da CNN Brasil.  As equipes da Nasa, que atuam no Centro Espacial Kennedy, na Flórida (EUA), já preparam o foguete SLS (Space Launch System), de 98 metros, e a nave espacial Orion para o lançamento tripulado. Na CNN Brasil, o lançamento será transmitido ao vivo durante os jornais Hora H, com Thais Heredia, e CNN Prime Time, apresentado por Márcio Gomes. Além disso, o público pode acompanhar a missão Artemis II por outros canais oficiais, como o da Nasa, que terá transmissão do lançamento pela plataforma Nasa+, com início previsto para às 13h50. A cobertura continuará no YouTube após a abertura dos painéis solares da Orion no espaço. O que está em jogo na missão Mais de 50 anos após a última vez que o ser humano pisou na Lua, em 1972, com o programa Apollo, a Artemis II se prepara para dar novos passos rumo ao satélite natural da Terra. A missão da Nasa será a primeira viagem tripulada do novo programa e deve marcar o retorno dos astronautas ao espaço profundo. O lançamento está previsto para ocorrer no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, e levará quatro astronautas em uma viagem de aproximadamente 10 dias. A espaçonave Orion, lançada pelo foguete SLS, fará um sobrevoo ao redor da Lua antes de retornar à Terra. A missão não prevê pouso, mas funciona como um teste essencial para futuras etapas do programa, que têm como objetivo levar novamente humanos à superfície lunar. Durante o voo, a Nasa vai testar sistemas fundamentais, como suporte à vida, duração do oxigênio e desempenho da cápsula com tripulação a bordo. A expectativa é que a Artemis II leve o ser humano ao ponto mais distante já alcançado no espaço em uma missão tripulada, ao contornar a órbita lunar. Especialistas apontam que a missão também pode abrir caminho para novas descobertas científicas sobre o ambiente da Lua. A tripulação da missão também marca um avanço em diversidade. O comandante será Reid Wiseman, acompanhado pelo piloto Victor Glover — que pode se tornar o primeiro astronauta negro a viajar em direção à Lua —, além de Christina Koch, que será a primeira mulher em uma missão lunar, e o canadense Jeremy Hansen. O nome Artemis faz referência à mitologia grega e estabelece um paralelo com o programa Apollo — Artemis é irmã gêmea de Apolo.

O elemento químico que mudou a história da saúde mental

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 03/03/2026 Em julho de 1968, quando Walter Brown começou sua especialização em psiquiatria na Universidade Yale (EUA), sua primeira missão foi evitar que “Mr. G” se reunisse com o então presidente americano. Mr. G era um paciente que havia passado 17 anos internado em hospitais psiquiátricos, ora imobilizado por uma depressão suicida, ora com uma euforia que o fazia imaginar um encontro com o mandatário do país. “Diversas vezes por semana, Mr. G corria em direção à porta. Três enfermeiras e eu precisávamos arrastá-lo para um quarto de reclusão, onde, enquanto eu lutava com ele, uma delas aplicava um sedativo”, escreveu Brown no seu livro Lithium: a Doctor, a Drug and a Breakthrough (Lítio: um médico, uma droga e um avanço, em tradução livre). O paciente tinha psicose maníaco-depressiva ou transtorno bipolar. Seu prognóstico não era nada animador, mas, dois anos depois, Brown voltou a se encontrar com Mr. G. Agora, ele vivia por conta própria, fora dos hospitais e trabalhava em um supermercado. E ainda se lembrava, com uma mescla de assombro e vergonha, do seu desejo de se encontrar com o presidente americano. Um novo medicamento havia estabilizado suas mudanças de humor: o lítio. Ali nasceu o interesse do psiquiatra por aquele metal alcalino e, sobretudo, pelo homem que o transformou na primeira droga psiquiátrica: o médico australiano John Cade. Do Big Bang até a febre do lítio O lítio vem sendo chamado no século 21 de “ouro do futuro”, devido ao seu uso em baterias de produtos eletrônicos e na indústria de veículos automotores. A busca de fontes alternativas de energia para substituir os combustíveis fósseis fez disparar uma corrida pelo lítio, encontrado em grandes quantidades nas salinas de Bolívia, Chile e Argentina. Mas o lítio — o mais leve dos metais — é nosso companheiro desde tempos imemoriais. Os cientistas acreditam que o lítio seja um dos três elementos criados com o Big Bang (origem do universo), ao lado do hidrogênio e do hélio. São eles que ocupam os três primeiros lugares da tabela periódica, que todos nós estudamos nas aulas de química. Em seu livro sobre a tabela periódica, James Russell afirma que os registros do uso terapêutico do lítio remontam ao século 2 d.C., quando o médico grego Sorano de Éfeso recomendava banhos em cachoeiras de águas alcalinas para as pessoas que sofriam de “manias e melancolia”. Em meados do século 20, o lítio voltaria a ser fundamental para o tratamento desses dois estados — “muito para cima” e “muito para baixo”. Para Walter Brown, dois aspectos são fundamentais nessa história: as características da psiquiatria até a conversão do lítio em produto farmacêutico e o contexto que levou à descoberta de John Cade em 1949. “Até aquele momento, não havia drogas para a saúde mental. As pessoas usavam opioides e às vezes recebiam estimulantes ou sedativos. O lítio foi a primeira oportunidade de tratamento eficaz dos sintomas de uma doença psiquiátrica”, declarou Brown à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC. Os tratamentos para a depressão maníaca e outras condições de saúde mental incluíam internações em hospitais psiquiátricos, onde era possível desde induzir o coma com uma dose de insulina até sedar o paciente para terapias de sono profundo. Também eram aplicados choques elétricos e, nos anos 1940 e princípio dos anos 1950, foi muito utilizada a lobotomia (retirada de uma parte do cérebro). John Cade era um psiquiatra jovem e desconhecido. Veterano da Segunda Guerra Mundial, ele trabalhava em um hospital de Melbourne, na Austrália, sem treinamento formal, sem bolsa de estudos e sem colaboradores. Seu laboratório ficava na cozinha do hospital. Há quem diga que sua descoberta ocorreu por acaso, mas Brown não concorda totalmente com essa avaliação. “Em parte do processo, ele teve sorte”, afirmou Brown. “Ele começou a administrar sais de lítio a cobaias e percebeu que elas ficavam relaxadas. Mas é preciso dar-lhe crédito porque ele observou essa reação e imaginou que poderia funcionar com as pessoas, com pacientes maníacos. Dar este salto, para mim, é muito intuitivo e reflete sua capacidade de observar sem preconceitos.” Eduard Vieta, chefe de serviços de psiquiatria e psicologia do Hospital Universitário de Barcelona, na Espanha, afirmou à BBC News Mundo que, embora hoje nos pareça lógico, a revolucionária ideia de Cade de que seria possível tratar as doenças mentais com medicamentos não era assim tão óbvia 70 anos atrás. “Ele formulou uma hipótese, que por fim se demonstrou ser falsa, de que o ácido úrico poderia desempenhar um papel chave (nos tratamentos)”, segundo Vieta. “Como os ácidos não são estáveis como medicamentos, é preciso constituí-los na forma de sal para que possam ser consumidos. Aqui entra em jogo o lítio. Ele misturou lítio ao ácido úrico, criando urato de lítio. Quando administrou essa solução às cobaias, ele observou que elas se tranquilizavam.” Quando Cade administrou urato de lítio aos pacientes, ele comprovou uma melhora — mas a atribuiu ao ácido úrico e não ao lítio. “Mas, depois, ao testar outros sais, não obteve o mesmo resultado. Ele foi inteligente e deduziu que havia sido o lítio que havia melhorado seus pacientes”, acrescentou Vieta. Lítio no sangue Walter Brown disse que sua ideia era escrever uma biografia de Cade. “Mas na pesquisa fiquei sabendo, por exemplo, que o próprio Cade havia suspendido seu trabalho porque seus pacientes ficavam doentes. E outras pessoas assumiram seu lugar. Decidi então escrever a história de uma descoberta científica, de pessoas que aprenderam com outras pessoas”, afirmou. Embora os 10 pacientes iniciais de John Cade tenham demonstrado melhoras em sua saúde mental, alguns deles sofreram severas intoxicações com muita rapidez. O próprio Cade achava que o lítio era perigoso e não deveria ser receitado. Mas outros médicos na Austrália, como Edward Trautner, comprovaram que era possível medir a quantidade de lítio no sangue dos pacientes e assim evitar a intoxicação. Segundo o presidente da Sociedade Argentina de Psiquiatria, Ricardo Corral, existe uma “janela terapêutica” entre um limite mínimo (no qual o lítio não é eficaz) e um máximo (em

O que são os ‘cristais de memória’ que desafiam leis da física e prometem solucionar o problema do armazenamento de dados

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 11/03/2026 Durante uma visita ao Japão em 1999, o pesquisador Peter Kazansky encontrou um fenômeno físico misterioso. Agora, ele acredita que esta seja a chave para o futuro do armazenamento de dados. No laboratório de optoeletrônica da Universidade de Kyoto, os cientistas testavam como escrever em vidro usando lasers ultrarrápidos de femtossegundos. Eles emitem um pulso de luz a cada quadrilionésimo de segundo. Mas eles observaram algo incomum na forma em que a luz trafegava através do vidro tratado com laser. A dispersão de Rayleigh é um efeito bem conhecido. Ela descreve como pequenas partículas refletem a luz branca em todas as direções — o que explica, entre outras coisas, por que o céu parece ser azul. Mas, neste caso, a luz não se refletia conforme o esperado. “Foi difícil explicar”, afirma Kazansky, professor de optoeletrônica da Universidade de Southampton, no Reino Unido. Ele trabalhava em colaboração com os pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão. “Nós observamos a luz se dispersar de uma forma que parecia desafiar as leis da física.” A desconcertante observação acabou provocando “um autêntico momento Eureka”, segundo Kazansky. Imagine que você sustente um grosso pedaço de cristal contra a luz e observe como a luz é refletida em muitas direções. Com a técnica do laser, os pesquisadores de Kyoto criaram acidentalmente pequenos orifícios que tinham esta mesma propriedade. Cerca de mil vezes menores que a espessura de um cabelo humano, esses “redemoinhos” de luz são tão minúsculos que acabam sendo imperceptíveis para o olho humano. Mas logo ficou claro para os cientistas que seu potencial era transformador. “Esta foi a primeira prova de que podemos usar a luz para imprimir padrões complexos dentro de materiais transparentes, em escala menor que o comprimento de onda da luz”, explica Kazansky. Agora, 27 anos depois, espera-se que aquela descoberta possa ajudar a resolver um dos problemas mais graves da nossa era da informação: o armazenamento massivo de dados. O nosso problema com dados Na era da internet, da inteligência artificial, das casas inteligentes e do capitalismo de vigilância, existe algo que simplesmente não paramos de produzir: dados. A empresa de análises IDC prevê que, até 2028, geraremos coletivamente 394 trilhões de zettabytes de informações todos os anos (um zettabyte equivale a um trilhão de gigabytes). Toda vez que fazemos qualquer coisa na internet, como assistir a um vídeo no YouTube, enviar um e-mail ou fazer uma pergunta a um chatbot de IA, cadeias de pontos de dados saem em disparada rumo ao ciberespaço. A ideia de que os dados “pesam pouco” é enganosa. Nós imaginamos as informações viajando de forma etérea por cabos submarinos ou flutuando suavemente “na nuvem”. Mas, na verdade, elas exigem enormes recursos físicos, cuja demanda está se tornando insaciável. Os centros de dados consomem quantidades massivas de eletricidade, água e materiais. E seu crescimento exponencial nos obriga a buscar alternativas radicais. Este dilema vem impulsionando soluções inovadoras. E uma delas é a proposta de Kazansky de gravar dados por meio de lasers. Outras opções, como a armazenagem de informações em DNA, também estão sendo exploradas por cientistas e empresas como a Microsoft. Os dados são processados e alojados em centros de dados — estruturas gigantescas, quase alienígenas, repletas de filas de servidores de mais de dois metros de altura, que piscam sem intervalos. Essas caixas vibrantes de hardware e cabos devoram energia, tanto para alimentar sua capacidade de computação quanto para os enormes sistemas de refrigeração necessários para evitar que elas se incendeiem. Aliás, um centro de dados não é um lugar agradável para se trabalhar. Quente e ensurdecedor, ele só é adequado para pessoas que conseguem “suportar muitas dores”, segundo uma pesquisa da revista americana The New Yorker em 2025. Em escala global, os centros de dados representam cerca de 1,5% da demanda mundial de eletricidade. Projeções indicam que seu consumo irá duplicar até 2030, quando também poderão gerar 2,5 bilhões de toneladas de emissões de CO₂. Este número equivale a cerca de 40% de todas as emissões anuais dos Estados Unidos. A recente expansão da IA generativa agravou a situação. Ela aumentou drasticamente a demanda por sistemas de computação de alto rendimento, que consomem quantidades colossais de energia e emitem nuvens intensas de calor. A maior parte da energia consumida pelos centros de dados é gasta com “dados quentes”: informações que devem estar disponíveis instantaneamente para acesso rápido e atualizações frequentes. Exemplos são transferências de dinheiro entre contas bancárias e documentos online editados regularmente. Mas a maioria dos dados do mundo não é deste tipo. Até cerca de 80%, na verdade, são “dados frios”: informações de que ninguém necessita imediatamente e que, quando são necessárias, as pessoas estão dispostas a esperar minutos ou até dias para obtê-las. Eles incluem dados de conformidade, como registros financeiros ou processos de auditoria, que bancos e outras empresas devem conservar indefinidamente. Também entram nesta categoria as cópias de segurança dos e-mails ou fotos antigas, além de dados de arquivo. Mas a armazenagem destes dados apresenta problemas. A maior parte deles é atualmente armazenada em discos rígidos, dentro de centros de dados. Eles devem permanecer ligados para que as informações possam ser recuperadas, o que exige energia e sistemas de refrigeração. Outra solução cada vez mais popular é a fita magnética. Ela é armazenada nas próprias instalações do centro de dados ou em bibliotecas de fitas especializadas. As fitas devem ser mantidas sob temperaturas de 16 a 25 °C, o que também implica consumo de energia para manter suas condições ideais. Além disso, elas precisam ser substituídas a cada 10 a 20 anos devido à sua degradação. Neste momento, a fita antiga é descartada como resíduo. O enorme aumento da produção de dados impulsionou forte demanda por fitas magnéticas nos últimos anos. ‘Cristais de memória’ Tudo isso faz com que a busca de soluções alternativas seja cada vez mais urgente. E Kazansky está adotando um enfoque inovador sobre este problema. Nos anos que se seguiram àquela primeira revelação na Universidade de Kyoto, ele descobriu que os

A tecnologia pode fazer cérebro funcionar melhor?

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 17/01/2026 Você tem uma longa lista de compras que precisa recordar? Ou os nomes dos convidados para uma reunião importante? Existem truques de memória que usamos para treinar o cérebro, para que ele funcione melhor. É o chamado método “software”, para melhorar nossa capacidade mental. Mas será que poderíamos também usar o hardware, ou seja, dispositivos que fornecem impulsos elétricos ao cérebro? Até o momento, esta tecnologia foi desenvolvida para ajudar a restaurar as funções cerebrais em certas condições neurológicas. Um exemplo é a estimulação cerebral profunda (ECP), uma técnica complexa, utilizada por muitos anos para tratar de pessoas com transtornos de movimento, como a Doença de Parkinson. Marca-passo para o cérebro A professora Francesca Morgante, da Universidade City St George de Londres, observou o impacto da ECP em seus pacientes. “Ela é considerada para pessoas cuja medicação não consegue controlar os sintomas”, declarou a professora ao programa de rádio CrowdScience, do Serviço Mundial da BBC. O Parkinson causa a morte das células produtoras do mensageiro químico dopamina. A dopamina é necessária para sinalização nas partes do cérebro que controlam os movimentos corporais. Sem dopamina em quantidade suficiente, as pessoas que sofrem de Parkinson podem ter sintomas como tremores, rigidez e lentidão de movimentos. A doença piora com o tempo e, até o momento, não tem cura. A ECP consiste em implantar cirurgicamente um gerador de pulsos embaixo da pele, geralmente pouco abaixo da clavícula. Ele é conectado a cabos ou eletrodos que são inseridos nas regiões do cérebro afetadas, para estimulá-las com uma pequena corrente elétrica. O dispositivo age como um marca-passo do cérebro, segundo Morgante, ajudando a restabelecer a sinalização cerebral normal. Não há uma solução única para todos A estimulação cerebral profunda pode ajudar a aliviar alguns dos sintomas de Parkinson, mas nem sempre é eficaz. As formas com que a vasta rede de neurônios envia sinais elétricos entre si são complexas e, até o momento, não são totalmente compreendidas. “Existem muito mais sintomas do que apenas tremores e problemas de mobilidade”, explica Lucia Ricciard, também da Universidade City St George de Londres. “Eles incluem sintomas como depressão, ansiedade, falta de motivação, problemas de memória e dificuldades para dormir.” Ela destaca que os estudos indicam que a estimulação cerebral profunda também pode ajudar a aliviar alguns destes sintomas, como a depressão e a ansiedade, mas é preciso realizar mais pesquisas a respeito. Existem também considerações individuais. Cada cérebro é altamente complexo e único e, por isso, não existe uma solução única que sirva para todos. Os cabos implantados e empregados na ECP consistem de diversos segmentos independentes, conectados a diferentes neurônios. Os especialistas precisam determinar quais segmentos devem ser estimulados para conseguir maior impacto sobre os sintomas do paciente. “Para tomar a decisão de qual segmento ativar e com qual parâmetro em termos de frequência, amplitude e pulso, existem muitos aspectos que devem ser considerados”, afirma Ricciard. Este processo de calibragem personalizada, tradicionalmente realizado por meio de tentativa e erro, vem melhorando constantemente, ainda mais agora que a inteligência artificial pode sugerir quais combinações são as melhores para cada cérebro. Reforço para a memória? Ainda não está muito claro se a estimulação cerebral serve para melhorar outras funções, como a memória. Mas este ponto, atualmente, é objeto de investigação. A memória humana está concentrada em uma região do cérebro chamada hipocampo. Ela recebe informações de outras partes do cérebro, como o odor, o som e a imagem de uma experiência, e a converte em um código que é armazenado a curto ou longo prazo, explica o especialista em memória Robert Hampson, da Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos. Há vários anos, sua equipe realizou experimentos com pequenos roedores, que receberam uma tarefa que exigia o uso da memória, e observou o surgimento de padrões elétricos específicos antes que o animal decidisse o que fazer. “Se o rato de laboratório girar para a esquerda, obtenho um padrão que chamo de ‘esquerda’. Se ele girar para a direita, obtenho um padrão que chamo de ‘direita’”, explica Hampson. “Descobrimos que existem padrões associados ao funcionamento correto da memória e suas possíveis falhas.” Hampson começou a se perguntar se seria possível influenciar esses padrões e “reparar a memória quando ela falhar”. Sua equipe foi pioneira nos primeiros testes em seres humanos de um dispositivo denominado prótese neural hipocampal. De forma similar à ECP, ele exige a implantação cirúrgica de diversos eletrodos, estes dirigidos ao hipocampo. A tecnologia ainda não está totalmente desenvolvida. Por isso, no lugar da implantação de um marca-passo, os eletrodos são atualmente conectados a um grande computador externo, que pode enviar e receber sinais do cérebro. “Tentamos restaurar a função quando ela fica debilitada ou se perde”, detalhou Hampson. Em testes com pessoas com epilepsia, os resultados são promissores. “Observamos uma melhora de 25% a 35% da capacidade de reter informações por cerca de uma a 24 horas. Isso foi observado em pacientes que apresentavam maiores problemas de memória no início do teste.” Possibilidades para o futuro Esta tecnologia, algum dia, poderá ajudar pessoas que sofrem de problemas de memória como Alzheimer, segundo Robert Hampson. Mas será que ela poderia melhorar o cérebro de qualquer pessoa, não só das que sofrem de doenças degenerativas? Hampson acredita que ainda temos muito o que aprender sobre os motivos que levam a memória de algumas pessoas a funcionar melhor do que outras. “Não temos necessariamente informações suficientes para dizer ‘podemos melhorar o cérebro além do normal’”, segundo ele. E é claro que existem obstáculos éticos a considerar, além dos riscos da própria cirurgia cerebral. “A memória é a essência que nos define e a única coisa que não queremos é alterá-la”, conclui Hampson.

Guia orienta sobre mudança no rastreamento do câncer de colo do útero

Fonte: Agência Brasil EBC | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 08/01/2026 Alana Gandra – Repórter da Agência BrasilA Fundação do Câncer lançou nesta quinta-feira (8) nova versão atualizada do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero, como parte do Janeiro Verde, mês de conscientização e prevenção da doença. O guia teve a primeira edição lançada em 2022, quando se falava de vacinação contra o HPV (papilomavirus humano), vírus que afeta a pele e as mucosas – a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo – e o rastreamento com o exame Papanicolau, que utilizava a citologia, método vigente à época. A nova versão do guia visa a orientar profissionais de saúde na transição de rastreamento, que substituirá gradualmente o exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV. “Tanto a vacinação quanto o método de rastreamento receberam muitas mudanças nesse período, principalmente em 2025. Houve uma ampliação para vacinação do público-alvo contra o HPV”, disse a consultora médica da Fundação do Câncer, Flávia Miranda Corrêa. Segundo ela, em relação ao rastreamento foram incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS), em 2024, os testes moleculares (DNA-HPV) para detecção do HPV oncogênico (tipos de HPV com potencial capacidade de causar câncer de colo do útero). A partir de setembro do ano passado, começou o processo de implementação”. O processo de implementação dos testes moleculares para detecção do HPV oncogênico foi iniciado em setembro do ano passado, por meio de um núcleo criado na Secretaria de Atenção Especializada em Saúde, do Ministério da Saúde, e ocorrerá de forma gradativa, disse Flavia Corrêa, doutora em Saúde Coletiva da Criança e da Mulher pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz). Primeiro foram elencados municípios de 12 estados para começar essa implementação baseada. Eles estão em diferentes estágios de evolução desse processo. Agora começaram as conversas com mais 12 estados para ter apoio do ministério e começar a implementação”. Flavia destacou que nos lugares em que o rastreamento molecular (DNA-HPV) não tiver chegado ainda, continuarão valendo as regras baseadas no rastreamento citológico (Papanicolau). O guia atualizado da Fundação do Câncer já incorpora as recomendações das novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, aprovadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que preveem a substituição gradual do exame de Papanicolaou pelo teste de DNA-HPV no SUS. De acordo com o cirurgião oncológico e diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni, enquanto o Papanicolau identifica alterações celulares quando elas já estão presentes, o novo exame molecular detecta a infecção pelo HPV, “ampliando a capacidade de detecção precoce e a efetividade das estratégias de prevenção”. Público alvo Flavia Corrêa informou que o público-alvo do novo exame de rastreamento DNA-HPV continua o mesmo no Brasil, abrangendo mulheres na faixa etária de 25 a 64 anos de idade. Outros países fixaram a idade inicial em 30 anos. Após estudos, o Brasil decidiu manter o que já estava consolidado no país, principalmente para não ter os dois métodos sendo usados concomitantemente em uma mesma unidade de saúde. “As duas técnicas não podem coexistir, porque senão vai haver muita confusão e, inclusive, a possibilidade de serem feitos os dois testes na mesma mulher”, explicou. A periodicidade dos testes também é diferente. Na citologia, ele tem de ser repetido de três em três anos após um resultado negativo, depois de dois resultados negativos feitos no intervalo de um ano. “Os primeiros exames são anuais e, a partir daí, são trienais”. Com o exame molecular (DNA-HPV), mais sensível, sabe-se que 99% das mulheres têm teste negativo, não têm HPV, não têm lesão precursora nem câncer e, por isso, pode-se ampliar o intervalo do rastreamento para cinco anos. Essa diferença é justificada pela maior sensibilidade do teste HPV. Entre as mulheres que tiverem resultado positivo para os tipos mais perigosos e responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo do útero, que são o HPV 16 e 18, em que há mais risco de lesão precursora de câncer, o encaminhamento para exame de colposcopia é imediato. A colposcopia permite, por meio de lentes de aumento, visualizar o colo do útero e a vagina de forma ampliada e detalhada e, com o uso de alguns reagentes, detectar lesões precursoras da doença.  Flavia Corrêa disse ainda que além do HPV 16 e 18, existe um grupo de mais dez tipos de HPV, considerados pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) responsáveis por 30% dos casos de câncer de colo de útero. As mulheres com resultado positivo para outros tipos de HPV oncogênico terão a citologia reflexa processada no mesmo material coletado para o teste molecular. Caso a citologia apresente alterações, essas pacientes também serão encaminhadas para colposcopia. Mas se a citologia for normal, se não tiver nenhuma alteração, a paciente repete o teste de HPV em um ano, em vez de cinco anos, porque está em risco intermediário entre a mulher que tem HPV 16 e 18 positivo e aquela que apresenta teste negativo. Pilares O Brasil aderiu à Estratégia Global para a Eliminação do Câncer de Colo do Útero, lançada em 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e assumiu metas até 2030 que incluem vacinar 90% das meninas até 15 anos de idade, rastrear 70% das mulheres com teste molecular e tratar 90% das pacientes diagnosticadas com lesões precursoras ou câncer. Flavia Corrêa destacou que a vacinação das meninas é a forma mais eficaz de prevenir o câncer de colo do útero “porque simplesmente não tendo uma infecção por HPV, o câncer não ocorre. É o que a gente chama de prevenção primária”. Com a pandemia de covid-19 e, nos anos seguintes, com o movimento muito forte antivacina, a cobertura caiu. Agora, o Programa Nacional de Imunização (PNI) faz grande esforço em relação à meta de 2030 e, desde o final do ano passado, com duração prevista até o final do primeiro semestre de 2026, está fazendo o resgate dos adolescentes entre 15 e 19 anos que não foram vacinados até o momento contra o HPV. “Vai ser uma medida muito importante, porque a gente sabe que quanto mais

Como inteligência artificial está ressuscitando estrelas de cinema

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 27/08/2023 A maioria dos atores sonha em construir uma carreira que sobreviva mesmo após a morte. Poucos conseguem – o show business pode ser um lugar difícil para obter sucesso. Mas aqueles que conquistam seu objetivo podem alcançar uma espécie de imortalidade nas telas e além delas. Um dos ícones que conseguiu o feito é o ator de cinema americano James Dean, que morreu em 1955 em um acidente de carro depois de estrelar apenas três filmes, todos muito aclamados. No entanto, agora, quase sete décadas depois de sua morte, Dean foi escalado como estrela de um novo filme chamado Back to Eden (De volta ao Éden, em tradução livre). Um clone digital do ator – criado com tecnologia de inteligência artificial semelhante à usada para gerar deepfakes – caminhará, falará e interagirá na tela com outros atores do filme. A tecnologia está na vanguarda das imagens geradas por computador (CGI) de Hollywood. Mas também é fonte de preocupação para atores e roteiristas que entraram em greve em Hollywood pela primeira vez em 43 anos. Eles temem ser substituídos por algoritmos de IA – algo que eles argumentam que sacrificará a criatividade em prol do lucro. A atriz Susan Sarandon está entre aqueles que falaram sobre suas preocupações publicamente, alertando que a IA poderia fazê-la “dizer e fazer coisas sobre as quais não tenho escolha”. A ressurreição digital de Dean não é o primeiro episódio em que atores falecidos aparentemente voltaram à vida na tela com a ajuda de tecnologia digital avançada e uma pitada da magia de Hollywood. Carrie Fisher, Harold Ramis e Paul Walker são apenas algumas das celebridades notáveis ​​que reprisaram papéis icônicos no cinema postumamente. A cantora brasileira Elis Regina também ressuscitou recentemente para um anúncio da Volkswagen, no qual apareceu fazendo dueto com a filha Maria Rita. Essas aparições na tela representam o que Travis Cloyd, executivo-chefe da agência de mídia imersiva WorldwideXR (WXR), chama de representações de “tela plana passiva, 2D”, semelhantes a deepfakes. Esta é a segunda vez que o clone digital de Dean é escalado para um filme. Em 2019, foi anunciado que ele seria ressuscitado em CGI para um filme chamado Finding Jack (À Procura de Jack, em português), que foi posteriormente cancelado. Cloyd confirmou à BBC, no entanto, que Dean estrelará Back to Eden, um filme de ficção científica em que “uma visita fora deste mundo para encontrar a verdade leva a uma viagem pela América com a lenda James Dean”. A clonagem digital de Dean também representa uma mudança significativa no que é possível. Seu avatar de IA não apenas poderá desempenhar um papel de tela plana em Back to Eden e em uma série de filmes subsequentes, mas também interagir com o público em plataformas interativas, incluindo realidade aumentada, realidade virtual e jogos. A tecnologia vai muito além da reconstrução digital passiva ou da tecnologia deepfake que sobrepõe o rosto de uma pessoa ao corpo de outra. Levanta a perspectiva de os atores – ou qualquer outra pessoa – alcançarem uma espécie de imortalidade que de outra forma teria sido impossível, com carreiras que continuam muito depois de as suas vidas terem terminado. Mas ela também traz à tona alguns pontos controversos. Quem detém os direitos sobre o rosto, a voz e a personalidade de alguém após sua morte? Que controle eles podem ter sobre a direção de sua carreira após a morte – um ator que fez seu nome estrelando dramas corajosos poderia de repente aparecer em uma comédia boba ou mesmo em pornografia? E a imagem pode ser usada para anúncios? E indo ainda além, por que não deixar as celebridades descansarem em paz? O primo de Dean, Marc Winslow, que passou a infância em uma fazenda em Illinois com o ator, a quem ele carinhosamente chama de Jimmy, afirma que é o inegável apelo de seu primo, que transcende gerações, que o tornam uma escolha atraente para um papel grande no cinema moderno. “Se há duas ou três pessoas em uma cena, seus olhos vão direto para ele”, diz ele. “Sabe, não acho que alguém será capaz de substituí-los, mas é possível que eles consigam fazer isso na tela e tornar muito realista.” Clones digitais A imagem de Dean é uma das centenas representadas pela WRX e sua empresa parceira CMG Worldwide – incluindo Amelia Earhart, Bettie Page, Malcolm X e Rosa Parks. Quando Dean morreu, há 68 anos, ele deixou para trás uma coleção robusta de sua imagem em filmes, fotografias e áudio – o que Cloyd do WRX chama de “material de origem”. Cloyd diz que para obter uma representação realista de Dean, inúmeras imagens são digitalizadas, sintonizadas em alta resolução e processadas por uma equipe de especialistas digitais utilizando tecnologias avançadas. Adicione áudio, vídeo e IA e, de repente, esses materiais se tornam os blocos de construção de um clone digital que parece, soa, se move e até responde a comandos como Dean. O que Dean não deixou para trás foi uma pegada digital, ao contrário das celebridades de hoje que se envolvem nas redes sociais, tiram selfies privadas, enviam textos e e-mails, utilizam motores de busca, fazem compras online e compram receitas médicas online. Essas atividades fornecem enormes quantidades de dados sobre como pensamos e agimos que poderiam ser potencialmente utilizados para transformar um clone digital superficial em um inteligente que pode conversar de forma convincente com os vivos. Agora existem até empresas que permitem aos usuários fazer upload de dados digitais de entes queridos falecidos para criar “deadbots” que conversam com os vivos do mundo da morte. Quanto mais material de origem, mais preciso e inteligente será o deadbot, o que significa que os herdeiros das celebridades modernas podem potencialmente permitir que clones convincentes e realistas de seus parentes falecidos continuem trabalhando na indústria cinematográfica – e interagindo de forma quase autônoma – para sempre. Prevendo uma realidade assim para seu futuro, o ator Tom Hanks falou sobre o tema recentemente em um podcast, chamado Adam Buxton Podcast. “Eu poderia ser atropelado por um ônibus amanhã e pronto, mas minhas performances

OMS reconhece o fim da transmissão do HIV de mãe para filho no país

Fonte: Agência Brasil EBC | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet/Freepik | Data: 15/12/2025 Anúncio foi feito pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha Fabíola Sinimbú – Repórter da Agência Brasil O Brasil foi reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o maior país do mundo a eliminar a transmissão do HIV de mãe para filho, a chamada transmissão vertical, como problema de saúde pública. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, antecipou o anúncio durante o programa Bom Dia, Ministro, do CanalGov, na sexta-feira (15). Segundo Padilha, o Conselho da Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS) em conjunto com representantes da OMS visitará o Brasil esta semana para a entrega oficial da certificação ao governo brasileiro. “Significa que o Brasil conseguiu eliminar graças ao SUS [Sistema Único de Saúde], aos testes rápidos das unidades básicas de saúde, aos testes do pré-natal, às gestantes que têm HIV tomarem a medicação pelo SUS”, disse Padilha. O ministro lembrou que há algumas décadas o Brasil tinha iniciativas filantrópicas para manutenção de abrigos para órfãos com HIV, que haviam perdido os pais em decorrência da Aids.  “Abrigavam aqueles bebês que tinham nascido com HIV e seus pais tinham morrido. A gente não tem mais isso no nosso país, felizmente, nem a transmissão do HIV da gestante para o bebê”, comemorou. Segundo o ministro, o Brasil apresentou um dossiê à organização mundial no mês julho com os dados do SUS no Brasil. Apostas eletrônicas Ao longo do programa, o ministro destacou ainda iniciativas promovidas pela pasta da Saúde como o Observatório Saúde de Apostas Eletrônicas, que reúne uma série de iniciativas de enfrentamento aos riscos à saúde mental associados às apostas eletrônicas. Entre as ações destacadas, Padilha reforçou a disponibilização de uma ferramenta que permite ao cidadão bloquear simultaneamente todas as contas em sites de apostas, por meio do aplicativo Meu SUS Digital. O serviço de teleatendimento psicossocial também será implantado como parte das iniciativas, informou. Segundo o ministro, estudos realizados pela pasta da Saúde apontam que as pessoas se sentem mais à vontade em consultas online com psicólogos e psiquiatras para tratar do assunto.  “As pessoas não vão ao Centro de Atenção Psicossocial para isso. Eles têm um número pequeno de atendimentos dessa natureza. Devem chegar, este ano, a 5 mil”, explicou.

Robôs cuidadores e roupas com GPS: as apostas do Japão contra crise de demência entre idosos

Fonte: BBC Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet / Design por Freepik | Data: 08/12/2025 Em 2024, mais de 18 mil idosos com demência deixaram suas casas e desapareceram no Japão. Quase 500 foram encontrados mortos. Segundo a polícia, o número de casos dobrou desde 2012. Pessoas com 65 anos ou mais respondem hoje por quase 30% da população japonesa (do total de quase 124 milhões) — a segunda maior proporção do mundo, atrás de Mônaco, segundo o Banco Mundial. A crise se aprofunda com a queda da força de trabalho e as restrições à entrada de estrangeiros para atuar nos cuidados. O governo japonês trata a demência como uma de suas prioridades. O Ministério da Saúde estima que os gastos de saúde e assistência social ligados à condição chegarão a 14 trilhões de ienes (cerca de R$ 490 bilhões) até 2030, acima dos 9 trilhões de ienes (cerca de R$ 315 bilhões) previstos para 2025. A estratégia mais recente do governo aponta para maior aposta em tecnologia para aliviar a pressão sobre o sistema. Pelo país, multiplicam-se sistemas baseados em GPS para rastrear pessoas que se perdem. Algumas regiões distribuem dispositivos vestíveis que alertam as autoridades assim que alguém ultrapassa uma área delimitada. Em algumas cidades, os funcionários de lojas de conveniência recebem alertas em tempo real, criando uma rede comunitária de proteção que permite encontrar desaparecidos em poucas horas. Robôs cuidadores e IA Outras tecnologias buscam detectar a demência mais cedo. O aiGait, da empresa japonesa Fujitsu, usa inteligência artificial para analisar a postura e os padrões de marcha, identificando sinais precoces de demência, como arrastar os pés ao caminhar, giros mais lentos ou dificuldade em manter-se em pé. O sistema gera esboços esqueléticos que os médicos podem analisar durante exames de rotina. “A detecção precoce de doenças relacionadas à idade é fundamental”, diz Hidenori Fujiwara, porta-voz da Fujitsu. “Se os médicos puderem usar dados de captura de movimento, poderão intervir mais cedo e ajudar as pessoas a se manterem ativas por mais tempo.” Enquanto isso, pesquisadores da Universidade Waseda (Japão) desenvolvem o AIREC, um robô humanoide de 150 kg projetado para ser um cuidador “do futuro”. Ele pode ajudar a calçar as meias, mexer os ovos e dobrar as roupas. Os cientistas esperam que, no futuro, o AIREC possa trocar fraldas geriátricas e prevenir escaras — lesão na pele causada por pressão contínua em pessoas acamadas ou com mobilidade reduzida. Robôs semelhantes já são usados em casas de repouso para tocar músicas para os residentes ou orientá-los em exercícios de alongamentos simples. Eles também monitoram os pacientes à noite — instalados sob os colchões para acompanhar o sono e as condições de saúde — e reduzir a necessidade de rondas humanas. Embora robôs humanoides estejam previstos para o futuro próximo, o professor assistente Tamon Miyake afirma que o nível de precisão e inteligência necessário para interagir com segurança com pessoas ainda exige ao menos cinco anos de desenvolvimento. “É preciso captação completa do corpo e compreensão adaptativa — e como saber se ajustar para cada pessoa e situação”, diz. A inovação também avança no apoio emocional. O Poketomo, um robô de 12 cm, pode ser transportado em uma bolsa ou caber no bolso. Ele lembra os usuários a hora do medicamento, dá instruções sobre o clima em tempo real e conversa com pessoas que vivem sozinhas, o que, segundo seus criadores, ajuda a reduzir o isolamento social. “Estamos focados em questões sociais… e em usar novas tecnologias para ajudar a resolver esses problemas”, afirma Miho Kagei, gerente de desenvolvimento da Sharp, à BBC. Apesar do avanço dos dispositivos, o vínculo humano continua insubstituível. “Os robôs devem complementar, e não substituir, os cuidadores humanos”, diz Miyake. “Embora possam assumir algumas tarefas, seu papel principal é auxiliar tanto os cuidadores quanto os pacientes.” No restaurante Restaurant of Mistaken Orders, em Sengawa, Tóquio, os clientes chegam para ser atendidos por pessoas com demência. O espaço foi fundado por Akiko Kanna. Inspirada pela experiência do seu pai com a doença, Kanna queria criar um lugar onde as pessoas pudessem se manter ativas e ter propósito. Toshio Morita, um dos atendentes do café, usa flores para lembrar quais mesas fizeram cada pedido. Apesar do declínio cognitivo, ele aprecia a interação. Para a esposa, o café oferece alívio e ajuda a manter Morita engajado. O café de Kanna mostra por que intervenções sociais e apoio comunitário continuam essenciais. A tecnologia pode fornecer ferramentas e aliviar a rotina, mas é o engajamento significativo e a conexão humana que sustentam, de fato, quem vive com demência. “Honestamente? Eu queria um dinheirinho extra. Gosto de conhecer pessoas diferentes”, diz Morita. “Cada um é diferente e é isso que torna divertido.” Reportagem adicional de Jaltson Akkanath Chummar

A incrível história do garoto que inventou o sistema Braille

Fonte: BBC Brasil| Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet | Data: 19/11/2025 Num dia de 1812, na comuna de Coupvray, perto de Paris, na França, Louis Braille estava brincando na oficina do pai, que fabricava arreios para cavalos. Aos 3 anos, não era raro que se sentisse atraído por ferramentas de marcenaria e, imitando o que havia visto, pegou uma das mais pontiagudas para “brincar de papai”. Talvez não tenha sido a primeira vez que ele fez isso, e provavelmente haviam dito a ele para não fazer — mas, nesta idade, não se medem as consequências. E, nesta ocasião, aconteceu um acidente que mudaria para sempre sua vida e, alguns anos mais tarde, a de muitas outras pessoas. Enquanto tentava fazer um buraco no couro, a sovela escorregou das mãos dele e perfurou seu olho. O olho ficou infeccionado, e a infecção não apenas evoluiu, como também passou para o outro olho. Aos 5 anos, Louis Braille estava completamente cego. Embora a escola local não oferecesse nenhum programa especial para pessoas com deficiência visual, seus pais tinham clareza que não deviam negar a ele a oportunidade de estudar. Eles o matricularam então e, aos 7 anos, Braille começou a ir para a escola. Como a maior parte do ensino era feita de forma oral, ele acabou sendo um aluno apto. Mas, sem saber ler ou escrever, estava sempre em desvantagem. Finalmente, aconteceu a melhor coisa que poderia acontecer: ele ganhou uma bolsa para estudar no Instituto Nacional para Jovens Cegos (Inja, na sigla em francês), em Paris. Rumo a Paris Braille chegou à capital francesa e ao Inja quando tinha 10 anos. Naquela época, o sistema de leitura usado até mesmo no instituto era muito básico: os poucos livros que haviam eram impressos com letras em relevo, sistema inventado pelo fundador da escola, Valentin Haüy. Isso significava que os alunos tinham que passar os dedos sobre cada letra lentamente, do começo ao fim, para formar palavras e, depois de muito esforço, frases. Em 1821, Charles Barbier, capitão do exército francês, foi ao instituto compartilhar um sistema de leitura tátil desenvolvido para que os soldados pudessem ler mensagens no campo de batalha na escuridão, sem alertar o inimigo com lanternas. Ele se deu conta de que sua “escrita noturna”, como a chamava, poderia beneficiar os cegos. Pontos e linhas, em vez de letras Em vez de usar letras impressas em relevo, a escrita noturna utilizava pontos e traços em relevo. Os alunos experimentaram, mas logo perderam o interesse, uma vez que o sistema não apenas não incluía letras maiúsculas ou pontuação, como as palavras eram escritas como eram pronunciadas, e não na ortografia francesa padrão. Louis Braille, no entanto, persistiu. Pegou o código como base e foi aperfeiçoando. Três anos depois, quando tinha 15 anos, havia completado seu novo sistema. As mudanças A primeira versão de seu novo sistema de escrita foi publicada em 1829. O que ele fez foi simplificar o sistema de Barbier, reduzindo os pontos em relevo. A ideia era que ficassem do tamanho certo para senti-los com a ponta do dedo com um único toque. Para criar os pontos em relevo na folha de papel, ele usou uma sovela, a mesma ferramenta pontiaguda que havia causado sua cegueira. E, para garantir que as linhas ficassem retas e legíveis, usou uma grade plana. Como Braille adorava música, também inventou um sistema para escrever notas. O tempo passou… O mundo da medicina era muito conservador e demorou a adotar a inovação de Braille. Tanto que ele morreu 2 anos antes de finalmente começarem a ensinar seu sistema no instituto em que havia estudado. Faleceu de tuberculose aos 43 anos. Com o passar do tempo, o sistema começou a ser usado em todo o mundo francófono. Em 1882, já estava em uso na Europa. Em 1916, chegou à América do Norte e depois ao resto do mundo. Um sistema adaptável O sistema braille mudou a vida de muitas pessoas cegas ao redor do mundo. Lê-se da esquerda para a direita como outras escritas europeias, e não é uma língua: é um sistema de escrita, o que significa que pode ser adaptado para diferentes línguas. Foram desenvolvidos ainda códigos braille para fórmulas matemáticas e científicas. No entanto, com o advento de novas tecnologias, incluindo leitores de tela para computador, as taxas de alfabetização neste sistema estão diminuindo. Homenagem póstuma Em 1952, em homenagem ao seu legado, os restos mortais de Louis Braille foram desenterrados e transferidos para o Panteão de Paris, onde estão localizados os túmulos de alguns dos mais célebres líderes intelectuais da França. No entanto, Coupvray, sua terra natal, insistiu em ficar com as mãos dele, que estão sepultadas em uma urna simples no cemitério da igreja. A Nasa, agência espacial americana, deu, por sua vez, o nome de “9969 Braille” a um tipo raro de asteroide, um eterno tributo a um grande ser humano. *Este artigo é baseado no vídeo The incredible story of the boy who invented Braille (“A incrível história do menino que inventou o Braille”), da BBC Ideas. Você pode assistir aqui ao vídeo (em inglês). **Este texto foi publicado originalmente em abril de 2022 e republicado em 19 de novembro de 2025

Inteligência artificial já pode ter consciência? O que dizem os cientistas

Fonte: BBC News Brasil | Seção: Notícias | Imagem: Reprodução Internet | Data: 26/05/2025 Entro na cabine com alguma apreensão. A qualquer instante, vou ser exposto a uma luz estroboscópica enquanto uma música toca no fundo, tudo parte de um projeto de pesquisa que tenta entender o que nos torna verdadeiramente humanos. É uma experiência que lembra o teste do filme de ficção científica Blade Runner, criado para distinguir humanos de seres criados artificialmente que se passam por humanos. Será que eu poderia ser um robô do futuro e não saber? Passaria no teste? Os pesquisadores me garantem que não é disso que se trata o experimento. O dispositivo que eles chamam de “máquina dos sonhos” foi projetado para estudar como o cérebro humano gera nossas experiências conscientes do mundo. É como pular em um caleidoscópio, com triângulos, pentágonos e octógonos em constante mudança. As cores são vivas, intensas e em constante mudança: tons de rosa, magenta e turquesa, brilhando como luzes de neon. A “máquina dos sonhos” traz a atividade interna do cérebro à tona com luzes piscantes com o objetivo de explorar como nossos processos de pensamento funcionam. As imagens que vejo são exclusivas do meu mundo interior e únicas para mim, de acordo com os pesquisadores, que acreditam que esses padrões podem lançar luz sobre a própria consciência. Eles me ouvem sussurrar: “É lindo, absolutamente lindo. É como voar pela minha própria mente!” A “máquina dos sonhos”, no Centro de Ciência da Consciência da Universidade de Sussex, é apenas um dos muitos novos projetos de pesquisa ao redor do mundo que investigam a consciência humana: a parte de nossas mentes que nos permite ter autoconsciência, pensar, sentir e tomar decisões independentes sobre o mundo. Ao aprender sobre a natureza da consciência, os pesquisadores esperam entender melhor o que está acontecendo dentro dos cérebros de silício da inteligência artificial. Alguns acreditam que os sistemas de IA em breve se tornarão conscientes de forma independente, se é que ainda não o são. Mas o que realmente é consciência e quão perto a IA está de obtê-la? E a crença de que a IA pode ser consciente pode mudar fundamentalmente os humanos nas próximas décadas? Da ficção científica à realidade A ideia de máquinas com mentes próprias tem sido explorada há muito tempo na ficção científica. As preocupações com a IA remontam a quase cem anos, ao filme Metrópolis, no qual um robô se passa por uma mulher real. O medo de que as máquinas se tornassem conscientes e representassem uma ameaça aos humanos foi explorado no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de 1968, quando o computador HAL 9000 tentou matar astronautas a bordo de sua nave espacial. E no último filme Missão Impossível, que acaba de ser lançado, o mundo é ameaçado por uma poderosa IA desonesta, descrita por um personagem como um “parasita digital autoconsciente, autodidata e devorador de verdades”. No mundo real, contudo, muito recentemente houve uma rápida mudança no pensamento sobre a consciência das máquinas — especialistas ​​começaram a expressar preocupação de que isso não seja mais coisa de ficção científica. A mudança repentina foi motivada pelo sucesso dos chamados grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês), que podem ser acessados ​​por meio de aplicativos como Gemini e Chat GPT. A capacidade da última geração dos LLMs de ter conversas plausíveis e fluidas surpreendeu até mesmo seus criadores e alguns dos principais especialistas da área. Há uma visão crescente entre alguns pensadores de que, à medida que a IA se torna ainda mais inteligente, as luzes se acenderão repentinamente dentro das máquinas e elas se tornarão conscientes. Outros, como o professor Anil Seth, que lidera a equipe da Universidade de Sussex, discordam, descrevendo a visão como “cegamente otimista e motivada pelo excepcionalismo humano”. Associamos consciência à inteligência e à linguagem porque elas andam juntas nos humanos. Mas só porque andam juntas em nós, não significa que andem juntas em geral, por exemplo, nos animais. Então, o que é realmente consciência? A resposta curta é que ninguém sabe. Isso fica claro pelos argumentos bem-humorados, porém robustos, da própria equipe do professor Seth, composta por jovens especialistas em IA, especialistas em computação, neurocientistas e filósofos, que estão tentando responder a uma das maiores questões da ciência e da filosofia. Embora existam muitas visões diferentes no centro de pesquisa da consciência, os cientistas estão unidos em seu método: dividir esse grande problema em muitos outros menores em uma série de projetos de pesquisa, que inclui a “máquina dos sonhos”. Assim como a busca pela “centelha de vida” que poderia dar vida a objetos inanimados foi abandonada no século 19 em favor da identificação de como partes individuais dos sistemas vivos funcionavam, a equipe de Sussex agora está adotando a mesma abordagem para a consciência. Eles esperam identificar padrões de atividade cerebral que expliquem várias propriedades de experiências conscientes, como mudanças em sinais elétricos ou fluxo sanguíneo para diferentes regiões. O objetivo é ir além da busca por meras correlações cerebrais entre atividade e consciência e tentar encontrar explicações para seus componentes individuais. O professor Seth, autor do livro sobre consciência Being You (“sendo você”, em tradução literal), teme que possamos estar nos precipitando em uma sociedade que está sendo rapidamente remodelada pelo ritmo acelerado das mudanças tecnológicas sem conhecimento suficiente sobre a ciência ou reflexão sobre as consequências. “Entendemos isso como se o futuro já estivesse escrito; que há uma marcha inevitável para uma substituição sobre-humana”, diz ele. “Não tivemos essas conversas o suficiente com o surgimento das mídias sociais, para nosso prejuízo coletivo. Mas com a IA, ainda não é tarde demais. Podemos decidir o que queremos.” Já existe consciência na inteligência artificial? Alguns no setor de tecnologia acreditam que a IA em nossos computadores e telefones pode já estar consciente e que, por isso, devemos tratá-la como tal. O Google suspendeu o engenheiro de software Blake Lemoine em 2022 após ele argumentar que chatbots de inteligência artificial podiam sentir e potencialmente sofrer. Em novembro de 2024, um responsável pelo bem-estar da IA ​​da Anthropic, Kyle Fish, foi coautor de um relatório sugerindo que a consciência da